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sábado, 17 de agosto de 2013

Enfrentamento narcísico


A profissão de docente possui diversos aspectos com grande heterogeneidade, de modo que é necessário um esforço considerável para que se consiga prestar atenção a todos, sem deixar que algum deles, especificamente, atrapalhe todos os outros que estejam bem equacionados e resolvidos. Em uma das instituições em que lecionei, pude presenciar uma grande dificuldade por parte de vários colegas em conseguir manter uma boa disciplina durante a aula, de tal forma que eram constantes as reclamações de muita conversa e até de atitudes agressivas entre os alunos para com o professor. Como não se tratava de uma instituição pública, nem situada em áreas de baixo nível sócio-econômico, essa situação negativa chamou minha atenção, uma vez que todo o problema parecia gravitar ao redor da relação pessoal/didática/pedagógica entre professor e alunos. Como eu trabalhava com algumas das mesmas turmas que eram alvo das queixas dos demais colegas, fui levado desde o início a refletir em que poderiam consistir as diferenças ao lidar com tais problemas, pois durante as minhas aulas eles não ocorriam.

Apesar de todo professor ter em mente que as condições boas de trabalho em uma turma (na medida em que não haja conversa, desatenção, brincadeiras entre os alunos, agressão para com o professor etc.) resultem em grande medida do interesse despertado em todos, seja por estratégias pedagógicas específicas de envolvimento com o que está sendo falado e discutido, seja pela metodologia de apresentação dos conteúdos, ou pela importância que os temas possuem para a vida profissional dos discentes, em uma grande quantidade de casos a indisciplina ocorre de tal forma que dificulta a implementação e manuseio de muitas técnicas específicas para envolver os alunos no processo de aprendizado. Devido à necessidade de haver aulas expositivas, digamos “tradicionais”, para vários tipos de matérias, particularmente as que têm uma carga teórica significativa, sou cético em relação à possibilidade de “dissolver” toda a problemática da indisciplina nas questões de envolvimento pedagógico dos alunos, devendo ela ser tratada, de alguma forma, como também um problema específico.

No que concerne à perspectiva do professor, a situação de desarmonia e de indisciplina na sala de aula passa, de forma tensa, pela questão do respeito, do valor que é dado à sua posição de quem deve conduzir os trabalhos. Em virtude disso, é muito provável que a situação de descontrole seja vivida como uma agressão, enfrentamento e desafio à sua autoridade. Nesse instante, faz toda diferença, nas possibilidades de resolução, o modo como estes enfrentamentos da autoridade são lidos afetivamente. O que me parece mais urgente a ser evitado é interpretar algum ato de indisciplina ou provocação como se fosse algo apenas negativo, ou seja, como agressão ou transgressão. Visto em sua pura negatividade, dificilmente ele pode ser retraduzido para o aluno de modo a se construir uma relação boa entre ambas as partes.

Se Freud está certo em dizer que o professor é uma das figuras que substituem o pai, e que consequentemente também recebe um investimento afetivo ambíguo, a saber, de admiração e ódio/rivalidade, então um ato de indisciplina (embora, obviamente, nem todos) pode essencialmente significar um questionamento, uma pergunta, que é ao mesmo tempo um pedido: “Você consegue ser tão bom e tão forte quanto eu mesmo gostaria de ser?”. Essa questão somente admite, no complexo afetivo das trocas entre docente e discente, uma resposta prática, vivenciada, intuitiva, e não discursiva ou previamente tomada como garantida devido às credenciais acadêmicas e de situação institucional. Isso se dá pelo fato de ela conter uma ambiguidade essencial: tanto uma resposta negativa quanto positiva satisfazem o investimento afetivo do aluno. O “não” fornece o prazer mais imediato de desnudar a autoridade como fraude, como impostura, alimentando o desejo de cada vez mais e de novo obter-se esta mesma resposta. Desnecessário dizer que o “sim” é não apenas bom em si mesmo, quanto pelo complexo de trocas pessoais que envolve e faz frutificar em uma determinada direção.

Isso mostra que outro conceito psicanalítico está em jogo: a identificação narcísica, em que o aluno quer produzir, através da possibilidade iminente de falha, de erro e de queda, uma imagem externa que ele possa contemplar como traduzindo a si mesmo. A dificuldade da leitura progressista do ato de indisciplina consiste precisamente nesta mediação francamente negativa para o plano narcísico. É uma ingenuidade pensar que isso se dá apenas por uma questão de imaturidade dos alunos, devido ao fato de que ocupar o lugar do saber condensa uma série de demandas relativas à legitimação não apenas cognitiva, mas também pessoal dessa posição. Nesse sentido, a questão é: em que medida o professor apresenta uma magnitude como pessoa proporcional à importância que seu saber quer ter para justificar todo o trabalho, tempo e energia despendidos por parte dos alunos? É precisamente esta mescla entre valor pessoal e legitimidade do saber como objeto de esforço que faz a figura do professor ser a convergência de investimentos afetivos heterogêneos.

Embora, como sabemos, as circunstâncias de indisciplina e desarmonia em sala de aula possam ser devidas a um complexo muito grande de fatores, entre as quais a precariedade sócio-econômica dos alunos, o contexto que presenciei demonstrou-me que há componentes emocionais e efetivos que existem em circunstâncias em que tais condicionantes externos praticamente não existem. Assim, se o professor puder focalizar o problema segundo a lógica que expus acima, creio que estes outros fatores podem ter sua capacidade de determinação enfrentada de forma bem melhor.

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