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sábado, 12 de outubro de 2013

Vias de desfiguração ideológica do racismo


A sociedade brasileira é racista. Um dos argumentos empregados contra essa ideia baseia-se na constatação de que no Brasil, de forma diferente dos Estados Unidos, por exemplo, já houve muita miscigenação entre brancos, pretos e indígenas, de modo a termos uma profusão de tipos raciais médios. Diante de uma gradação infinita e principalmente indefinida entre tipos raciais que dificilmente são “puros”, muitas vezes defende-se que cotas raciais para ingresso em universidades públicas não teriam muito sentido, tal como disse um editorial da revista Veja, que se apoiou no curioso o fato de dois irmãos gêmeos terem recebido avaliações opostas uma à outra quanto a sua raça ao realizarem o exame vestibular.

Um grande problema em relação a tais argumentos é que preconceitos e formas de segregação, violência e desrespeito para com o outro não necessitam de bases materiais, sejam elas biológicas, de riqueza ou outras quaisquer, para serem exercidas em toda sua força. Podem-se construir inimigos tomando-se como apoio características concretas mínimas e até mesmo inexistentes, tecidas de forma substancialmente imaginária. Tal como a psicanálise ensina fartamente, a atitude neurótica consiste em larga medida na leitura de mundo mediada por fantasias inconscientes, das quais temos muito pouca transparência em relação a seu poder e modo de determinação de nossas atitudes conscientes. Para que elas entrem em ação, caracterizando todo um quadro de comportamentos e atitudes sintomáticos, muitas vezes basta uma tênue associação com desejos recalcados, de tal forma que uma grande cadeia associativa se incumbir de fazer fluir uma quantidade impressionante de afetos, cuja racionalidade, motivação e sentido nos escapam. Assim, havendo a disposição de segregar o outro, qualquer proximidade à raça negra, mesmo que mínima, pode ser mais do que suficiente. Se a atitude racista não depende de uma realidade substantiva em termos materiais para ser exercida, tampouco é abrandada pelo fato de nos convencermos que tal realidade não existe, ou não é significativa devido a sua indefinição.

Há que se considerar, também, que não é pelo fato de haver tipos raciais intermediários com gradação infinita que o racismo não possa existir, também ele, em graus, embora na verdade não de forma tão indefinida, pois sua ferocidade aumenta exponencialmente. É muito evidente que existe maior ou menor aversão a uma pessoa em virtude do fato de ela aparentar maior proximidade com a raça negra. Todos nós sabemos que os afetos possuem intensidade muito variável, e a violência racista também, apoiando-se na percepção de que se trata de uma pessoa que “não é tão branca quanto nós”, passando pela ideia de que é alguém “muito moreno”, “quase mulato” etc.

Por outro lado, tal miscigenação não serve apenas de apoio para negar a existência do racismo, nem apenas para camuflá-la, como se diz usualmente, uma vez que pode ser percebida pela própria pessoa como um suporte para o exercício de sua violência contra o outro. Nesses momentos, em vez de considerar a mescla racial em direção aos pretos e indígenas, a pessoa se considera, de alguma maneira e em algum grau, partícipe da raça branca, de tal forma que essa característica lhe serve de apoio psíquico para se isolar dos pretos e indígenas e assim poder hostilizá-los.

É bem verdade que a condição histórica de coexistência das diversas raças no país gerou certa cultura de convivência e aceitação de descendentes africanos e indígenas. Embora seja muito difícil de dizer o quanto a miscigenação contribuiu positivamente para isso, o certo é que essa atitude de tolerância é sustentada com base na percepção de que tais grupos oprimidos se satisfaçam com e se resignem a uma condição subalterna. Tão logo manifestem algum talento, capacidade e determinação que os faça ascenderem em sua condição sócio-econômica, sofrem uma hostilidade mais do que proporcional à sua ascensão. — Essa realidade social, que na verdade é bem conhecida por todos que tenham sido vítimas dela, tem parentesco com a de diversos imigrantes de países ricos que são tolerados na medida em que apenas se conformem a prestar serviços elementares e subalternos. Quando exigem espaços para manifestação de sua cultura, quando demandam suficiente visibilidade e expressão de seus modos de vida próprios, ou seja, quando começam a reivindicar serem ouvidos e vistos como parte integrante e viva de toda a esfera social, ajudando a construir sua identidade, nesse momento são categoricamente hostilizados.

A luta contra o racismo exige o desmascaramento consistente dessas formas de obscurecimento ideológico das atitudes de segregação, em que quaisquer de suas formas abrandadas são expostas com visibilidade desproporcional e portanto falsificadora da realidade violenta a que os pretos e indígenas estão submetidos.

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