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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Fazer história


Nas provas de História de certos vestibulares ou de conclusão do ensino médio, deve causar certa estranheza aos estudantes a inserção de questões sobre política e economia atuais. Pode soar um tanto duvidoso se, por exemplo, o atual escândalo da espionagem generalizada feita pelo governo dos EUA seja um dos temas, considerando que tal acontecimento ainda está em curso, e que nem sabemos da importância que lhe será conferida daqui a cem anos, quando então deverá contar ou não como um fato histórico relevante. A resposta é conhecida de todos nós: história não é apenas o já reconhecido em um tempo passado, mas também o que nos constitui atualmente, o que fazemos, praticamos e construímos no horizonte mais restrito ou mais ampliado da civilização e da cultura. Não se trata apenas de um saber sobre o que já se realizou, mas também de uma prática, de concepções de mundo que se refazem e se alternam constantemente. Nesse sentido, habitamos continuamente o palco da história, e nossos passos são as vias para seu alargamento.

Embora esta concepção possa ser reconhecida imediatamente como válida, entretanto sua eficácia parece diminuir nas mentes quando deve ser colocada em jogo em alguns momentos decisivos. Quero comentar duas situações típicas desse estado de coisas: (1) a criação de neologismos, principalmente no trabalho de tradução de textos, (2) e a construção de prédios de salas de aula em universidades.

1) A tarefa de tradução é especialmente árdua e delicada, não apenas devido às dificuldades inerentes a se encontrarem boas correspondências entre palavras, expressões idiomáticas e conceitos entre os dois idiomas, mas fundamentalmente pela consciência de que não haverá acoplagem perfeita. A variação de significados de um mesmo vocábulo em virtude de suas conotações diferenciadas em cada contexto, por exemplo, impede ou dificulta enormemente a manutenção de uma mesma palavra no idioma de chegada, perdendo-se algo do senso de continuidade. Esses e vários outros problemas demandam soluções criativas, de modo a contornar a solidez e a inércia de significações e correlações sintáticas das duas línguas. Na medida em que o leque de significados de uma palavra do idioma original difere das palavras já existentes no idioma de chegada, tem-se a ideia de forjar uma nova palavra, um neologismo, para tornar possível a tradução.

Está muito claro que esta solução deve ser submetida a um exame minucioso, para que não simplesmente se multipliquem novos vocábulos, tornando o texto artificial, pedante e excessivamente técnico. Por outro lado, algumas vezes percebemos uma resistência excessiva a se adotarem palavras que já constam até mesmo nos dicionários, mas que foram introduzidos recentemente. Nesses momentos, há que se questionar: quanto tempo será necessário até que uma palavra não seja mais um neologismo, apesar de já empregada por várias pessoas, seja no âmbito técnico especializado ou coloquialmente? Muitas palavras que denotam conceitos psicanalíticos, por exemplo, foram criadas em virtude da necessidade de apreensão conceitual de fenômenos que não haviam sido ainda objetos de estudo, como narcisismo, psicose, sadismo, masoquismo etc. Todos esses vocábulos, com pouco mais de 100 anos de existência, podem ser considerados “ainda” neologismos? É muito evidente que não, mas durante cerca de três ou quatro décadas o foram, ganhando sua cidadania no âmbito da teoria psicanalítica devido à necessidade intrínseca de lidar com os fenômenos a que se referem.

Na escolha de termos a serem usados ao se traduzir, não apenas o peso da tradição do uso de determinados vocábulos não é decisivo, quanto também pode contar como um fator negativo. Isso se dá em virtude do fato de sua ancestralidade carregar uma série de associações conotativas que funcionam como obstáculo a se pensar de forma diferente, que é precisamente o que se quer como resultado de uma nova aposta teórica. Nesses momentos, é preciso cautela, mas também uma boa dose de confiança na possibilidade de construção histórica de novas concepções de mundo.

2) A vida num ambiente universitário tem diversas características que a aproximam da que se tem em uma cidade. Há vários prédios, ruas, agências bancárias, restaurantes, espaços para shows, cinemas, e até mesmo uma prefeitura (cada campus universitário tem a sua). Em virtude de toda essa circulação de seus “habitantes”, é evidente que cada pessoa tenda a se reconhecer nos espaços que frequenta, não apenas em virtude do tempo em que ocupa tais espaços, mas também por sua identificação com todos aqueles que vieram antes. “Nesse DA já passaram várias gerações de estudantes, que enfrentaram a repressão ditatorial, lutaram pelas diretas já e construíram a identidade estudantil de nossa universidade”: essa frase pode condensar muito da percepção de envolvimento histórico de um estudante com o ambiente da faculdade onde estuda.

Ocorre, porém, que os espaços universitários precisam se expandir. Eles necessitam não apenas de ampliações dos prédios já existentes, como de outros edifícios e até mesmo de novos campi. Nesse momento, entra em jogo, mais uma vez, a relutância de perceber a si mesmo como tendo o papel de construir a história, momento em que é preciso renunciar ao prazer de se alojar em um espaço já saturado de identidade construída historicamente. — Atualmente vivencio uma situação como essa. A faculdade em que leciono (FAFICH, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG) ganhou um novo prédio, com instalações modernas, auditórios muito bem equipados, tendo salas de aula amplas e quase todas com projetores multimídia. Diversos alunos, entretanto, têm se mostrado relutantes a assistir às aulas nesse novo prédio, usando como justificativa, entre outras coisas, a ausência de uma cantina e de bancos nos corredores e no pátio para aguardar o início das aulas, mas o argumento que me chamou mais a atenção foi o de que “este prédio não possui história”. Todos os outros devem realmente ser levados em consideração, mas eles têm em comum a característica de poderem ser respondidos através de alguma medida concreta, como instalar uma lanchonete, fazer licitação para compra dos bancos etc. O último deles, entretanto, somente pode ser respondido com aquela mesma noção de história que apontamos no início de nosso texto. — É especialmente saboroso recordar que quando o prédio atual da FAFICH foi inaugurado, em 1990, muitas vozes se levantaram contra sua ocupação. Dentre as diversas justificativas para a recusa, você é capaz de imaginar qual era a mais falada?

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