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sábado, 31 de agosto de 2013

A ausência presente. Uma leitura psicanalítica de obras de Hitchcock



Podemos dizer que o núcleo da teoria psicanalítica é constituído pelo inconsciente como terceira pessoa, como algo que não reconhecemos como tal, mas que atua em nós. Trata-se de um agente externo-interno a nós mesmos, de modo que sempre será uma tarefa reconciliá-lo com nossa consciência. A discrepância dessa alteridade interna adquire não apenas diversas formas, quanto também diversas intensidades, e, devido a sua forte heterogeneidade em relação ao plano da consciência, sempre irá apresentar algum grau de estranheza, de incompatibilidade e recalcitrância perante várias outras porções de nosso psiquismo. A apropriação imagética e também estética desse estranho se dá na medida em que o mundo exterior parece conspirar com nossa interioridade, embora isso não mostre conexão imediata, legível e racional. A superstição, por exemplo, é expressão desse alinhamento inesperado, ao mesmo tempo desejado e recusado entre o interior e o exterior: o interno é deixado em sua contingência, em seu acaso, e o exterior é visto como se conectando a forças e poderes mágicos, místicos e míticos cósmicos.

Em Hitchcock, temos o estranho como fruto de uma presença ausente ou de uma ausência presente, que determina o fluxo dos acontecimentos por desconcertar uma lógica plenamente racional, que se cinde sem possibilidade de resolução direta. A tensão de cada obra se situa nas inaptidões das soluções, que demandam sempre e de novo outras configurações, gerando desajustes e por assim em diante. Meu objetivo aqui é apontar alguns aspectos dessa perspectiva em quatro obras do cineasta: Psicose, Um corpo que cai, Festim diabólico e Tortura do silêncio. (Trata-se, nesta postagem, apenas de alguns apontamentos que deverão dar origem a um texto mais longo e elaborado.)

De todos esses filmes, em Psicose a ausência e a presença ganham uma tensão sui generis pelo modo com que elas se cristalizam na mesma pessoa, obrigando a uma cisão psíquica interna em que reina a violência bruta e incontrolada. O caráter estrangeiro da mãe é vivido internamente como incompatível com a vida adulta normal de Norman, pois ambos situam-se em âmbitos psíquicos bastante divergentes e incompossíveis. O fato de que a pousada estava sempre vazia durante o filme aponta para uma explicitação metafórica da impossibilidade de trânsito entre o interno e o externo. Essa incompatibilidade é trazida para o âmbito da  interioridade pelo modo com que o desejo pelas mulheres implica na fúria da presença materna incorporada e tornada violenta. A tensão do filme consiste em mostrar o quanto essa divisão interna impede todo contato harmônico e racionalmente possível com o exterior, de tal forma que todas as pessoas que se aproximam de Norman serão mortas, rejeitadas violentamente. Todas elas significam, de alguma forma, a ativação do que a presença ausente da mãe tem de mais insuportavelmente forte e desejado, de forma que atração e repulsa resultam na anulação radical da alteridade externa.

A presença da mãe ausente impossibilita Norman de ser mais do que ele mesmo, para poder transitar com o mundo exterior. De certa forma, podemos dizer que Norman não consegue ausentar-se de si mesmo para acolher a diferença do outro, pois essa diferença já foi completamente saturada por essa ausência presente da mãe. Por mais paradoxal que seja, essa ocupação plena e violenta da mãe se dá pelo fato de ela estar presente como um ser ausente, fragmentário e parcial. Se ela existisse em sua inteireza simbólica, sua força de atração e repulsa seria menos invasiva, pois essa completude indicaria um grau de resolução mais, por assim dizer, satisfatório para o equilíbrio entre os diversos estratos psíquicos e destes para com a realidade exterior.

Embora toda a trama do filme Um corpo que cai se dê em relação a um assassinato, muito do interesse do enredo vai girar ao redor do quanto Madeleine se identificava com Carola, embora não se apercebesse disso. Ela age incorporando uma outra pessoa que está ausente, através de atos em que a própria consciência de seu caráter substitutivo também está ausente, substituída pela presença concreta de ações indefinidamente repetidas. Depois de presenciar o suposto suicídio de Madeleine, John vai à procura de uma substituta para ela, e é através dessa duplicidade que, enfim, descobrirá a verdade do assassinato. Note-se que ele então passa a procurar um duplo para alguém que encarnava a duplicidade de um ser ausente, e me parece claro que o sentido estético da articulação do filme consiste em nos fazer crer que é esta miragem de espelhos infinitamente rebatidos uns nos outros que estimulava não apenas a curiosidade de John, mas todo seu investimento afetivo/erótico. De forma análoga a Psicose, é a irresolução entre presença e ausência, ou melhor, sua imbricação vertiginosa, que é a mola propulsora do entrelaçamento dos fatos da narrativa.

Toda a trama será inserida entre a queda de dois corpos: a que se dá no início, do colega policial de John, e a da esposa de seu amigo, que ele pensava ser a própria Madeleine. Embora o nome português descreva o que confere compreensão ao filme, o título original, Vertigo (= vertigem), aponta para o que é mais relevante em termos de sentido estético da obra, pelo fato de que a fobia de altura se manifestava como vertigem, que é propriamente aquela circunstância em que estamos no limite entre referência e ausência total dela. De certa forma, nós, como espectadores, experimentamos essa relação de vertigem nos processos de identificação, substituição, encontro e morte que se alternam incessantemente ao longo do filme.

Em Festim diabólico existe a explicitação da presença de uma vida ausente cristalizada em cadáver colocado bem abaixo da mesa de uma festa. De forma análoga a como a mãe de Norman (em Psicose) por assim dizer invadiu e colonizou seu psiquismo, este corpo que morreu (em Festim) persiste com sua marca de violência em um momento de celebração, de tal forma que esta poderia ser tomada como a expressão direta de um sadismo que insiste em situar-se na iminência de sua revelação (aproximando-o de seu oposto, o masoquismo). O ausente se torna presente no tensionamento de sua evidência criminosa. Embora o comportamento de Philipp tenha tornado um tanto óbvia sua culpa pelo assassinato, isso tem o papel preciso na narrativa de colocar em evidência essa situação-limite entre ausência e a presença na figura de uma pessoa assassinada.

Se essa contradição entre ausência e presença em Festim diabólico é corporificada na exterioridade do corpo do cadáver, em A tortura do silêncio essa contradição é completamente interiorizada, e caminha na direção oposta. Enquanto em Festim diabólico essa dualidade se situa no âmbito vil e baixo do sadismo, em A tortura do silêncio temos a elevação sublime da inteireza de caráter do padre Logan do início ao fim. Podemos dizer que ele interioriza esta ausência como um fato presente de consciência a ser colocado como veículo (também) para uma celebração, mas agora de sua grandeza moral e religiosa. Essa interiorização, entretanto, será rompida pelo fato de que a resolução final da trama será dada pelo surto de consciência de Alma e o desespero de Keller. Uma vez que o padre Logan não hesitará em sua convicção moral, a tensão da ambiguidade entre ausência e presença será resolvida, então, por meio de ações das outras pessoas.

A partir de caracterizações gerais psicanalíticas, é interessante pensar que que a mescla não resolvida entre a ausência e presença resulta na cisão psicótica no primeiro filme, na obsessividade cognitiva no segundo, na  perversão sádica, no terceiro, e na sublimação moral, no quarto. Em cada caso vemos a tensão da narrativa aumentar proporcionalmente a como cada personagem se vê invocado a lidar com a presença do outro. Em Psicose, o desejo de Norman pelas mulheres é esse estopim que faz explodir a violência da maternidade incorporada em seu teor fragmentário; em Um corpo que cai, é a fantasia obsessiva investigadora de John que faz conectar a verdade de seu desejo e a verdade objetiva do mundo; em Festim diabólico, é o trânsito absurdamente sádico e frio, bem como manipulador e cínico, que torna a iminência de punição a chave do registro do vínculo de alteridade; em A tortura do silêncio, é a demanda sublime de consistência moral perante a afronta vinda da baixeza dos homens que sustenta a tensão entre o interior e o exterior. — Muito da mestria cinematográfica de Hitchcock consiste, nesse panorama, no trânsito entre os diversos planos descritivos de interioridade e exterioridade, de cisão e convergência, de colocação pontual e perspectiva do todo, e de diversas outras polaridades  dentro de toda a trama narrativa.

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