O panorama da história das ideias desde meados do século XX
apresenta uma inequívoca tendência de privilegiar concepções teóricas pautadas
por um descentramento e uma abertura inclusiva e “democrática” de atores e
fatores heterogêneos e provenientes de âmbitos distintos. Não é necessário
engajar-se em nenhuma perspectiva pós-modernista para advogar sempre uma
espécie de “bom senso” teórico para compreender algum fenômeno cultural a
partir de uma ampliação horizontal de princípios interpretativos. Dentre as
diversas consequências da adoção de tal viés, situa-se o descrédito do conceito
de subjetividade e do pensamento dialético.
Tal como já falei em outra postagem, estudar o indivíduo a
partir da noção de “sujeito” significa tomá-lo como um produto de suas próprias
forças internas, inconscientes, que se manifestam na superfície como
pensamentos, emoções e desejos conscientes. Nesse sentido, tudo o que sabemos
de nós mesmos deverá ser compreendido pela referência a princípios, campos de
força, capacidade de síntese etc., que deverão ser supostas como existentes
internamente ao indivíduo. De forma altamente paradoxal, se optarmos por pensar
o indivíduo através de sua subjetividade, precisamos empregar conceitos que
permanecerão apenas como hipóteses, como apostas teóricas não passíveis
de serem comprovadas ou demonstradas de forma cabal, definitiva. Isso se dá
porque a superfície da consciência se apoia, se sustenta, em forças que
produzem a ela mesma, não podendo ser lidas diretamente.
Diante deste panorama, aquela tendência de pluralidade de
pontos de referência tende a situar o indivíduo em redes de sua constituição no
âmbito linguístico-comunicativo, político, sociológico, de compartilhamento
simbólico etc. Em vez de uma dualidade aparentemente rígida entre a
interioridade subjetiva inconsciente e tudo o mais que o forma a partir do
exterior, temos uma suposta maior plasticidade de princípios de individuação,
devido à multiplicidade de forças e planos explicativos, evidenciados segundo a
necessidade das questões levantadas em cada momento.
No caso da dialética, seu descrédito não é menor, pois, tal
como se consolidou a partir do pensamento de Hegel, o modus operandi desse
tipo de pensamento é guiado pela explicitação de contradições, de polaridades,
antinomias, enfim, de oposições. Na Fenomenologia do espírito, obra que
abre a construção do sistema filosófico maduro do autor, vemos várias
dualidades em ação: espírito e natureza, universal e particular, abstrato e
concreto, mediação e imediatidade etc. Tais dualidades demonstrariam, segundo
aquele ponto de vista crítico, diversas características desfavoráveis:
excessiva rigidez, incapacidade de perceber diferenciações gradativas entre os
polos explicativos, procedimento previamente esquematizado e que se impõe de
fora ao objeto.
Diante desse panorama, não é difícil imaginar as
dificuldades de alguma teoria que não apenas valorize o conceito de
subjetividade, quanto se sirva de um procedimento conceitual próximo da
dialética. Esse é o caso de boa parte das teorias psicanalíticas, dentre as
quais a que serve de base para minhas reflexões, a saber, a leitura de Jean
Laplanche sobre Freud. Meu objetivo aqui é fazer uma defesa, em linhas bastante
gerais, da ideia de uma concepção dialética de subjetividade.
Quando se procura entender determinada realidade cultural,
como arte, ética, religião etc., a multiplicidade de pontos de vista a que nos
referimos no início do texto apresenta diversas vantagens, pois nos permite
interpretar os fenômenos como uma espécie de síntese e agregação de fatores que
se sedimentam no objeto, tornando viável elucidar e compreender problemas
significativos. Todo esse ganho, entretanto, é pago muitas vezes com a
diminuição de seu poder explicativo, restringindo-se a abordagens
interpretativas que tendem a ser apenas descrições gerais de como tais
realidades operam, articulam-se e influenciam-se. Embora muitas vezes não
estejam ausentes considerações dinâmicas, ou seja, de forças e princípios
motivacionais de constituição dos objetos, o aumento da quantidade de
princípios empregados caminha francamente no sentido de traduzir
conceitualmente (de forma geral, teórica e filosófica) as relações perceptíveis
nos fenômenos.
Pode parecer estranho invocar a demanda de teor explicativo
de teorias sociais e filosóficas, na medida em que já nos acostumamos a
conferir validade à divisão que o filósofo Wilhelm Dilthey propôs entre explicar
e entender. Segundo o autor, somente a natureza é passível de ser
explicada em seus mecanismos físicos, químicos e bio-fisiológicos, enquanto os
fenômenos sociais e culturais podem ser apenas entendidos, compreendidos ou
interpretados. Na base de tal bipartição, reside a ideia de que somente os
processos naturais obedecem a leis universais regulares, em que descrevemos
fatos e processos e prevemos sua ocorrência futura. Em contraste com isso, os
fenômenos culturais parecem estar sujeitos a uma mobilidade, flutuação e
indeterminação de tal ordem que tornaria possível apenas mecanismos de compreensão
interpretativa.
Por mais que soe paradoxal, a psicanálise reivindica a
construção de uma teoria com certo valor explicativo, embora não
equiparável ao procedimento das ciências naturais. A demonstração disso em um
nível satisfatório demandaria um volume de argumentos muito grande, de modo que
vou me limitar apenas à exposição de um princípio geral. De acordo com a teoria
psicanalítica que defendo, a dimensão motivacional mais própria do ser humano,
sendo inconsciente, fundamenta-se nas sucessivas e infinitamente variáveis
formas de conferir resolução a diversas contradições que subjazem à esfera e
âmbito conscientes. Como exemplo, podemos ressaltar as polaridades entre
masculino e feminino, censura e desejos inconscientes, pulsões do eu e sexuais,
as ambivalências afetivas (como entre amor e ódio), princípio de prazer e
princípio de realidade, processos psíquicos primários e secundários,
identificações paternas e maternas etc. Cada uma dessas polaridades é fonte
motivacional (pelo menos de forma indireta e com muitas mediações) para tudo o
que se apresenta como realidade consciente, na medida em que o aparelho
psíquico-subjetivo é forçado a se rearranjar, produzir trabalho, elaborar
formas de resolução que se apresentam sempre precárias em alguma medida. A cada
forma de resolução, que estabelece um compromisso entre as forças que se opõem,
temos sempre a satisfação e negação delas, demandando sempre novas vias
para serem satisfeitas.
Se tal perspectiva é válida, então ela implica dizer que o
estrato motivacional mais próprio para os seres humanos é não apenas
contraditório, mas existe em função das contradições entre diversos
planos psíquicos. Se aceitarmos um dos princípios basilares da concepção
freudiana de que o inconsciente se forma, em seu núcleo mais fundamental, nos
primeiros anos de vida, então uma consequência altamente significativa é a de
que todas as formas de resolução culturalmente articuladas e desenvolvidas são
substancialmente posteriores, tardias, em relação àquilo que as
impulsiona em sua base. Essa defasagem temporal entre o que exigiu uma
resolução em um momento arcaico (em que o psiquismo ainda se formava) e o que
será vivido pelo indivíduo posteriormente implica, entre outras coisas, uma
espécie de cegueira do sujeito em relação àquilo que o move
internamente. Em virtude disso, segue-se mais uma consequência: o fato de que
as formas culturais de subjetivação e de construção do espaço social serão
marcadas por uma inércia expressiva, ou seja, codificam modos de
resolução de conflitos inconscientes que resistem
a mudanças substantivas em seu princípio mais profundo. Assim, a capacidade de
análise dialética de forças motivacionais inconscientes/subjetivas nos
permitiria, de acordo com a interpretação que fazemos de cada realidade cultural,
realizar um importantíssimo esclarecimento acerca do que impede o movimento
progressista de mutação e avanço das condições de vida, tanto individuais
quanto coletivas.
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