Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 28 de setembro de 2013

Sublime gratuidade


Hoje gostaria de fazer uma análise do conto "Uns braços", de Machado de Assis. Caso você não o conheça, leia-o aqui.

O princípio geral de composição da narrativa é a convergência de dois planos de abrangência e nucleação, um por assim dizer horizontal e outro vertical, que se encontram ao se tocarem no ápice da trama dos fatos, para voltarem a se separar, mas ainda entrelaçados. A horizontalidade se daria na correlação entre as vicissitudes da vida econômica e social em contraste com a singularidade da percepção de mundo individual. A verticalidade, por sua vez, seria traçada pelos nexos necessários das relações de amor e a gratuidade do sensível/sensual/sexual. A partir da vinculação entre esses dois vetores, depreende-se certa concepção de mundo plasmada literariamente através do significado do amor em uma sociedade que ainda estava em uma fase inicial de conceber uma cisão tensa entre as esferas da subjetividade, particularizada, e da socialização capitalista, cada vez mais universal.

Inácio nos é apresentado como quem sai de uma família-afeto para fazer parte de uma família-capital. Esse deslocamento se dá sob o princípio de agregação de valor à sua individualidade, valor propriamente capitalista, ou seja, para aprender um ofício mais valorizado economicamente. Não se trata apenas de um estágio, pois o rapaz começa a integrar um outro núcleo familiar, passando a se sentir um estrangeiro, um imigrante em um país mais rico que cobra asperamente pelas benesses do aprendizado de seu modo de ser mais avançado economicamente. Já desde o início, porém, vemos a relutância da adequação a este meio, desde um aspecto mais por assim dizer fisiológico, como do fato de dormir muito, até a indisposição para com a agressividade rabugenta de seu pseudo-padrasto. Não é difícil concluir que Inácio estava se "vendendo", ou renunciando a uma família-afeto para comprar, e na verdade por decisão de seu pai, um posicionamento sócio-econômico mais elevado. Ocorre que esse contrato estava sendo firmado no momento em que ele ainda era jovem demais, pois sua percepção das agruras das relações extra-familiares como preço necessário para o sucesso econômico não estava suficientemente firmada. E tanto era jovem demais (uma criança?) que "sim, ainda pode apanhar".

Essa situação descreve, claramente, o contexto de um rito de passagem, de modo que a família-afeto representa a nucleação individual, onde o personagem passou sua infância, e a família-capital configura uma promessa de integração na sociedade capitalista mais abrangente. Esse segundo núcleo familiar, então, apresenta uma mescla entre a família-afeto e a sociedade-capital, e sua especificidade como um nódulo heterogêneo da individualidade vai ditar os rumos da narrativa: Borges é um patrão-pai e Severina é uma mulher-mãe. A dupla caracterização do primeiro já fica imediatamente clara, mas a da segunda também, em virtude do fato de que a protagonista logo no início surge como minimizando a agressividade e a rudeza de seu companheiro, ou seja, em uma atitude tipicamente materna, ao mesmo tempo em que sabemos que não possui vínculo parental nenhum com Inácio, além de não ter idade suficiente para ser sua mãe.

Se Inácio saiu de uma família-afeto e emigrou para uma família-capital, vai descobrir nesta uma outra fonte de afeto, o qual aparece como marca de sua saída da primeira nucleação familiar: o caráter estrangeiro, áspero e "vendido" da liberalidade quase bélica da sociedade economicamente estruturada contém na rede de suas contingências o espaço necessário para a emergência de um vínculo afetivo substancialmente novo. Importa salientar a heterogeneidade entre o acaso do vínculo afetivo e a necessidade imperiosa, ditada pelo plano de progresso econômico, pois é no encontro dessa polaridade que passo a falar daquela verticalidade a que me referi acima.

Em meio às vicissitudes do rito de passagem capitalista abriu-se um parêntese pelos braços alvos e sedutores de dona Severina. A fixação quase fetichista de Inácio é marcada pela concretude sensível da cor, das formas e dos movimentos dos braços, momento em que o objeto de seu desejo/prazer se mostra na gratuidade de seu ser-parcial. O narrador não recua em mostrar um investimento afetivo específico, ou seja, não dirigido a totalidade da mulher Severina. Essa atitude voyerista é um ingrediente importante, pois demonstra a outra face do rito de passagem de Inácio, pois, agora, é ele que se "vende" de forma mais íntima, uma vez que, não dando importância à seu progresso sócio-econômico, suporta a agressividade de Borges para poder contemplar três vezes por dia os braços de dona Severina. Que estes fossem sua tenda moral de repouso qualifica propriamente a ambigüidade não-resolvida entre valer e não valer, entre gozo e desconforto, entre estímulo e recusa.

Os dois protagonistas são estrangeiros um para outro, confabulando sobre a intenção alheia através da materialidade dos pequenos gestos, tomados como signos e indícios de desejos. Embora o narrador se esforce por dizer que a nudez dos braços da protagonista era devida ao fato de que todos os vestidos de manga comprida teriam se acabado, qualquer leitor pode se perguntar por que ela não comprou outros, uma vez que seu companheiro tinha um bom salário. Severina, ainda jovem, queria ser não apenas vista, mas apreciada, e exprimia isso na evidência sensual de seus braços. Que os olhares e atitudes de Inácio pudessem revelar um desejo por ela foi objeto de investigação do modo que o foram pelo fato de que ela gostaria de se perceber como desejada através da gratuidade do desejo sexual de um adolescente. A dupla impossibilidade de um tal desejo, tanto por vir de "uma criança" quanto de configurar um leve adultério, é, assim, emoldurada pela percepção narcísica da protagonista, pelo gozo da afirmação de sua individualidade ao jogar com a gratuidade transgressora do vínculo afetivo e com a concretude sensível/sensual que lhe serve de energia de ativação e moeda de troca das mensagens lascivas.

A cumplicidade recíproca continuou mediada pela distância no momento de um beijo que acontece dentro e fora do sonho, sem que as duas realidades se encontrassem na percepção de Inácio. Continuou mediada também pela consciência culpada de dona Severina, que passou a ter um medo incontrolável de seu próprio desejo, o que se agravava enormemente pela incerteza de se Inácio estava mesmo dormindo. Embora o narrador não nos tenha fornecido indicações claras sobre a motivação da saída de Inácio, embora isso tenha sido prometido, parece-me claro que Borges o devolveu à sua família por alguma fala de sua companheira. Nesse cenário, vemos que o romantismo do conto é entrecortado, do início ao fim, pelas tensões, pelos pontos de parada e avanço na correlação entre o micro e o macro, entre a singularização sensível e a percepção de si em uma totalidade, como pessoa e como ser social, entre a mesquinhez de interesses econômicos e de posicionamento social e a sublimidade de um desejo pautado pela sensualidade de um par de braços.

A partir desse panorama ambíguo e contraditório, podemos especular um pouco sobre uma face da dialética do amor. Tomado em sua figuração romântica, caracterizada pela rede dos vínculos entre pessoas que se complementam e dialogam como seres totais, o amor pode ser visto como trajetória ascendente perante a imediatidade do gozo com o que é parcial, centrado muitas vezes de forma fetichizada em um aspecto corporal e lascivo. No entanto, muito do que confere substância ao amor reside no núcleo de não-resolução entre o plano dos vínculos necessários e totalizados entre as pessoas e a parcialidade do que é gratuito e contingente. Se o sublime é caracterizado por uma situação limite, por algo que nos coloca perante a iminência da perda de referencial, então poderíamos falar de uma espécie de entropia deste impacto de sublimidade, que é a marca da relação entre a parcialidade e a totalidade do desejo, caminhando rumo à dissolução de todas essas tensões em um plano de articulação universal e abrangente. Levando em conta que a entropia é a medida do quanto a energia útil de um sistema é perdida ao longo do tempo, passando de organizada e aproveitável para caótica e não-aproveitável, é como se a elevação moral e societária do amor romântico produzisse uma espécie decaimento entrópico da força explosiva que anima as contradições nucleares entre a parcialidade sexual e a totalização amorosa. Para nossa sorte, essa entropia, diferente da que ocorre nos fenômenos físicos, não é irreversível.

Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.


2 comentários:

Adriana Figueiredo disse...

Caro Dr. Verlaine Freitas:

Parabenizo-o por sua análise do conto machadiano “Uns braços”, por abordar o panorama ambíguo e contraditório das relações amorosas / sexuais que se deslindam da narrativa e que, ao mesmo tempo, são estruturadas e entrecortadas pela genialidade e engenhosidade da narração machadiana. Como bem dito, o conto analisado revela a dialética do amor, com seus vínculos necessários e totalizantes e, além, com a parcialidade do que é gratuito e contingente. A cisão conjuntamente necessária entre a parcialidade sexual e a totalização amorosa.

Da leitura literária de uma sociedade, que ainda estava em etapa inicial de conceber uma cisão tensa entre as esferas da subjetividade, particularizada, e da socialização capitalista, a sua análise se transpõe para a contemporaneidade, em que se busca compreender, nos diversos ramos do conhecimento, inclusive, na ambiência jurídica, o conceito aberto de entidade familiar e seus contornos multifacetados. Seriam refrações naquilo que expandem para os novos tempos?!... ou tudo sempre foi, é e será, ainda que os contornos tenham sido mitigados pela sensualidade de “apenas” uns braços?! O ato de amar, na perspectiva machadiana e para além das vicissitudes atuais, parece exigir a completude que não vem de uma exclusividade artificial... mas, sim, da união dos vínculos necessários, quase totalizados, e das contingências parciais do que é sensualmente gratuito e absolutamente necessário: marcas da parcialidade e da totalidade do desejo que dão sentido à substância do amor. (Por: Adriana do Carmo Figueiredo)

Verlaine Freitas disse...

Obrigado, Adriana, pelo retorno. Apesar de o conto se dar em uma época de modernidade precoce, creio que reflita realmente muito de nossas ambiguidades atuais.