Freud disse mais de uma vez que, de forma análoga à revolução copernicana (que retirou o
planeta Terra do centro do universo) e à teoria da evolução de Charles Darwin
(que recusou à espécie humana o desígnio divino de sua criação), a concepção
psicanalítica do inconsciente representou um golpe anti-narcísico para a
humanidade, pois retira o eu e a
consciência do lugar que sempre ocuparam como núcleo diretor de nossas ações,
desejos, sentimentos e ideias. É muito claro que desde a Grécia antiga reconheceu-se
o quanto os seres humanos são divididos entre uma porção racional e outra
emotiva (ligada aos sentimentos, afetos e paixões), mas o princípio teórico de
que nossas próprias decisões conscientes ao lidar com tais aspectos emocionais
seriam conduzidas por desejos, traumas e fantasias inconscientes é, de fato,
revolucionário. Nesse sentido, muito além de dificuldades e mesmo
impossibilidade para controlar nossas paixões e desejos, haveria uma lógica
motivacional própria que nos guia inconscientemente para realizar este
controle, bem como nos dificulta ou impede de consegui-lo. Se somarmos essa
perspectiva a outra ideia também bastante difícil de admitir, a saber: que o
inconsciente é formado a partir do recalque da sexualidade infantil, então temos
os dois grandes blocos de motivações para a recusa da psicanálise, tal como o
próprio Freud já indicara: o intelectual (em relação ao princípio de sujeição
de nós mesmos a nosso inconsciente) e o moral (relativo ao enraizamento de tal
estrato psíquico em nossa sexualidade infantil).
Passadas várias décadas da morte de Freud, a recepção de sua
teoria adquiriu feições interessantes para refletimos um pouco mais sobre o que
significou, no âmbito da história das ideias, este golpe anti-narcísico. As
hipóteses psicanalíticas foram assimiladas positivamente, de vários modos e
intensidades, por um número expressivo de autores de ciências humanas e de
filosofia. Das características desse acolhimento (no âmbito não apenas teórico,
mas também, por assim dizer, "prático", ou seja, no modo com que essa
teoria é discutida e colocada em circulação nos diálogos informais), quero
focar a que considero uma via catártica de aceitação da psicanálise que ao
mesmo tempo a recusa. (Vou me abster aqui de citar textos e autores, pois isto
me obrigaria a discutir argumentos caso a caso, o que não é meu propósito
agora. Em
outra postagem, já comentei a crítica de Deleuze e Guattari.)
Devido não apenas à força persuasiva da teoria
psicanalítica, mas também aos movimentos artísticos em geral e à experiência
sumamente contraditória da cultura individualista do século XX, a ideia do
inconsciente adquiriu uma espécie de glamour, de brilho conceitual
significativo. Em larga medida passou a ser índice de certa obtusidade de visão
de mundo pensar que possamos ter acesso plenamente consciente a todas as nossas
motivações e princípios de decisão. Não é difícil encontrar a recorrência até
significativa da palavra "inconsciente" em textos de autores que se
distanciam da psicanálise. Em certo sentido, a admissão dessa hipótese passou a
representar um ganho narcísico, no sentido de de demonstrar certa
"grandeza de espírito" ao reconhecer a limitação de nosso poder
consciente perante nós mesmos. Tal palavra passou a funcionar como espécie de
Coringa para tudo o que precisaríamos admitir para não sermos taxados como
ingênuos, como por demais restritos à esfera da percepção e do fluxo de
consciência. Como disse Freud, essa hipótese teórica representa um alargamento
do âmbito do psíquico, e então passou-se a querer aproveitar da grandeza
deste oceano do psiquismo para formar uma imagem grandiloquente de nós mesmos
como sublimes. Além disso, essa hipótese permite certo "refúgio" para
quem não deseja submergir o complexo motivacional humano ao âmbito biológico --
"perigo" claramente representado pelas teorias de neuropsicologia,
com sua pretensão de mapear os fenômenos mentais através da estrutura cerebral e
da constituição genética.
Embora seja evidente, não custa nada a lembrança de que usar
a palavra "inconsciente" não significa empregar a mesma carga teórica
e conceitual de Freud. Alguns autores se esquecem deste dado elementar, dizendo
que a teoria de Freud não teria sido original pelo fato de que vários autores
antes deles falaram do inconsciente, como Kant, Schelling, Schopenhauer, Karl
Hartmann, Nietzsche etc. Ora, não é necessário muito esforço para perceber que
palavras podem denotar um complexo de significados muito distintos. O que Kant
pensava a partir dessa palavra é muito divergente em relação ao conceito
psicanalítico, e mesmo em um autor próximo a Freud como Nietzsche podemos citar
muitas divergências, como a ausência do conceito de recalque, do complexo de
Édipo, da teoria das pulsões tal como descrita por Freud em 1915 e várias
outras. Se esta palavra pôde ser usada de várias formas diferentes antes de
Freud, obviamente também pode sê-lo depois dele. Muitos autores estão
plenamente dispostos a empregá-la, mas são muito relutantes quando é necessário
adentrar no âmbito psicanalítico e reconhecer, por exemplo, o quanto somos
determinados por desejos inconscientes enraizados em nossa sexualidade
infantil. Nesse momento, em que teríamos, entre outras coisas, que reconhecer
que todo ser humano é cindido por um recalque que retorna indefinidamente como
mola propulsora de nossos desejos, pensamentos e ações, essa disposição
"benevolente" quase desaparece. As hipóteses psicanalíticas fundamentais
são obrigadas a se manter sem um rosto específico, flutuando ao sabor de
considerações de visão de mundo mais ou menos genéricas, "diluindo" o
inconsciente como sentido implícito de um texto, como motivações históricas
ancestrais reveladas por alguma espécie de olhar e leitura críticos da
sociedade, como um inconsciente coletivo que não se sabe muito bem a qual
dinâmica individual responderia etc.
Não é difícil perceber que se trata de uma aceitação-que-recusa,
de uma verdadeira catarse conceitual, em que, em vez de simplesmente
reprimirmos e bloquearmos nossa ligação com os princípios psicanalíticos
fundamentais, nós os assimilamos na forma e na medida convenientes ao que nos é
possível no espaço restrito daquele mesmo narcisismo que Freud havia colocado como
impedimento para a aceitação de suas teorias. Assim, determinada concepção
teórica psicanalítica pode ser recebida com a devida deferência, mas até um
determinado limiar. Assim que este é rompido, quando "descemos" a
especificações psicanalíticas muito pouco lisonjeiras para a nossa
intelectualidade ciosa de sua grandeza de espírito (a saber: formas pervertidas
e polimorfas da sexualidade infantil ainda determinantes de nossa
subjetividade, com seu complexo de sadismo, masoquismo, imbricação de masculinidade
e feminilidade etc.), neste momento, tal como Napoleão reconheceu de forma
trágica, do sublime ao cômico somente um passo é necessário.
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