Embora sempre seja necessário, e na verdade imprescindível,
será também muito difícil debater com sobriedade e de forma serena sobre
política (bem como sobre religião de futebol, tal como se costuma popularmente
dizer). Se pessoas arriscam sua integridade física e sua própria vida em
confrontos com a polícia nas ruas, terão elas a disposição a um distanciamento
emocional perante suas ideias políticas quando em um debate?
A demanda de posicionamento objetivo em uma discussão frequentemente
se mostra fraca demais, quando comparada ao quanto nós nos identificamos
pessoalmente, não apenas com nossos ideais políticos, mas com a necessidade de
que eles tenham sua validade sedimentada e, de certa forma, confirmada pela
concordância do outro. A verdade política não é apenas da ordem da descrição de
mundo, mas da legitimidade de nosso desejo de que nossos ideais alcancem eles
mesmos uma legitimidade apenas perceptível pelo modo com que as outras pessoas,
desde as mais próximas a nós até o âmbito planetário, estão dispostas a
investir afetivamente nela. Isso significa que o verdadeiro em política está
íntima e profundamente mesclado aos fins que queremos perseguir, aos meios que
queremos empregar, ao preço que estamos dispostos a pagar (tanto em termos
materiais quanto humanos) e uma infinidade de outros elementos que não permitem
de forma alguma uma cisão clara entre validade descritivo-objetiva e
legitimidade de nossos investimentos afetivos. Tudo isso se complica em muito
pelo fato de que descrições objetivas de mundo, verdadeiras no registro
factual, não apenas podem servir como um ótimo suporte para induzir concepções
tendenciosas de mundo, mentiras e ilusões (para o que dei um exemplo na
postagem da semana passada), como também podem consistir em uma duplicação, no
âmbito do pensamento, da sedimentação de relações de poder na realidade
constituída socialmente. Esta última ideia, lançada e desenvolvida longamente
pelos autores da escola de Frankfurt, nos mostra que não somente o pensamento é
falso, mas a própria realidade.
A imbricação de nosso investimento afetivo com o teor
objetivo de nossas descrições da realidade também nos leva a perceber o quanto
precisamos muitas vezes convencer a nós mesmos da validade de nossos
posicionamentos políticos através do ganho da adesão alheia. Não é difícil
perceber que, diante do envolvimento de nosso arbítrio no recorte e nas
abstrações necessárias do real para podermos pensá-lo, a cada momento
necessitamos recalcar a verdade de que pensamos do modo como o fazemos em
virtude do fato de que assim queremos. Tal como disse Nietzsche, toda percepção
de mundo é mentirosa, por sempre termos que prestar atenção a uma quantidade
finita, e na verdade bastante reduzida, de seus elementos constituintes: não
somente nosso pensamento, mas o próprio ato perceptivo, opera por abstração.
Considerando a complexidade astronômica do universo político, nossas opiniões
são constantemente assombradas pela percepção difusa de má consciência.
(Esta última se caracteriza pelo posicionamento hesitante, sem base firme,
sobre si mesmo, em meio a uma pressão do sentimento de culpa.) Nesse sentido, a
discordância alheia se torna especialmente irritante, não apenas por demonstrar
um desejo diferente do meu, mas por corroer sua certeza — muitas vezes precária
—, sendo que ele é uma base altamente instável para uma verdade que se pretende
objetiva sobre o espaço e os bens públicos.
Outro aspecto bastante instrutivo é o quanto não apenas a
realidade é construída por nosso discurso, mas o nosso próprio opositor. Em
diversos momentos, parece-me claro que o consenso não é apenas difícil: ele é
evitado inconscientemente de modo a constituir o outro como inimigo e a
discussão como campo de batalha. A continuidade desse estado de coisas confere
ao debate uma carga apologética de nossa disposição de sair da passividade
política, de nossa inércia resignada em relação ao curso do mundo. Nesse
momento, a animosidade e a disposição para discutir de forma ferrenha substituem
não apenas a sobriedade necessária para uma discussão objetiva, mas também
nosso próprio compromisso com ações concretas relativas ao real político em
sentido mais prático-concreto. O caráter interminável da discussão adquire
aquela característica de um infinito ruim, tal como concebido por Hegel,
pelo fato de se perder em ramificações que não convergem para a percepção de
seu sentido como totalidade. A multiplicidade e vivacidade dos aspectos
considerados, em vez de contribuírem de forma decisiva para o progresso das
concepções de mundo, alimentam uma mobilidade estática, em que todos os atores
se debatem indefinidamente, com pouco ou nenhum reforço mútuo.
Diante das várias fontes de incerteza na verdade política, é
necessário, no âmbito das discussões sobre esses temas, reconhecer a implicação
vertiginosa da incerteza dos desejos, tanto nossos quanto alheios, no que
consideramos a objetividade do espaço público. Sem isso, sempre vamos despender
em um ideal de verdade uma energia afetiva grande demais, que pode ser gasta de
forma bastante mais produtiva na construção de nosso espaço em comum.
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