Ações e projetos políticos têm várias camadas e ordens de
significado, que diferem em extensão, sentido, princípio (tanto imediato quanto
de longo prazo), nível de abstração etc. Isso faz com que sejam sempre
passíveis de avaliações e críticas quanto a um aspecto que divergem às vezes
radicalmente ao se considerar outro fundamento. A análise, assim, torna-se não
apenas difícil, mas também suspeita de artificialidade. Em contraste, leituras
que focam apenas um aspecto tendem a conseguir contornar sua parcialidade, sua
tendenciosidade, ao se apresentarem como seguras ou “determinadas”. Esse último
caso é perfeitamente factível pelo modo como tais análises não se veem
obrigadas a “ir e vir” de um princípio a outro, marchando inexoráveis rumo a
uma conclusão “acachapante”. — Hoje quero demonstrar a necessidade de leituras
políticas multifacetadas tomando como objeto a disputa referente ao uso de
animais em experimentos científicos.
No dia 18/10/2013, dezenas de pessoas invadiram o Instituto
Royal, em São Roque, SP, onde se faziam experiências com animais, e libertaram
178 cães da raça beagle. A justificativa mais imediata é que os animais estavam
sujeitos a maus-tratos. Naturalmente, essa acusação deveria ser levada às
autoridades competentes, pois seria necessário averiguar as reais condições dos
testes, em vez de se praticar uma condenação sumária através da invasão de uma
propriedade particular. Todos que participaram do ato, no entanto, sabem
perfeitamente que a ação pode ser condenada segundo essa perspectiva. Sua
legitimidade reside no fato de que “era preciso fazer alguma coisa”, diante do
que parecia ser um atentado contínuo à vida de dezenas de animais.
Mesmo que se defenda a prática de experiências científicas
desse tipo, é inegável que sua fiscalização e controle são muito precários. Em
universidades que possuem comitês de ética em experimentação animal, por
exemplo, faltam órgãos fiscalizadores dos laboratórios para averiguar se os
projetos estão ou não seguindo as diretrizes aprovadas pelos comitês: um
pesquisador (docente ou discente) envia um projeto especificando substâncias e
suas dosagens para analgesia e anestesia dos espécimes, recebe a anuência do
comitê, mas somente seguirá todo o roteiro segundo sua própria consciência, uma
vez que não prestará contas dos procedimentos efetivamente seguidos. Embora
seja evidente que não se podem condenar de antemão pós-graduandos e
pesquisadores universitários como antiéticos, é também óbvio que muitos podem
sê-lo, e nesse sentido ações de ruptura como a da invasão do Instituto Royal se
justificam por fomentar a consciência do quanto são necessárias ações mais
incisivas, concretas, de proteção aos animais usados em laboratório.
Como sucede em ações desse tipo, no entanto, as motivações
eram múltiplas, e grande parte das pessoas, não apenas que participaram da
invasão, mas que se posicionaram sobre ela, argumentam contra toda e qualquer
experiência com animais: desde a que tem como finalidade o desenvolvimento de
cosméticos (as quais eu condeno), até a que se dedica à cura de doenças
gravíssimas, como o câncer e a AIDS.
A comunidade científica e universitária já teve que fazer
frente a algumas iniciativas de parlamentares que propuseram o fim de tais
métodos de pesquisa. Nesse momento, não está em jogo apenas a falta de
fiscalização suficiente dos procedimentos de teste, mas uma concepção de
princípio bastante geral acerca da legitimidade de nos posicionarmos, como
espécie, acima de todas as outras. De forma análoga a como não permitimos
experiências de alto risco com seres humanos, também deveríamos proibi-las em
animais. O argumento mais imediatamente empregado contra a suspensão de tais
experimentos é que não é possível substituir totalmente as experiências com um
organismo vivo por modelos computacionais ou por análises in vitro de
culturas celulares ou de tecidos. Embora vários textos e livros se dediquem a
este assunto, argumentando, por exemplo, que a discrepância entre os organismos
coloca sob suspeita as projeções em seres humanos de resultados obtidos com
espécies muito diferentes, parece-me inegável que uma quantidade significativa
de pesquisas somente tem chance de progresso através do uso de animais vivos.
Além disso, em vários casos a proximidade de um determinado sistema fisiológico
justifica a extrapolação dos dados para nossa espécie. Veja nesse link uma
notícia que reputo como espetacular, que fala do sucesso de uma pesquisa em que
macacos conseguiram mover braços mecânicos projetados em computador. Se este
trabalho seguir seu desenvolvimento tal como já demonstrado nos resultados
expostos até o momento, significará um avanço simplesmente maravilhoso, ao
propiciar o resgate de condições mínimas de uma vida boa a pessoas
paraplégicas. Recuperar a capacidade de andar quando se perderam as duas pernas
é algo a ser comemorado com uma alegria indizível. Igualmente claro, no
entanto, é que tal avanço não seria possível ou pelo menos demoraria
infinitamente mais se dezenas de animais não pudessem ser usadas nesses
experimentos, uma vez que o sistema neurológico precisou ser testado em seu
funcionamento real.
A discussão, porém, continua, mesmo alcançando um acordo
quanto ao caráter imprescindível de tais experiências com animais para o
progresso científico, pois a crítica ao especismo, ou seja, a consideração
de que a vida humana vale mais do que a de qualquer outro animal, diz que não
temos o direito de usar tais espécimes como meio para o bem-estar humano. Tal
perspectiva se baseia em um conceito de vida que me parece por demais abstrato,
análogo ao que serve de base à crítica da eutanásia, por exemplo, em que se diz
que enquanto houver vida, ela deve ser preservada. De meu ponto de vista, a
condição de um sofrimento exasperado e sem perspectiva de cura não qualifica
uma vida que deva ser preservada. Sua continuidade afronta a perspectiva de que
a vida vale na proporção em que ela é desejável pelo modo com que é
experienciada, e não simplesmente devido a seu valor como vida simplesmente.
Aplicando essa perspectiva ao caso da experiência com os
animais, eu diria que os testes que se esforcem por minimizar ao máximo o
número de espécimes e por atenuar o mais possível seu sofrimento caminham no
sentido de favorecer a vida, não sendo de forma alguma um atentado contra ela.
O sacrifício de todos os espécimes empregados nessa pesquisa para devolver o
movimento a pessoas com paralisia, por exemplo, está totalmente legitimado,
tendo em vista a quantidade virtualmente infinita de seres humanos e não
humanos que terão condições de vida restauradas a um patamar de dignidade
minimamente tolerável. Trocar este progresso nas condições de vida de milhares
e milhões de pessoas (e de animais, pois muitas pesquisas são feitas para sua
saúde) pela preservação da vida de alguns animais submetidos a sofrimento
controlado em laboratório é, na verdade, auto-contraditório, pois, em nome de
um conceito abstrato de vida, perpetuam-se sofrimentos conscientemente vividos
de forma descontrolada por uma quantidade virtualmente indefinida de seres
humanos e não humanos.
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