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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Amor e idealização defensiva


“... um grande amor surge de um grande conhecimento do objeto amado, e se você o conhece pouco, então você o amará pouco ou não poderá amá-lo de forma alguma”. Esta frase, de Leonardo da Vinci em seu Tratado da pintura, foi considerada por Freud evidentemente falsa como descrição do que as pessoas fazem, pois é claro que amamos de forma impulsiva, por questões emocionais que não apenas não dependem do conhecimento, quanto são em larga medida prejudicadas por ele. A intenção da frase seria, na verdade, segundo Freud, indicar o que as pessoas deveriam fazer, isto é, suspender ou adiar seus vínculos afetivos de modo a que estes sejam mediados por um conhecimento significativo em relação ao objeto — e é isso o que Freud vê como uma característica peculiar à personalidade do artista italiano.

Essa é uma temática não apenas interessante em si mesma, quanto me parece extremamente atual ao refletimos sobre as dinâmicas e as vicissitudes das relações afetivas/sexuais em um mundo marcado por individualidades muito ciosas de si, narcisistas e formadas em um ambiente de incertezas de toda ordem: política, moral, simbólica, econômica etc. Nesse sentido, vale a pena tratar das seguintes questões: qual a relação entre amor e o conhecimento do outro? Em que medida a incerteza dos afetos influencia na disposição de amar? De que forma conhecimento e amor se conjugam no processo mais geral de idealização de si e do outro?

Tal como vimos no comentário de Freud, as relações afetivas, especialmente em que está em jogo a intensidade do apaixonamento ou do desejo sexual, não apenas não dependem da familiaridade cognitiva com a outra pessoa, quanto se nutrem em larga medida do enigma da alteridade, da condição do outro de ser um universo diferente do meu, da aventura de sua descoberta. Nesse sentido, muito do prazer pela novidade consiste na negação de nossas certezas, do que já sabemos não apenas sobre o objeto, mas também sobre o que precisaremos ser e oferecer a ele. Lidar com a incerteza do outro significa, ao mesmo tempo, ter que se haver com a incerteza do que nós mesmos somos e de nossa capacidade de encontrar formas de trânsito para com a outra pessoa. Isso é algo que qualifica toda a circunstância de desafio, ou seja, a descoberta de nossos próprios limites, capacidades, disposições e formas possíveis de prazer e gozo, bem como seu contrário, de nossa relutância e recusa de determinadas figuras de negatividade.

Toda essa força estimulante da incerteza, do mistério e da novidade, entretanto, pode se enredar em um âmbito de exigência de domesticação cognitiva do outro de tal forma a inviabilizar o relacionamento. Nesse instante, a questão “o que o outro quer de mim?” se soma a uma variante sua: “o que o outro pode vir a querer de mim?”, fazendo com que o mistério e a incerteza sejam mais impeditivos do que estimulantes para o relacionamento. Por mais que tenhamos segurança para responder à primeira pergunta, isso não simplesmente nos protege contra a incerteza da segunda, pois sempre será um enigma e uma incógnita o desdobramento afetivo ulterior de uma relação amorosa. Ocorre que não se trata apenas do reconhecimento de que nossos sentimentos não se subjugam integralmente a nossas determinações conscientes, mas sim do fato em larga medida neurótico de demandarmos do outro mais consistência e estabilidade afetiva do que nós mesmos seríamos capazes de ter. Não é difícil concluir que essa demanda de robustez emocional alheia figura como substituição para nossa própria.

“Saber e poder são sinônimos”: essa ideia do filósofo Francis Bacon foi apropriada e inserida como um conceito central de diversas teorias filosóficas e psicanalíticas, como dos filósofos da escola de Frankfurt (Adorno, Marcuse, Horkheimer), Lacan, Michel Foucault entre outros. De fato, o conhecimento é uma forma de domesticação e de assimilação apropriativa do objeto, o qual, sendo conhecido em seus mecanismos de constituição, torna-se previsível em alguma medida. Segurança, estabilidade e auto-confiança seriam, assim, proporcionais ao nosso grau de conhecimento do terreno onde caminhamos, do objeto com que interagimos, das condições de nossa ação etc. Se o objeto em questão é uma pessoa com quem queremos ou podemos ter uma relação amorosa, a proporção entre segurança e conhecimento torna-se um ingrediente altamente significativo, tanto por ser parte essencial da construção do vínculo afetivo, quanto também por dificultá-lo ou mesmo impedi-lo.

O sintoma mais claro desse desconcerto neurótico entre o estímulo da incerteza e a necessidade de segurança pelo conhecimento já é clássico e conhecido de todos: a pressa em definir antecipadamente o estatuto do relacionamento, seja para garantir a disposição do outro para um compromisso afetivo “consistente”, seja para se proteger dessa mesma demanda. Assim, todo homem que se relacionou com certa quantidade de mulheres já teve que se haver com a pergunta sobre suas intenções de forma às vezes surpreendentemente precoce. Antes mesmo que aconteça um primeiro encontro esta demanda de determinação do que queremos e do que estamos dispostos a oferecer pode ser colocada de forma explícita. Nesse momento, é necessário um esforço “extra” para que a resposta da necessidade de esperar pela revelação de “quais são minhas intenções” não seja recebida simplesmente como “enrolação”, como estratégia diversionista para manter o estado de expectativa e, assim, aproveitar-se da situação. Do outro lado, tem-se a estratégia masculina “extrema” de ter relação sexual apenas uma vez com cada mulher (!), de modo a se proteger ao máximo da incerteza afetiva, não apenas dela, mas também de si mesmo.

Essas e outras formas de impedimento das relações afetivas admitem, em cada caso, leituras menos e mais específicas, dentro do contexto dos códigos sociais de aproximação, continuidade e recusa dos afetos. Diante dessa multiplicidade virtualmente infinita, não cabe a pretensão de dar um princípio explicativo geral. Apesar desta ressalva, creio que muito desse estado de coisas admite uma boa compreensão sob o conceito psicanalítico de idealização. Laplanche e Pontalis o definem nos seguintes termos: “processo psíquico pelo qual as qualidades e o valor do objeto são conduzidos à perfeição. A identificação com o objeto idealizado contribui para a formação e o enriquecimento das instâncias ditas ideais da pessoa (eu ideal, ideal do eu)”. Trata-se de um investimento afetivo intenso em uma imagem do objeto, de tal forma que este se conforma às demandas do sujeito. Ocorre que, tal como diz Freud, a idealização ocorre não apenas relativo ao objeto, mas também ao próprio eu, de tal forma que o narcisismo, o investimento afetivo na própria imagem do eu, é uma forma de idealização.

A partir destes poucos elementos definitórios, podemos dizer que a ambiguidade não imediatamente resolvida entre incerteza e apropriação cognitiva do objeto de amor é dificultada em larga medida pelo fato de que o trânsito afetivo é percebido sob a diretriz de condições ideais de resolução entre a estabilidade do conhecimento e o estímulo da diferença, do enigma e da incerteza. Projeta-se no outro uma articulação ideal entre estes dois polos, ao mesmo tempo em que se resguardam as condições, também ideais, de nossa auto-imagem. Nesse último aspecto, narcísico, cabe falar de uma demanda de proteção perante quaisquer possibilidades de mudança do que concebemos como sendo próprio ao que valorizamos em nós mesmos, seja como pessoas devotadas a um amor romântico e profundo, seja como o contrário, isto é, que possuem a suficiente “abertura de espírito” para relacionamentos efêmeros e descompromissados. Que a todo momento tanto nós quanto o outro possamos mudar e assim quebrar um certo contrato tácito ou explícito; que aprendamos com isso e tenhamos a possibilidade de não apenas sermos diferente, mas gostarmos disso; que haja sempre um risco da desilusão e sua consequente mágoa, tanto para nós quanto para o outro — tudo isso mobiliza constantemente idealizações de todo tipo, cuja barreira de proteção contra novas formas de vida amorosa tendem a restringir em muito o trânsito entre as pessoas.

Por fim, cabe dizer que, devido à alta instabilidade e dificuldade de equacionamento entre o perigo de incerteza e a estabilidade cognitiva, mesmo a mais clara consciência de todos esses aspectos não é muitas vezes minimamente suficiente para resolver bem tais questões. Sempre e de novo será uma tarefa bastante intuitiva, prática e concreta estabelecer as mediações possíveis para a ambiguidade do saber e da incerteza.

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