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sábado, 2 de novembro de 2013

Traduzindo conceitos

Como ocorre com toda ciência, a psicanálise também precisou constituir seu objeto de estudo, através do delineamento do espaço do psiquismo em contraste com o âmbito biológico e com a dimensão apenas consciente, linguística ou cultural. Diante da impossibilidade de uma determinação factual, positiva, da realidade psíquica, que sempre precisará ser inferida hipoteticamente a partir de suas manifestações mais evidentes, multiplicam-se as dificuldades de articulação e estabelecimento dos conceitos que pretendem fornecer suficiente visibilidade para aquilo que, por sua própria “natureza”, não é visível. Nesse último aspecto, é instrutiva a comparação de Freud entre o inconsciente e a coisa em si de Kant, na medida em que ambos se situam para além de nossa percepção consciente, embora o primeiro admita um grau de aproximação cognitiva maior do que a segunda, de acordo com a perspectiva freudiana. Nesse cenário, não causa surpresa verificar o quanto o discurso psicanalítico está eivado de metáforas, analogias, metonímias, empréstimos conceituais de outras ciências, como biologia, termodinâmica, física, bem como de ciências humanas e de filosofia. Trata-se, de fato, de um grande esforço de definição do psíquico-inconsciente por diversos movimentos metafóricos no sentido mais próprio do termo, a saber, de trânsito, tráfego e transporte de significados, através, portanto, de uma nucleação dinâmica de movimentos de transitividade semântica, conotativa e definitória.

Embora Freud sempre tenha desejado conferir à psicanálise o estatuto de uma ciência, e não apenas de uma prática, ele não pôde fazer valer todo o poder semântico e definidor dos conceitos que tomou de empréstimo de outras ciências. Isso é não apenas atestado pelo abandono de uma fisiologia pseudo-positiva para os mecanismos psíquicos tal como ensaiada no Projeto para uma psicologia científica, mas também devido à dimensão prática, clínica e intuitiva do saber psicanalítico, que se desdobra e ganha consistência como uma derivação da fala dos pacientes histéricos e obsessivos. O discurso mais abstratamente teórico ainda poderá ser visto como resultado de um movimento tradutivo, de re-significação de um dizer de si que não possui virtualmente nada da fixidez e clareza distintiva dos conceitos científicos.

O discurso psicanalítico se forma, então, através do encontro de dois movimentos que deslocam, traduzem e re-elaboram palavras e conceitos: um deles por assim dizer horizontal, proveniente das ciências, da filosofia e das artes; e outro vertical, oriundo da experiência clínica. Na medida em que a psicanálise não pode prescindir nem do enriquecimento dado pela experiência prática, nem das formulações teóricas, não é possível — sob o preço de uma violenta ação arbitrária e incompatível com o projeto freudiano — fixar com exatidão o que tem maior peso de determinação no delineamento do vocabulário psicanalítico. Isso fica especialmente claro no contato com o próprio texto de Freud, em que as palavras de uso cotidiano, por mais que adquiram densidade conceitual e semântica teórica, ainda permanecem ligadas à experiência lexical originária. Isso é explicado não apenas pela constituição mais transparente da língua alemã, que não passou por uma metamorfose substantiva semelhante à da língua portuguesa em relação ao latim e o grego, mas também pelo desejo programático de Freud de evitar o movimento de abstração enfático que caracteriza a Filosofia.

Na medida em que nos situamos no âmbito do texto original freudiano, essa mobilidade semântica e sintática pode ser acompanhada em seus diferentes matizes, permitindo situarmo-nos em algum de seus patamares, desde os mais concretamente clínicos até os mais abstratos, como a metapsicologia. Na medida em que nos colocamos a tarefa de não apenas traduzir os textos freudianos para um outro idioma, mas também falar deles, explicá-los e apresentá-los em outra língua, temos um outro movimento, não mais horizontal ou vertical, mas por assim dizer de translação, de deslocamento paralelo para um outro espaço em que as correlações horizontais e verticais obedecem a leis e princípios lexicais diferentes, e nesse momento começa a ficar especialmente imperiosa a tarefa de decidir o privilégio que será concedido, em cada caso, ao deslocamento horizontal/teórico ou vertical/prático-clínico. — Como essa temática é bastante geral, podendo ser discutida em relação a inúmeros conceitos, vamos nos restringir aqui ao de pulsão.

A palavra alemã “Trieb” é de uso bastante comum, coloquial, e aponta para uma força interna que impulsiona de forma basilar, fundante da ação ou do movimento em geral. Não é empregada apenas em relação aos seres humanos, sendo distinguida fundamentalmente do esforço (Streben) que fazemos para alcançar alguma coisa. Nesse sentido, ela aponta para o que há de mais elementar como ímpeto volitivo. Este uso geral e não-técnico realmente dá margem a uma leitura ampla de Trieb como um impulso ou instinto, considerando tais palavras em português como conectadas a uma força ou o ímpeto não especificado, e, no caso de instinto, ligado essencialmente à dimensão somática, biológica, de natureza. Considerando que as formas mais superficiais de nossa consciência dos desejos incluem especificações linguísticas, simbólicas, culturais, para este ímpeto mais fundamental, a palavra “instinto” foi escolhida pelo tradutor inglês James Strachey e mais recentemente por Paulo César de Souza como correlatos de da palavra alemã Trieb.

A teoria pulsional de Freud especifica claramente a dimensão somática como fonte do Trieb. O caráter pressionante da pulsão, que o autor considera sua característica mais própria, liga-se à tensão somática, que exige uma forma de satisfação, meta de todo Trieb. Como o conceito de instinto nos remete inevitavelmente à ideia do comportamento animal, o tradutor brasileiro defendeu sua opção dizendo que, por um lado, o comportamento instintivo não apresentaria sempre uma regularidade tão enrijecida quanto normalmente se pensa; por outro lado, a tradução de Trieb por pulsão incluiria certa arrogância humana de se pensar acima e distanciado dos outros animais. Não nos cabe aqui investigar em que medida o comportamento instintivo dos animais apresenta rigidez total ou não, mas voltaremos a esse ponto ao final. Quanto a essa suposta arrogância, parece-me fruto de uma percepção muito equivocada, pois defender que haja diferenças substantivas do ímpeto volitivo humano perante o animal não significa em hipótese alguma apoiar qualquer superioridade de nossa espécie em relação às demais. Deste modo, importa mais considerar o modo com que o conceito de Trieb em Freud se conecta de forma sui generis ao âmbito somático, fisiológico.

Fazer isso significa assumir um posicionamento explícito quanto à carga teórica demandada na tradução e interpretação do Trieb freudiano. Implica dizer que necessitamos conferir uma especificidade técnica que não é transparente na própria palavra alemã, em virtude do que salientamos antes sobre o caráter mais fundamental da raiz de todo ímpeto volitivo, na verdade não apenas humano. Ocorre que essa tecnificação conceitual salientada pela tradução, entretanto, auxilia a evidenciar um adensamento teórico que Freud conferiu a este conceito, que não se torna claro no âmbito linguístico-vocabular do texto original. É evidente que não devemos tratar essa característica como uma fraqueza ou desvantagem do próprio texto freudiano, mas sim considerar a tradução como veículo indutor de nossa atenção para um movimento conceitual do texto não imediatamente perceptível na sua superfície lexical. Se isso é válido, então um dos princípios mais básicos que orientam as duas traduções novas mais abrangentes da obra de Freud (de Luiz Hanns e Paulo César de Souza), a saber, a relutância de empregar termos e estruturação discursiva mais técnica, não procede em pelo menos alguns momentos decisivos na leitura tradutiva do original.

Parece-me claro que a pulsão na teoria freudiana deve ser concebida através de dois grandes movimentos, mais ou menos bem delineados no vínculo entre a base somática e o âmbito da fantasia. Em vários momentos Freud coloca explicitamente que a sexualidade surge como se apoiando nas funções de autopreservação. Trata-se de uma relação parasitária, em um movimento de derivação. Nesse sentido, a base somática é, de fato, fonte da estimulação pulsional, em virtude do caráter erógeno de todo o corpo do bebê. Tal como vemos em uma muito citada passagem dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, nada do corpo do bebê está isento da possibilidade de produzir excitação. Toda essa carga de estimulação, entretanto, não está desconectada do âmbito perceptivo, em que a presença da mãe e de sua solicitude sexual são veículos inquestionáveis para a fixação desta carga afetiva em representações fantasísticas, que irão se consolidar como traços mnésicos, nas primeiras formas de recalcamento originário. Todo este primeiro percurso marca um psiquismo ainda incipiente, não completamente organizado e não cindido nos sistemas inconsciente e pré-consciente/consciente.

Na medida em que o âmbito das representações fantasísticas se consolida, temos então a emergência deste núcleo de representações fixadas, ao redor das quais irá gravitar uma carga de afeto extremamente forte, cuja força deriva precisamente do caráter ainda fragmentário, parcial e contraditório das representações. Nesse momento, cabe falar da constituição do ímpeto pulsional em sentido mais estrito e teoricamente mais adensado do termo: não como uma base difusa e indeterminada de todo e qualquer um ímpeto volitivo, mas sim como uma carga afetiva pulsante cujo núcleo atrativo radica não na dimensão somática, mas sim nas representações fantasísticas que aglutinaram, fixando, o impacto estimulatório do corpo do bebê em contato com o mundo ao seu redor, particularmente a mãe.

Nesse sentido, o objeto, um dos quatro componentes do Trieb, não seria propriamente a coisa externa, mas sim a representação fantasística recalcada e, portanto, inconsciente. Ele seria o mais variável da pulsão, não ao considerarmos este segundo movimento de consolidação das representações recalcadas, pois nesse registro o que se tem é uma fixação por assim dizer extrema. A variabilidade e contingência objetal reside no fato de não haver um lastro biológico, de natureza, para este polo fantasístico atrator dos afetos. O objeto pulsional, então, demarca uma fixação de uma energia psíquica, a libido, não originalmente existente em nós por natureza, mas que dependeu, sim, de modo essencial de toda a dimensão somática para sua emergência. Essa mediação do objeto pulsional recalcado, por sua vez, estabelece o ponto de ancoragem do que será a energia pulsional em sentido mais próprio.

Se tais reflexões estão corretas, então a fonte do Trieb não pode ser o corpo, na medida em que o objeto pulsional tenha se constituído através do recalque originário. Nesse sentido, pulsão e recalque são dois conceitos intimamente co-relacionados, de modo que a ideia freudiana de que o recalcado exerce uma pressão constante para seu retorno e de que a pulsão, de forma diferente do estímulo, exerce uma força constante, exprimem um mesmo estado de coisas, a saber, a constituição pulsional do psiquismo a partir da fixação de investimentos libidinais nos primórdios de constituição do aparelho psíquico. Também implica dizer que o Trieb não pode ser concebido como uma força primária e indiferenciada proveniente de extratos naturais profundos dos organismos em geral incluindo o ser humano. Essa concepção, afiançada pela semântica coloquial do termo, necessita ser substituída pela construção teórica freudiana, que faz a energia pulsional originar-se do movimento histórico individual de constituição dos primeiros objetos fantasísticos, dependente em larga medida das contingências do vínculo entre o sujeito que se forma e as condições ambientais e de vínculo afetivo com a mãe e com o pai.

A palavra “instinto”, de acordo com essa perspectiva, é extremamente inadequada, pois nos reenvia a uma concepção naturalizante do ímpeto motor, mesmo que desconsideremos as questões relativas ao comportamento hereditariamente fixado dos animais. No que concerne a este último aspecto, meu posicionamento é o de que nem tudo no comportamento animal é motivado por instinto, cabendo variações e desvios individualizados de comportamento e percepção, com maior ou menor expressividade, dependendo de cada espécie, e nesse ponto sigo as formulações de Henry Bergson. Segundo o autor francês, o que marca o comportamento instintivo é a acoplagem não-mediada entre os planos cognitivo, ou seja, de percepção da realidade, e o prático, do ímpeto de ação. Na medida em que percebemos os animais manifestando variações individualizadas de comportamento, então podemos dizer que está em jogo uma forma de ação em que o instinto não é integralmente determinante do agir. No que concerne ao ser humano, essa acoplagem imediata somente pode ser dita para reações muito específicas do arco reflexo e algumas ações do recém-nascido, que deixam de ser realizadas de forma tão automática com alguns meses de vida.

A tradução de Trieb por pulsão vem, assim, demarcar um espaço de especificação conceitual importante, não só no âmbito do texto freudiano, mas em termos de nossa concepção sobre questões antropológicas significativas, em que a mediação simbólica entre o ímpeto desiderativo e a ação adquire um modo de compreensão muito importante.

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