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domingo, 8 de setembro de 2013

Aceitação que recusa


Freud disse mais de uma vez que, de forma análoga  à revolução copernicana (que retirou o planeta Terra do centro do universo) e à teoria da evolução de Charles Darwin (que recusou à espécie humana o desígnio divino de sua criação), a concepção psicanalítica do inconsciente representou um golpe anti-narcísico para a humanidade, pois  retira o eu e a consciência do lugar que sempre ocuparam como núcleo diretor de nossas ações, desejos, sentimentos e ideias. É muito claro que desde a Grécia antiga reconheceu-se o quanto os seres humanos são divididos entre uma porção racional e outra emotiva (ligada aos sentimentos, afetos e paixões), mas o princípio teórico de que nossas próprias decisões conscientes ao lidar com tais aspectos emocionais seriam conduzidas por desejos, traumas e fantasias inconscientes é, de fato, revolucionário. Nesse sentido, muito além de dificuldades e mesmo impossibilidade para controlar nossas paixões e desejos, haveria uma lógica motivacional própria que nos guia inconscientemente para realizar este controle, bem como nos dificulta ou impede de consegui-lo. Se somarmos essa perspectiva a outra ideia também bastante difícil de admitir, a saber: que o inconsciente é formado a partir do recalque da sexualidade infantil, então temos os dois grandes blocos de motivações para a recusa da psicanálise, tal como o próprio Freud já indicara: o intelectual (em relação ao princípio de sujeição de nós mesmos a nosso inconsciente) e o moral (relativo ao enraizamento de tal estrato psíquico em nossa sexualidade infantil).

Passadas várias décadas da morte de Freud, a recepção de sua teoria adquiriu feições interessantes para refletimos um pouco mais sobre o que significou, no âmbito da história das ideias, este golpe anti-narcísico. As hipóteses psicanalíticas foram assimiladas positivamente, de vários modos e intensidades, por um número expressivo de autores de ciências humanas e de filosofia. Das características desse acolhimento (no âmbito não apenas teórico, mas também, por assim dizer, "prático", ou seja, no modo com que essa teoria é discutida e colocada em circulação nos diálogos informais), quero focar a que considero uma via catártica de aceitação da psicanálise que ao mesmo tempo a recusa. (Vou me abster aqui de citar textos e autores, pois isto me obrigaria a discutir argumentos caso a caso, o que não é meu propósito agora. Em outra postagem, já comentei a crítica de Deleuze e Guattari.)

Devido não apenas à força persuasiva da teoria psicanalítica, mas também aos movimentos artísticos em geral e à experiência sumamente contraditória da cultura individualista do século XX, a ideia do inconsciente adquiriu uma espécie de glamour, de brilho conceitual significativo. Em larga medida passou a ser índice de certa obtusidade de visão de mundo pensar que possamos ter acesso plenamente consciente a todas as nossas motivações e princípios de decisão. Não é difícil encontrar a recorrência até significativa da palavra "inconsciente" em textos de autores que se distanciam da psicanálise. Em certo sentido, a admissão dessa hipótese passou a representar um ganho narcísico, no sentido de de demonstrar certa "grandeza de espírito" ao reconhecer a limitação de nosso poder consciente perante nós mesmos. Tal palavra passou a funcionar como espécie de Coringa para tudo o que precisaríamos admitir para não sermos taxados como ingênuos, como por demais restritos à esfera da percepção e do fluxo de consciência. Como disse Freud, essa hipótese teórica representa um alargamento do âmbito do psíquico, e então passou-se a querer aproveitar da grandeza deste oceano do psiquismo para formar uma imagem grandiloquente de nós mesmos como sublimes. Além disso, essa hipótese permite certo "refúgio" para quem não deseja submergir o complexo motivacional humano ao âmbito biológico -- "perigo" claramente representado pelas teorias de neuropsicologia, com sua pretensão de mapear os fenômenos mentais através da estrutura cerebral e da constituição genética.

Embora seja evidente, não custa nada a lembrança de que usar a palavra "inconsciente" não significa empregar a mesma carga teórica e conceitual de Freud. Alguns autores se esquecem deste dado elementar, dizendo que a teoria de Freud não teria sido original pelo fato de que vários autores antes deles falaram do inconsciente, como Kant, Schelling, Schopenhauer, Karl Hartmann, Nietzsche etc. Ora, não é necessário muito esforço para perceber que palavras podem denotar um complexo de significados muito distintos. O que Kant pensava a partir dessa palavra é muito divergente em relação ao conceito psicanalítico, e mesmo em um autor próximo a Freud como Nietzsche podemos citar muitas divergências, como a ausência do conceito de recalque, do complexo de Édipo, da teoria das pulsões tal como descrita por Freud em 1915 e várias outras. Se esta palavra pôde ser usada de várias formas diferentes antes de Freud, obviamente também pode sê-lo depois dele. Muitos autores estão plenamente dispostos a empregá-la, mas são muito relutantes quando é necessário adentrar no âmbito psicanalítico e reconhecer, por exemplo, o quanto somos determinados por desejos inconscientes enraizados em nossa sexualidade infantil. Nesse momento, em que teríamos, entre outras coisas, que reconhecer que todo ser humano é cindido por um recalque que retorna indefinidamente como mola propulsora de nossos desejos, pensamentos e ações, essa disposição "benevolente" quase desaparece. As hipóteses psicanalíticas fundamentais são obrigadas a se manter sem um rosto específico, flutuando ao sabor de considerações de visão de mundo mais ou menos genéricas, "diluindo" o inconsciente como sentido implícito de um texto, como motivações históricas ancestrais reveladas por alguma espécie de olhar e leitura críticos da sociedade, como um inconsciente coletivo que não se sabe muito bem a qual dinâmica individual responderia etc.

Não é difícil perceber que se trata de uma aceitação-que-recusa, de uma verdadeira catarse conceitual, em que, em vez de simplesmente reprimirmos e bloquearmos nossa ligação com os princípios psicanalíticos fundamentais, nós os assimilamos na forma e na medida convenientes ao que nos é possível no espaço restrito daquele mesmo narcisismo que Freud havia colocado como impedimento para a aceitação de suas teorias. Assim, determinada concepção teórica psicanalítica pode ser recebida com a devida deferência, mas até um determinado limiar. Assim que este é rompido, quando "descemos" a especificações psicanalíticas muito pouco lisonjeiras para a nossa intelectualidade ciosa de sua grandeza de espírito (a saber: formas pervertidas e polimorfas da sexualidade infantil ainda determinantes de nossa subjetividade, com seu complexo de sadismo, masoquismo, imbricação de masculinidade e feminilidade etc.), neste momento, tal como Napoleão reconheceu de forma trágica, do sublime ao cômico somente um passo é necessário.

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