O resultado do exame Pisa, que avalia o desempenho escolar
de alunos de quinze anos em todo mundo, especialmente relativo à habilidade com
a matemática, demonstrou, mais uma vez, que os países da América Latina
apresentam um resultado péssimo. O Brasil, apesar de uma ligeira melhora, ainda
ocupa um dos últimos lugares na classificação geral. Não sei como os pais
conversam com seus filhos sobre a
importância e o significado da trajetória escolar na Coreia, Japão e outros
países que sempre ocupam os primeiros lugares, mas eu tenho a nítida impressão
que essa “conversa” deve ser bem melhor do que no Brasil. Parece-me que entre
nós os pais têm muito pouca disposição para dialogar seriamente com seus filhos
sobre isso. No âmbito escolar, isso não me parece diferente: quantas escolas de
ensino fundamental se dedicam, de fato, a refletir com seus alunos de forma
consistente sobre a razão de ser de eles estarem... na escola?
Um dos grandes problemas da educação em geral me parece que
os pais e os professores tendem a achar que, se eles se esforçaram “por
conta própria” e puderam se sair bem com o sistema e método de ensino em vigor,
então não é necessário nenhuma intervenção específica para que os filhos
trilhem o mesmo caminho. “Se tudo isso deu certo comigo, porque não dará com
meus alunos e/ou filhos?”. Ocorre que a habilidade de superar condições
pedagógicas e familiares ruins para o estudo não pode ser, sem mais, projetada
nas novas gerações. Eu diria que bons profissionais se formaram apesar de
tais condições, ao passo que é imprescindível ter em mente que grande
quantidade de alunos e somente terá uma boa carreira em função de, por
causa de, contando com, métodos e condições otimizadas. Pelo fato de
os pais, já adultos, tomarem como óbvio que a formação escolar é importante, e
de certa forma negligenciarem o que eles mesmos pensaram quando criança, tomam
como quase natural que seus filhos adquiram essa compreensão por conta própria.
Dentre as inúmeras variáveis que estão em jogo, gostaria de
enfatizar o quanto é necessário que os pais e professores conversem longamente
com as crianças e adolescentes sobre o significado pessoal, econômico,
cultural, de inserção societária, de concepção de mundo etc. que a carreira
escolar contempla e favorece. Desde os primeiros anos de frequentação à escola
é na verdade imprescindível que as crianças tenham uma orientação muito clara
do quanto a formação escolar tem valor em diversos planos — não apenas em
virtude da possibilidade real de ganho financeiro, embora isso seja também
muito importante e sirva, obviamente, como argumento para a família e a escola.
É necessário haver longos diálogos sobre o que significa formar a capacidade de
pensar cientificamente, de construir um raciocínio rigoroso, de saber escrever
bem como meio para articular boas ideias sobre si e sobre a realidade, do
conhecimento multifacetado para ter uma boa visão de mundo etc. Durante todo o
ensino fundamental, deveríamos conversar com os alunos sobre a importância do
conteúdo de todas as matérias em cada começo de ano. Sem um processo de
esclarecimento como esse, não causa nenhuma estranheza que muitos alunos
encarem a escola quase como uma tortura, como a uma espécie de prisão
momentânea, uma atividade chata, penosa e quase sem sentido.
Embora a atenção das crianças e dos jovens seja disputada
pela Internet, televisão e jogos eletrônicos, essa batalha tende a ser perdida
muito mais facilmente se deixarmos por conta das próprias crianças o juízo
sobre o que torna a formação escolar valiosa em seu sentido mais próprio,
sem que entre em disputa com estes outros momentos de distração e consumo
cultural. A tendência de haver esta mescla de avaliações na mente das crianças,
em que as disposições para estudar e jogar/distrair causam interferência recíproca,
ocorre em grande medida pelo fato de a criança não ser instruída o suficiente
na distinção qualitativa entre o prazer da formação cultural,
profissional e científica, por um lado, e do consumo, da distração e da
atividade passiva diante dos meios de comunicação em massa, por outro. Embora
seja sempre impróprio comparar um determinado aspecto da realidade nos países
desenvolvidos e no terceiro mundo, em virtude das gritantes diferenças das
condições gerais de vida, é preciso ver que tanto nos EUA e na Europa as
crianças e adolescentes estão tanto ou mais expostas à influência da Internet e
do consumo cultural. Essa disputa de atenção e de via de formação da
mentalidade, embora seja um tópico relevante, não pode ser tomada como um dado
que explica tudo suficientemente.
Em suma, necessitamos dirigir às crianças uma “propaganda”
por assim dizer filosoficamente fundamentada sobre o quanto e como a atividade
e esforço na formação escolar estão suficientemente justificados por serem um
meio imprescindível de construção de si como pessoa, cidadão, profissional,
como ser pensante, criativo e criador de valores de diversas ordens. Penso que,
quanto mais isso for realizado de forma competente, mais tenderá a haver disposição
afetiva autônoma por parte das crianças e adolescentes em considerar seu
esforço de aprendizado nos bancos das escolas como tendo razão de ser, sentido
e legitimação, o que aumenta em muito a chance de eles terem mais prazer e
satisfação com o estudo.
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Um comentário:
Este tema é super pertinente. Parece que se vive uma apatia generalizada, como se não fizesse diferença diferença a famílias, alunos e professores a aquisição de um conhecimento específico. Parece que as pessoas sentem-se indiferentes quanto ao porque de se aprender algo.
Obrigado pela visita ao Cine Freud. Welcome!
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