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sábado, 3 de agosto de 2013

A verdade cansa

Quem estuda psicanálise logo se depara com a realidade das diferenças de tempo para que uma verdade do plano subjetivo se faça vivida de forma mais consistente na realidade. Há vários ciclos de assimilação dos conteúdos descobertos e ritmos diferentes com que se fazem associações posteriores que agregam mais elementos de uma cena a ser deslindada. Não se trata apenas de uma questão cronológica, de mais tempo, mas de diferenças qualitativas com que as verdades psíquicas são compreendidas em virtude da especificidade de cada abordagem. Em função dessa diferença, um fenômeno especialmente interessante chama nossa atenção. Muitas vezes o tempo para se digerir algo que reconhecemos como válido, uma “verdade”, começa a ser irritantemente longo, como se uma frase que descreve certo conteúdo psíquico continuasse a se fazer presente “martelando” nossa perspectiva de mundo atual com um saber que começa a adquirir a feição de um mantra (originalmente, uma sílaba, palavra ou verso no hinduísmo e no budismo repetidos indefinidamente com alguma intenção doutrinária). A questão que nos interessa aqui é precisamente essa percepção do quanto uma descrição válida ou verdadeira sobre a realidade começa a ser colocada sob suspeita pelo fato de ela se repetir demais.

Theodor Adorno dizia que não apenas o nosso discurso pode ser falso, mas a própria realidade a que ele se refere. Isso se dá porque o real sempre será moldado por nossos conceitos, princípios e valores, todos eles frutos de sedimentação de relações de poder constituídas ao longo dos séculos. Por mais que tenhamos uma perspectiva crítica sobre essa conformação social da experiência, sempre haverá uma ampla margem de sombra e obscuridade sobre o que percebemos como “a realidade ela mesma”. Isso pode ser perfeitamente aplicado, por motivações diversas, ao âmbito de constituição de nossa subjetividade, de nosso psiquismo. Nossos desejos inconscientes não perfazem simplesmente algo que deva ser admitido de forma literal, ou seja, tal como se apresentam nas elaborações fantasísticas descobertas no trabalho de análise. Freud sempre dizia que um dos resultados do trabalho analítico pode consistir em desenvolvermos a capacidade de julgar conscientemente como inadequados à compleição subjetiva global do indivíduo certos desejos inconscientes. Em virtude disso, começamos a experimentar um entrelaçamento vertiginoso entre uma verdade que se alcançou em relação a algo que é falso em sua pretensão de se mostrar como tal na superfície, na dimensão concreta, de nossa existência.

Um dos grandes esforços para a elucidação psicanalítica do psiquismo consiste em um estabelecimento de uma comunicabilidade de diversos planos, instâncias e agências psíquicas. Muito da neurose consiste no bloqueio desse trânsito, fazendo com que haja um embate por demais “duro” entre os diversos campos da subjetividade, desde os mais profundos e arcaicos até os mais evidentes e atuais. A dificuldade reside em que os critérios de validade, de justificativa e de razão de ser de cada um desses elementos em conflito são por demais heterogêneos, mas necessariamente deverão ser vivenciados em conjunto, formando a totalidade que é o próprio sujeito. Em grande parte do processo tanto de análise quanto de tentativa de vivência concreta, ou seja, de “pôr em prática” os conhecimentos analíticos, será inevitável que se gaste uma energia psíquica para costurar as vias de interlocução tradutiva do que podemos considerar como diferentes racionalidades. Como está muito claro que não existe um ponto de apoio previamente garantido como critério de verdade, a consequência é que deverão ser criados pontos de referência móveis, que se deslocam ao longo do tempo. Mas há uma outra consequência, que se liga ao que falamos no início do texto: começamos a firmar a perspectiva de que a verdade sobre nós mesmos necessariamente é cambiante, inevitavelmente sempre construída e reconstruída através das metamorfoses sucessivas com que produzimos elaborações discursivos sobre nossos conteúdos inconscientes. Se algo, como discurso sobre nós mesmos, mantém-se, repetindo-se indefinidamente, somente pode ser falso — como um mantra. Ora, não necessariamente.

Uma das características mais absurdas do inconsciente consiste no fato de ser constituído por fixações profundas no psiquismo, cuja força de atração gravitacional psíquica é desmesuradamente grande em relação à nossa perspectiva consciente mais superficial. Por mais que sejam de fato imprescindíveis novas formulações e reformulações linguísticas sobre nossos conteúdos inconscientes, não se pode descartar previamente que seja uma verdade sobre nós mesmos algo que incessantemente cobra sua atualização compulsiva e inexpugnável. Nesse momento, a verdade começa a cansar, e então nós como que procuramos um alívio de seu peso colocando em suspeição a sua própria validade pelo fato de que ela se repete. Não é difícil caracterizar essa estratégia como mais uma das várias que são colocadas a serviço da resistência subjetiva ao trabalho analítico, as quais, de tão recorrentes e inevitáveis, também começam a nos cansar...

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2 comentários:

Rick Gonçalves disse...

olá, professor. Parabéns pelo blog. Minha dúvida é quanto a essa hegemonia da resistência. Parece não haver barreiras a ponto de tudo no ser humano poder ser lido em termos de resistência. Pensando em Popper, parece não haver nada que possa falsear a resistência inconsciente, sendo que cogitar falseá-la já seria conferir legitimidade. Tem saída? Obrigado

Verlaine Freitas disse...

Obrigado pelo comentário, Rick. O conceito de resistência na psicanálise não obedece aos critérios de cientificidade aplicáveis às ciências naturais. Não é falsificável, nem comprovável, pelo fato de ser eminentemente prático, derivado do princípio fundamental de que o inconsciente é formado essencialmente de conteúdos recalcados, avessos à unidade narcísica do eu. Uma vez que se aceite essa proposição do conflito psíquico, conclui-se que o eu sempre usará de estratégias defensivas para manter os conteúdos inconscientes fora do campo da consciência atual, o que resulta em diversas formas de resistência. Como a pressão do inconsciente é constante, logo a resistência também o será.