A sociedade brasileira é racista. Um dos argumentos
empregados contra essa ideia
baseia-se na constatação de que no Brasil, de forma diferente dos Estados
Unidos, por exemplo, já houve muita miscigenação entre brancos, pretos e
indígenas, de modo a termos uma profusão de tipos raciais médios. Diante de uma
gradação infinita e principalmente indefinida entre tipos raciais que
dificilmente são “puros”, muitas vezes defende-se que cotas raciais para
ingresso em universidades públicas não teriam muito sentido, tal como disse um
editorial da revista Veja, que se
apoiou no curioso o fato de dois irmãos gêmeos terem recebido avaliações
opostas uma à outra quanto a sua raça ao realizarem o exame vestibular.
Um grande problema em relação a tais argumentos é que preconceitos
e formas de segregação, violência e desrespeito para com o outro não necessitam
de bases materiais, sejam elas biológicas, de riqueza ou outras quaisquer, para
serem exercidas em toda sua força. Podem-se construir inimigos tomando-se como
apoio características concretas mínimas e até mesmo inexistentes, tecidas de
forma substancialmente imaginária. Tal como a psicanálise ensina fartamente, a
atitude neurótica consiste em larga medida na leitura de mundo mediada por
fantasias inconscientes, das quais temos muito pouca transparência em relação a
seu poder e modo de determinação de nossas atitudes conscientes. Para que elas
entrem em ação, caracterizando todo um quadro de comportamentos e atitudes
sintomáticos, muitas vezes basta uma tênue associação com desejos recalcados,
de tal forma que uma grande cadeia associativa se incumbir de fazer fluir uma
quantidade impressionante de afetos, cuja racionalidade, motivação e sentido
nos escapam. Assim, havendo a disposição de segregar o outro, qualquer proximidade
à raça negra, mesmo que mínima, pode ser mais do que suficiente. Se a atitude
racista não depende de uma realidade substantiva em termos materiais para ser
exercida, tampouco é abrandada pelo fato de nos convencermos que tal realidade
não existe, ou não é significativa devido a sua indefinição.
Há que se considerar, também, que não é pelo fato de haver
tipos raciais intermediários com gradação infinita que o racismo não possa
existir, também ele, em graus, embora na verdade não de forma tão indefinida,
pois sua ferocidade aumenta exponencialmente. É muito evidente que existe maior
ou menor aversão a uma pessoa em virtude do fato de ela aparentar maior
proximidade com a raça negra. Todos nós sabemos que os afetos possuem
intensidade muito variável, e a violência racista também, apoiando-se na
percepção de que se trata de uma pessoa que “não é tão branca quanto nós”,
passando pela ideia de que é alguém “muito moreno”, “quase mulato” etc.
Por outro lado, tal miscigenação não serve apenas de apoio
para negar a existência do racismo, nem apenas para camuflá-la, como se diz
usualmente, uma vez que pode ser percebida pela própria pessoa como um suporte
para o exercício de sua violência contra o outro. Nesses momentos, em vez de
considerar a mescla racial em direção aos pretos e indígenas, a pessoa se
considera, de alguma maneira e em algum grau, partícipe da raça branca, de tal
forma que essa característica lhe serve de apoio psíquico para se isolar dos
pretos e indígenas e assim poder hostilizá-los.
É bem verdade que a condição histórica de coexistência das
diversas raças no país gerou certa cultura de convivência e aceitação de
descendentes africanos e indígenas. Embora seja muito difícil de dizer o quanto
a miscigenação contribuiu positivamente para isso, o certo é que essa atitude
de tolerância é sustentada com base na percepção de que tais grupos oprimidos
se satisfaçam com e se resignem a uma condição subalterna. Tão logo manifestem
algum talento, capacidade e determinação que os faça ascenderem em sua condição
sócio-econômica, sofrem uma hostilidade mais do que proporcional à sua
ascensão. — Essa realidade social, que na verdade é bem conhecida por todos que
tenham sido vítimas dela, tem parentesco com a de diversos imigrantes de países
ricos que são tolerados na medida em que apenas se conformem a prestar serviços
elementares e subalternos. Quando exigem espaços para manifestação de sua
cultura, quando demandam suficiente visibilidade e expressão de seus modos de
vida próprios, ou seja, quando começam a reivindicar serem ouvidos e vistos
como parte integrante e viva de toda a esfera social, ajudando a construir sua
identidade, nesse momento são categoricamente hostilizados.
A luta contra o racismo exige o desmascaramento consistente
dessas formas de obscurecimento ideológico das atitudes de segregação, em que
quaisquer de suas formas abrandadas são expostas com visibilidade
desproporcional e portanto falsificadora da realidade violenta a que os pretos
e indígenas estão submetidos.
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