“Aos homens!” — esse foi o brinde feito por quatro garotas
em uma mesa de um café, que ouvi quando passei por elas. O que me chamou a
atenção nesse gesto não foi propriamente a desinibição, mas a interessante
ausência de de misandria, ou seja, de aversão/ódio aos homens. Apesar de
a misoginia (aversão ou ódio às mulheres) despontar como uma realidade
cultural e de mentalidade bem mais frequentemente referida, a misandria, mesmo
tendo contornos bem menos drásticos e efeitos aparentemente menos violentos,
deve ser também alvo de nossa reflexão, pois é uma consequência da própria
concepção misógina dos homens.
Se um ser de outro planeta viesse até a Terra e estudasse a
nossa realidade — propôs Freud em certo momento —, talvez o que mais lhe
chamaria a atenção é a diferença entre os sexos, que seria tomada como bastante
insólita, estranha, demandando uma explicação convincente. O valor dessa ficção
conceitual, obviamente, não está em afirmar que a diferença entre os sexos seja
o mais estranho no mundo, mas sim em apontar para o fato de que a polaridade
entre masculino e feminino (que, aliás, não se reduz à oposição biológica entre
homem e mulher) implica o reconhecimento da diferença como um ingrediente
interno de nossa cultura bastante significativa: trata-se da dificuldade de
fundo em mesclar em uma mesma identidade pessoal esses dois polos da
sexualidade. A figura retórica “de outro planeta” indica a necessidade de nos
colocarmos em um outro lugar para além do que vivemos, para percebermos a
gravidade das diferenças dos lugares que habitam em nós mesmos. A partir
da concepção psicanalítica que defendo, o feminino constitui, no terreno por
onde nos movimentamos, aqueles pontos com maior instabilidade, com menos
segurança para fundamentar nossa identidade pessoal. Uma das consequências
disso é a misoginia, em que a feminilidade tornou-se uma fratura na hipertrofia
masculinizada da identidade pessoal no ocidente.
Não é difícil diagnosticar uma evidência pseudo-pornográfica
da violência misógina. De forma análoga a como a pornografia contamina o desejo
sexual real, colocando-o na sombra da evidência imagética do objeto como
objeto-de-desejo, a percepção consumada da violência masculina sobre as
mulheres parece se disseminar em larga medida pelas mentalidades, de modo que
antes de João mostrar quem ele mesmo é, precisa demonstrar que não é Fulano,
não é Beutrano, não é Ciclano etc., todos eles exemplos do que pode
virtualmente surgir a todo momento da atitude misógina. Essa facticidade da
violência masculina acaba sendo um suporte, um apoio, para a consciência da
dificuldade de assimilação da própria condição feminina por parte das mulheres.
Não é nada difícil que o ser-homem adquira um significado simbólico difuso e
não totalmente consciente do quanto o ser-feminino é de fato difícil de ser
equacionado na tarefa de definir a si mesma/o em uma sociedade capitalista
concorrencial e machista.
Claro está que nos encontramos em pleno círculo vicioso,
pois cada um dos pontos alimenta-se reciprocamente. Nesse sentido, parece-me
que uma tarefa para a figuração do desejo individual passa por algo que me
parece bem descrito através de uma expressão que já se tornou clichê, a saber:
a insistência em uma ingenuidade do olhar, como se cada novo vínculo
afetivo pudesse, de uma forma ou de outra, estabelecer sua própria “lógica” de
aproximação e distanciamento simultâneos entre o ser-masculino e o
ser-feminino. Uma das grandes dificuldades para isso está em que a luta das
mulheres por sua emancipação em vários níveis, desde a política
institucionalizada até a percepção da dignidade do próprio desejo sexual em sua
intimidade mais recôndita, passa precisamente pela evidenciação política dos
atos concretos de violência contra elas. Conciliar essas duas facetas do
problema é mais uma das tarefas a que precisamos nos dedicar.
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Um comentário:
Interessante texto para pensarmos a questão do gênero e seus desdobramentos em tempos atuais. Parece-me que há nítida ambivalência entre o ser-masculino e o ser-feminino que ressoa nos afetos e desejos "individuais". Por ACF
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