A profissão de docente possui diversos aspectos com grande
heterogeneidade, de modo que é necessário um esforço considerável para que se
consiga prestar atenção a todos, sem deixar que algum deles, especificamente,
atrapalhe todos os outros que estejam bem equacionados e resolvidos. Em uma das
instituições em que lecionei, pude presenciar uma grande dificuldade por parte
de vários colegas em conseguir manter uma boa disciplina durante a aula, de tal
forma que eram constantes as reclamações de muita conversa e até de atitudes
agressivas entre os alunos para com o professor. Como não se tratava de uma
instituição pública, nem situada em áreas de baixo nível sócio-econômico, essa
situação negativa chamou minha atenção, uma vez que todo o problema parecia
gravitar ao redor da relação pessoal/didática/pedagógica entre professor e
alunos. Como eu trabalhava com algumas das mesmas turmas que eram alvo das
queixas dos demais colegas, fui levado desde o início a refletir em que
poderiam consistir as diferenças ao lidar com tais problemas, pois durante as
minhas aulas eles não ocorriam.
Apesar de todo professor ter em mente que as condições boas
de trabalho em uma turma (na medida em que não haja conversa, desatenção,
brincadeiras entre os alunos, agressão para com o professor etc.) resultem em
grande medida do interesse despertado em todos, seja por estratégias
pedagógicas específicas de envolvimento com o que está sendo falado e
discutido, seja pela metodologia de apresentação dos conteúdos, ou pela
importância que os temas possuem para a vida profissional dos discentes, em uma
grande quantidade de casos a indisciplina ocorre de tal forma que dificulta a
implementação e manuseio de muitas técnicas específicas para envolver os alunos
no processo de aprendizado. Devido à necessidade de haver aulas expositivas,
digamos “tradicionais”, para vários tipos de matérias, particularmente as que
têm uma carga teórica significativa, sou cético em relação à possibilidade de “dissolver”
toda a problemática da indisciplina nas questões de envolvimento pedagógico dos
alunos, devendo ela ser tratada, de alguma forma, como também um problema
específico.
No que concerne à perspectiva do professor, a situação de
desarmonia e de indisciplina na sala de aula passa, de forma tensa, pela questão
do respeito, do valor que é dado à sua posição de quem deve conduzir os
trabalhos. Em virtude disso, é muito provável que a situação de descontrole
seja vivida como uma agressão, enfrentamento e desafio à sua autoridade. Nesse
instante, faz toda diferença, nas possibilidades de resolução, o modo como
estes enfrentamentos da autoridade são lidos afetivamente. O que me parece mais
urgente a ser evitado é interpretar algum ato de indisciplina ou provocação
como se fosse algo apenas negativo, ou seja, como agressão ou transgressão.
Visto em sua pura negatividade, dificilmente ele pode ser retraduzido para o
aluno de modo a se construir uma relação boa entre ambas as partes.
Se Freud está certo em dizer que o professor é uma das
figuras que substituem o pai, e que consequentemente também recebe um
investimento afetivo ambíguo, a saber, de admiração e ódio/rivalidade, então um
ato de indisciplina (embora, obviamente, nem todos) pode essencialmente
significar um questionamento, uma pergunta, que é ao mesmo tempo um pedido: “Você
consegue ser tão bom e tão forte quanto eu mesmo gostaria de ser?”. Essa
questão somente admite, no complexo afetivo das trocas entre docente e
discente, uma resposta prática, vivenciada, intuitiva, e não discursiva ou
previamente tomada como garantida devido às credenciais acadêmicas e de
situação institucional. Isso se dá pelo fato de ela conter uma ambiguidade
essencial: tanto uma resposta negativa quanto positiva satisfazem o
investimento afetivo do aluno. O “não” fornece o prazer mais imediato de
desnudar a autoridade como fraude, como impostura, alimentando o desejo de cada
vez mais e de novo obter-se esta mesma resposta. Desnecessário dizer que o “sim”
é não apenas bom em si mesmo, quanto pelo complexo de trocas pessoais que envolve
e faz frutificar em uma determinada direção.
Isso mostra que outro conceito psicanalítico está em jogo: a
identificação narcísica, em que o aluno quer produzir, através da possibilidade
iminente de falha, de erro e de queda, uma imagem externa que ele possa
contemplar como traduzindo a si mesmo. A dificuldade da leitura progressista do
ato de indisciplina consiste precisamente nesta mediação francamente negativa
para o plano narcísico. É uma ingenuidade pensar que isso se dá apenas por uma
questão de imaturidade dos alunos, devido ao fato de que ocupar o lugar do
saber condensa uma série de demandas relativas à legitimação não apenas
cognitiva, mas também pessoal dessa posição. Nesse sentido, a questão é: em que
medida o professor apresenta uma magnitude como pessoa proporcional à
importância que seu saber quer ter para justificar todo o trabalho, tempo e
energia despendidos por parte dos alunos? É precisamente esta mescla entre
valor pessoal e legitimidade do saber como objeto de esforço que faz a figura
do professor ser a convergência de investimentos afetivos heterogêneos.
Embora, como sabemos, as circunstâncias de indisciplina e
desarmonia em sala de aula possam ser devidas a um complexo muito grande de
fatores, entre as quais a precariedade sócio-econômica dos alunos, o contexto
que presenciei demonstrou-me que há componentes emocionais e efetivos que
existem em circunstâncias em que tais condicionantes externos praticamente não
existem. Assim, se o professor puder focalizar o problema segundo a lógica que
expus acima, creio que estes outros fatores podem ter sua capacidade de
determinação enfrentada de forma bem melhor.
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