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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Contradição e pluralidades


O panorama da história das ideias desde meados do século XX apresenta uma inequívoca tendência de privilegiar concepções teóricas pautadas por um descentramento e uma abertura inclusiva e “democrática” de atores e fatores heterogêneos e provenientes de âmbitos distintos. Não é necessário engajar-se em nenhuma perspectiva pós-modernista para advogar sempre uma espécie de “bom senso” teórico para compreender algum fenômeno cultural a partir de uma ampliação horizontal de princípios interpretativos. Dentre as diversas consequências da adoção de tal viés, situa-se o descrédito do conceito de subjetividade e do pensamento dialético.

Tal como já falei em outra postagem, estudar o indivíduo a partir da noção de “sujeito” significa tomá-lo como um produto de suas próprias forças internas, inconscientes, que se manifestam na superfície como pensamentos, emoções e desejos conscientes. Nesse sentido, tudo o que sabemos de nós mesmos deverá ser compreendido pela referência a princípios, campos de força, capacidade de síntese etc., que deverão ser supostas como existentes internamente ao indivíduo. De forma altamente paradoxal, se optarmos por pensar o indivíduo através de sua subjetividade, precisamos empregar conceitos que permanecerão apenas como hipóteses, como apostas teóricas não passíveis de serem comprovadas ou demonstradas de forma cabal, definitiva. Isso se dá porque a superfície da consciência se apoia, se sustenta, em forças que produzem a ela mesma, não podendo ser lidas diretamente.

Diante deste panorama, aquela tendência de pluralidade de pontos de referência tende a situar o indivíduo em redes de sua constituição no âmbito linguístico-comunicativo, político, sociológico, de compartilhamento simbólico etc. Em vez de uma dualidade aparentemente rígida entre a interioridade subjetiva inconsciente e tudo o mais que o forma a partir do exterior, temos uma suposta maior plasticidade de princípios de individuação, devido à multiplicidade de forças e planos explicativos, evidenciados segundo a necessidade das questões levantadas em cada momento.

No caso da dialética, seu descrédito não é menor, pois, tal como se consolidou a partir do pensamento de Hegel, o modus operandi desse tipo de pensamento é guiado pela explicitação de contradições, de polaridades, antinomias, enfim, de oposições. Na Fenomenologia do espírito, obra que abre a construção do sistema filosófico maduro do autor, vemos várias dualidades em ação: espírito e natureza, universal e particular, abstrato e concreto, mediação e imediatidade etc. Tais dualidades demonstrariam, segundo aquele ponto de vista crítico, diversas características desfavoráveis: excessiva rigidez, incapacidade de perceber diferenciações gradativas entre os polos explicativos, procedimento previamente esquematizado e que se impõe de fora ao objeto.

Diante desse panorama, não é difícil imaginar as dificuldades de alguma teoria que não apenas valorize o conceito de subjetividade, quanto se sirva de um procedimento conceitual próximo da dialética. Esse é o caso de boa parte das teorias psicanalíticas, dentre as quais a que serve de base para minhas reflexões, a saber, a leitura de Jean Laplanche sobre Freud. Meu objetivo aqui é fazer uma defesa, em linhas bastante gerais, da ideia de uma concepção dialética de subjetividade.

Quando se procura entender determinada realidade cultural, como arte, ética, religião etc., a multiplicidade de pontos de vista a que nos referimos no início do texto apresenta diversas vantagens, pois nos permite interpretar os fenômenos como uma espécie de síntese e agregação de fatores que se sedimentam no objeto, tornando viável elucidar e compreender problemas significativos. Todo esse ganho, entretanto, é pago muitas vezes com a diminuição de seu poder explicativo, restringindo-se a abordagens interpretativas que tendem a ser apenas descrições gerais de como tais realidades operam, articulam-se e influenciam-se. Embora muitas vezes não estejam ausentes considerações dinâmicas, ou seja, de forças e princípios motivacionais de constituição dos objetos, o aumento da quantidade de princípios empregados caminha francamente no sentido de traduzir conceitualmente (de forma geral, teórica e filosófica) as relações perceptíveis nos fenômenos.

Pode parecer estranho invocar a demanda de teor explicativo de teorias sociais e filosóficas, na medida em que já nos acostumamos a conferir validade à divisão que o filósofo Wilhelm Dilthey propôs entre explicar e entender. Segundo o autor, somente a natureza é passível de ser explicada em seus mecanismos físicos, químicos e bio-fisiológicos, enquanto os fenômenos sociais e culturais podem ser apenas entendidos, compreendidos ou interpretados. Na base de tal bipartição, reside a ideia de que somente os processos naturais obedecem a leis universais regulares, em que descrevemos fatos e processos e prevemos sua ocorrência futura. Em contraste com isso, os fenômenos culturais parecem estar sujeitos a uma mobilidade, flutuação e indeterminação de tal ordem que tornaria possível apenas mecanismos de compreensão interpretativa.

Por mais que soe paradoxal, a psicanálise reivindica a construção de uma teoria com certo valor explicativo, embora não equiparável ao procedimento das ciências naturais. A demonstração disso em um nível satisfatório demandaria um volume de argumentos muito grande, de modo que vou me limitar apenas à exposição de um princípio geral. De acordo com a teoria psicanalítica que defendo, a dimensão motivacional mais própria do ser humano, sendo inconsciente, fundamenta-se nas sucessivas e infinitamente variáveis formas de conferir resolução a diversas contradições que subjazem à esfera e âmbito conscientes. Como exemplo, podemos ressaltar as polaridades entre masculino e feminino, censura e desejos inconscientes, pulsões do eu e sexuais, as ambivalências afetivas (como entre amor e ódio), princípio de prazer e princípio de realidade, processos psíquicos primários e secundários, identificações paternas e maternas etc. Cada uma dessas polaridades é fonte motivacional (pelo menos de forma indireta e com muitas mediações) para tudo o que se apresenta como realidade consciente, na medida em que o aparelho psíquico-subjetivo é forçado a se rearranjar, produzir trabalho, elaborar formas de resolução que se apresentam sempre precárias em alguma medida. A cada forma de resolução, que estabelece um compromisso entre as forças que se opõem, temos sempre a satisfação e negação delas, demandando sempre novas vias para serem satisfeitas.

Se tal perspectiva é válida, então ela implica dizer que o estrato motivacional mais próprio para os seres humanos é não apenas contraditório, mas existe em função das contradições entre diversos planos psíquicos. Se aceitarmos um dos princípios basilares da concepção freudiana de que o inconsciente se forma, em seu núcleo mais fundamental, nos primeiros anos de vida, então uma consequência altamente significativa é a de que todas as formas de resolução culturalmente articuladas e desenvolvidas são substancialmente posteriores, tardias, em relação àquilo que as impulsiona em sua base. Essa defasagem temporal entre o que exigiu uma resolução em um momento arcaico (em que o psiquismo ainda se formava) e o que será vivido pelo indivíduo posteriormente implica, entre outras coisas, uma espécie de cegueira do sujeito em relação àquilo que o move internamente. Em virtude disso, segue-se mais uma consequência: o fato de que as formas culturais de subjetivação e de construção do espaço social serão marcadas por uma inércia expressiva, ou seja, codificam modos de resolução de conflitos inconscientes que resistem a mudanças substantivas em seu princípio mais profundo. Assim, a capacidade de análise dialética de forças motivacionais inconscientes/subjetivas nos permitiria, de acordo com a interpretação que fazemos de cada realidade cultural, realizar um importantíssimo esclarecimento acerca do que impede o movimento progressista de mutação e avanço das condições de vida, tanto individuais quanto coletivas.

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