“... um grande amor surge de um grande conhecimento do
objeto amado, e se você o conhece pouco, então você o amará pouco ou não poderá
amá-lo de forma alguma”. Esta frase, de Leonardo da Vinci em seu Tratado da
pintura, foi considerada por Freud evidentemente falsa como
descrição do que as pessoas fazem, pois é claro que amamos de forma impulsiva,
por questões emocionais que não apenas não dependem do conhecimento, quanto são
em larga medida prejudicadas por ele. A intenção da frase seria, na verdade,
segundo Freud, indicar o que as pessoas deveriam fazer, isto é,
suspender ou adiar seus vínculos afetivos de modo a que estes sejam mediados
por um conhecimento significativo em relação ao objeto — e é isso o que Freud
vê como uma característica peculiar à personalidade do artista italiano.
Essa é uma temática não apenas interessante em si mesma,
quanto me parece extremamente atual ao refletimos sobre as dinâmicas e as
vicissitudes das relações afetivas/sexuais em um mundo marcado por
individualidades muito ciosas de si, narcisistas e formadas em um ambiente de
incertezas de toda ordem: política, moral, simbólica, econômica etc. Nesse
sentido, vale a pena tratar das seguintes questões: qual a relação entre amor e
o conhecimento do outro? Em que medida a incerteza dos afetos influencia na
disposição de amar? De que forma conhecimento e amor se conjugam no processo
mais geral de idealização de si e do outro?
Tal como vimos no comentário de Freud, as relações afetivas,
especialmente em que está em jogo a intensidade do apaixonamento ou do desejo
sexual, não apenas não dependem da familiaridade cognitiva com a outra pessoa,
quanto se nutrem em larga medida do enigma da alteridade, da condição do outro
de ser um universo diferente do meu, da aventura de sua descoberta. Nesse
sentido, muito do prazer pela novidade consiste na negação de nossas certezas,
do que já sabemos não apenas sobre o objeto, mas também sobre o que
precisaremos ser e oferecer a ele. Lidar com a incerteza do outro significa, ao
mesmo tempo, ter que se haver com a incerteza do que nós mesmos somos e de
nossa capacidade de encontrar formas de trânsito para com a outra pessoa. Isso
é algo que qualifica toda a circunstância de desafio, ou seja, a descoberta de
nossos próprios limites, capacidades, disposições e formas possíveis de prazer
e gozo, bem como seu contrário, de nossa relutância e recusa de determinadas figuras
de negatividade.
Toda essa força estimulante da incerteza, do mistério e da
novidade, entretanto, pode se enredar em um âmbito de exigência de domesticação
cognitiva do outro de tal forma a inviabilizar o relacionamento. Nesse
instante, a questão “o que o outro quer de mim?” se soma a uma variante sua: “o
que o outro pode vir a querer de mim?”, fazendo com que o mistério e a
incerteza sejam mais impeditivos do que estimulantes para o relacionamento. Por
mais que tenhamos segurança para responder à primeira pergunta, isso não
simplesmente nos protege contra a incerteza da segunda, pois sempre será um
enigma e uma incógnita o desdobramento afetivo ulterior de uma relação amorosa.
Ocorre que não se trata apenas do reconhecimento de que nossos sentimentos não
se subjugam integralmente a nossas determinações conscientes, mas sim do fato
em larga medida neurótico de demandarmos
do outro mais consistência e estabilidade afetiva do que nós mesmos seríamos
capazes de ter. Não é difícil concluir que essa demanda de robustez
emocional alheia figura como substituição para nossa própria.
“Saber e poder são sinônimos”: essa ideia do filósofo
Francis Bacon foi apropriada e inserida como um conceito central de diversas
teorias filosóficas e psicanalíticas, como dos filósofos da escola de Frankfurt
(Adorno, Marcuse, Horkheimer), Lacan, Michel Foucault entre outros. De fato, o
conhecimento é uma forma de domesticação e de assimilação apropriativa do
objeto, o qual, sendo conhecido em seus mecanismos de constituição, torna-se
previsível em alguma medida. Segurança, estabilidade e auto-confiança seriam,
assim, proporcionais ao nosso grau de conhecimento do terreno onde caminhamos,
do objeto com que interagimos, das condições de nossa ação etc. Se o objeto em
questão é uma pessoa com quem queremos ou podemos ter uma relação amorosa, a
proporção entre segurança e conhecimento torna-se um ingrediente altamente significativo,
tanto por ser parte essencial da construção do vínculo afetivo, quanto também
por dificultá-lo ou mesmo impedi-lo.
O sintoma mais claro desse desconcerto neurótico entre o
estímulo da incerteza e a necessidade de segurança pelo conhecimento já é
clássico e conhecido de todos: a pressa em definir antecipadamente o estatuto
do relacionamento, seja para garantir a disposição do outro para um compromisso
afetivo “consistente”, seja para se proteger dessa mesma demanda. Assim, todo
homem que se relacionou com certa quantidade de mulheres já teve que se haver
com a pergunta sobre suas intenções de forma às vezes surpreendentemente
precoce. Antes mesmo que aconteça um primeiro encontro esta demanda de
determinação do que queremos e do que estamos dispostos a oferecer pode ser
colocada de forma explícita. Nesse momento, é necessário um esforço “extra”
para que a resposta da necessidade de esperar pela revelação de “quais são
minhas intenções” não seja recebida simplesmente como “enrolação”, como estratégia
diversionista para manter o estado de expectativa e, assim, aproveitar-se da
situação. Do outro lado, tem-se a estratégia masculina “extrema” de ter relação
sexual apenas uma vez com cada mulher (!), de modo a se proteger ao máximo da
incerteza afetiva, não apenas dela, mas também de si mesmo.
Essas e outras formas de impedimento das relações afetivas
admitem, em cada caso, leituras menos e mais específicas, dentro do contexto
dos códigos sociais de aproximação, continuidade e recusa dos afetos. Diante
dessa multiplicidade virtualmente infinita, não cabe a pretensão de dar um
princípio explicativo geral. Apesar desta ressalva, creio que muito desse
estado de coisas admite uma boa compreensão sob o conceito psicanalítico de idealização.
Laplanche e Pontalis o definem nos seguintes termos: “processo psíquico pelo
qual as qualidades e o valor do objeto são conduzidos à perfeição. A
identificação com o objeto idealizado contribui para a formação e o
enriquecimento das instâncias ditas ideais da pessoa (eu ideal, ideal do eu)”.
Trata-se de um investimento afetivo intenso em uma imagem do objeto, de tal
forma que este se conforma às demandas do sujeito. Ocorre que, tal como diz
Freud, a idealização ocorre não apenas relativo ao objeto, mas também ao
próprio eu, de tal forma que o narcisismo, o investimento afetivo na própria
imagem do eu, é uma forma de idealização.
A partir destes poucos elementos definitórios, podemos dizer
que a ambiguidade não imediatamente resolvida entre incerteza e apropriação
cognitiva do objeto de amor é dificultada em larga medida pelo fato de que o
trânsito afetivo é percebido sob a diretriz de condições ideais de resolução entre a estabilidade do
conhecimento e o estímulo da diferença, do enigma e da incerteza. Projeta-se no
outro uma articulação ideal entre estes dois polos, ao mesmo tempo em que se
resguardam as condições, também ideais, de nossa auto-imagem. Nesse último
aspecto, narcísico, cabe falar de uma demanda de proteção perante quaisquer
possibilidades de mudança do que concebemos como sendo próprio ao que
valorizamos em nós mesmos, seja como pessoas devotadas a um amor romântico e
profundo, seja como o contrário, isto é, que possuem a suficiente “abertura de
espírito” para relacionamentos efêmeros e descompromissados. Que a todo momento
tanto nós quanto o outro possamos mudar e assim quebrar um certo contrato
tácito ou explícito; que aprendamos com isso e tenhamos a possibilidade de não
apenas sermos diferente, mas gostarmos disso; que haja sempre um risco da
desilusão e sua consequente mágoa, tanto para nós quanto para o outro — tudo
isso mobiliza constantemente idealizações de todo tipo, cuja barreira de
proteção contra novas formas de vida amorosa tendem a restringir em muito o
trânsito entre as pessoas.
Por fim, cabe dizer que, devido à alta instabilidade e
dificuldade de equacionamento entre o perigo de incerteza e a estabilidade
cognitiva, mesmo a mais clara consciência de todos esses aspectos não é muitas
vezes minimamente suficiente para resolver bem tais questões. Sempre e de novo
será uma tarefa bastante intuitiva, prática e concreta estabelecer as
mediações possíveis para a ambiguidade do saber e da incerteza.
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