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sábado, 14 de dezembro de 2013

A favor da escola


O resultado do exame Pisa, que avalia o desempenho escolar de alunos de quinze anos em todo mundo, especialmente relativo à habilidade com a matemática, demonstrou, mais uma vez, que os países da América Latina apresentam um resultado péssimo. O Brasil, apesar de uma ligeira melhora, ainda ocupa um dos últimos lugares na classificação geral. Não sei como os pais conversam com seus filhos sobre a importância e o significado da trajetória escolar na Coreia, Japão e outros países que sempre ocupam os primeiros lugares, mas eu tenho a nítida impressão que essa “conversa” deve ser bem melhor do que no Brasil. Parece-me que entre nós os pais têm muito pouca disposição para dialogar seriamente com seus filhos sobre isso. No âmbito escolar, isso não me parece diferente: quantas escolas de ensino fundamental se dedicam, de fato, a refletir com seus alunos de forma consistente sobre a razão de ser de eles estarem... na escola?

Um dos grandes problemas da educação em geral me parece que os pais e os professores tendem a achar que, se eles se esforçaram “por conta própria” e puderam se sair bem com o sistema e método de ensino em vigor, então não é necessário nenhuma intervenção específica para que os filhos trilhem o mesmo caminho. “Se tudo isso deu certo comigo, porque não dará com meus alunos e/ou filhos?”. Ocorre que a habilidade de superar condições pedagógicas e familiares ruins para o estudo não pode ser, sem mais, projetada nas novas gerações. Eu diria que bons profissionais se formaram apesar de tais condições, ao passo que é imprescindível ter em mente que grande quantidade de alunos e somente terá uma boa carreira em função de, por causa de, contando com, métodos e condições otimizadas. Pelo fato de os pais, já adultos, tomarem como óbvio que a formação escolar é importante, e de certa forma negligenciarem o que eles mesmos pensaram quando criança, tomam como quase natural que seus filhos adquiram essa compreensão por conta própria.

Dentre as inúmeras variáveis que estão em jogo, gostaria de enfatizar o quanto é necessário que os pais e professores conversem longamente com as crianças e adolescentes sobre o significado pessoal, econômico, cultural, de inserção societária, de concepção de mundo etc. que a carreira escolar contempla e favorece. Desde os primeiros anos de frequentação à escola é na verdade imprescindível que as crianças tenham uma orientação muito clara do quanto a formação escolar tem valor em diversos planos — não apenas em virtude da possibilidade real de ganho financeiro, embora isso seja também muito importante e sirva, obviamente, como argumento para a família e a escola. É necessário haver longos diálogos sobre o que significa formar a capacidade de pensar cientificamente, de construir um raciocínio rigoroso, de saber escrever bem como meio para articular boas ideias sobre si e sobre a realidade, do conhecimento multifacetado para ter uma boa visão de mundo etc. Durante todo o ensino fundamental, deveríamos conversar com os alunos sobre a importância do conteúdo de todas as matérias em cada começo de ano. Sem um processo de esclarecimento como esse, não causa nenhuma estranheza que muitos alunos encarem a escola quase como uma tortura, como a uma espécie de prisão momentânea, uma atividade chata, penosa e quase sem sentido.

Embora a atenção das crianças e dos jovens seja disputada pela Internet, televisão e jogos eletrônicos, essa batalha tende a ser perdida muito mais facilmente se deixarmos por conta das próprias crianças o juízo sobre o que torna a formação escolar valiosa em seu sentido mais próprio, sem que entre em disputa com estes outros momentos de distração e consumo cultural. A tendência de haver esta mescla de avaliações na mente das crianças, em que as disposições para estudar e jogar/distrair causam interferência recíproca, ocorre em grande medida pelo fato de a criança não ser instruída o suficiente na distinção qualitativa entre o prazer da formação cultural, profissional e científica, por um lado, e do consumo, da distração e da atividade passiva diante dos meios de comunicação em massa, por outro. Embora seja sempre impróprio comparar um determinado aspecto da realidade nos países desenvolvidos e no terceiro mundo, em virtude das gritantes diferenças das condições gerais de vida, é preciso ver que tanto nos EUA e na Europa as crianças e adolescentes estão tanto ou mais expostas à influência da Internet e do consumo cultural. Essa disputa de atenção e de via de formação da mentalidade, embora seja um tópico relevante, não pode ser tomada como um dado que explica tudo suficientemente.

Em suma, necessitamos dirigir às crianças uma “propaganda” por assim dizer filosoficamente fundamentada sobre o quanto e como a atividade e esforço na formação escolar estão suficientemente justificados por serem um meio imprescindível de construção de si como pessoa, cidadão, profissional, como ser pensante, criativo e criador de valores de diversas ordens. Penso que, quanto mais isso for realizado de forma competente, mais tenderá a haver disposição afetiva autônoma por parte das crianças e adolescentes em considerar seu esforço de aprendizado nos bancos das escolas como tendo razão de ser, sentido e legitimação, o que aumenta em muito a chance de eles terem mais prazer e satisfação com o estudo.

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Um comentário:

Renato Hemesath disse...

Este tema é super pertinente. Parece que se vive uma apatia generalizada, como se não fizesse diferença diferença a famílias, alunos e professores a aquisição de um conhecimento específico. Parece que as pessoas sentem-se indiferentes quanto ao porque de se aprender algo.

Obrigado pela visita ao Cine Freud. Welcome!