Vários são os motivos que levam uma pessoa a procurar um
tratamento psicanalítico: desde distúrbios em atividades cotidianas, como a
dificuldade de dormir, passando por problemas emocionais difusos, até
questionamentos de vida em sentido bastante amplo. Algo que atravessa todos
esses planos de motivação é a demanda de ser livre. Por mais que não nos
vejamos tolhidos por circunstâncias externas, ou as consideremos necessárias e
racionalmente justificadas (como o fato de termos que respeitar o silêncio em
um ambiente como um condomínio de apartamentos, por exemplo), em vários
momentos tomamos a nós mesmos como não-livres em um sentido mais íntimo/interno
— e é a este que se volta a psicanálise. Haveria uma décalage (descompasso,
deslocamento, hiato) entre os limites socialmente impostos e nossa capacidade
íntima/interna de escolher os princípios que pautam nossas ações. Nesse
momento, dizer que interiorizamos profundamente valores e normas sociais a
ponto de nos identificarmos radicalmente com eles e de, assim, não conseguirmos
suficiente distanciamento, é correto, mas a questão psicanalítica propriamente
dita é: por que nossa reflexão consciente é tão fraca a ponto de não romper
essa interiorização dos valores sociais?
Um dos princípios basilares da teoria freudiana é que todas
as nossas representações de mundo, desde as mais concretas como a percepção
sensível atual até as ideias mais abstratas, somente possuem existência em
nosso psiquismo devido ao fato de que são sustentadas e movidas por um
investimento afetivo, por uma energia psíquica. Todo desejo se refere, em
última instância, à colocação em cena do sujeito e outros personagens em
fantasias inconscientes, que conferem sentido mais fundamental para os desejos
percebidos conscientemente. O desejo de ter um carro, por exemplo, não é
explicado apenas por querermos satisfazer a necessidade de melhor e mais rápida
locomoção, mas também pelo vínculo com a imagem e a fantasia de ter um segundo
corpo, uma duplicação de nós mesmos, à qual se associa também certa extensão
fálica, como se representasse um segundo pênis para os homens e a posse de um
para as mulheres; ele pode representar, também, a imagem da casa e do
acolhimento materno, que se vincula à percepção de aconchego e de completude.
Todas essas associações (inconscientes) estão carregadas de afetos, de
estimulação sensorial/sensual/sexual em sentido mais próximo ou distante, e
variam infinitamente de pessoa para pessoa. O que é significativo, em termos
gerais, é essa vinculação estrutural e estruturante entre
imagens/cenas/fantasias e afetos/estimulação/excitação. Além disso, nossa memória
está impulsionada e influenciada por todas essas cargas de afeto que se
ligam às diversas representações, de modo que as lembranças são mantidas ou
recalcadas em virtude de questões afetivas, e não apenas por uma suposta
capacidade inata de memorização.
Ainda segundo Freud — e esse é o ponto de que nos servimos
em nossa argumentação —, quanto mais retrocedemos na história de vida de uma
pessoa, mais constatamos que a associação entre as representações (imagens,
cenas, fantasias, ideias) e seus investimentos afetivos obedeceu a uma lógica
diferente, não totalmente compatível com as formas de associação posteriores.
Isso é especialmente válido no que concerne à primeira infância, aos primeiros
anos de vida, em que os nexos entre representações e afetos se estabeleceram
segundo uma lógica e uma dinâmica substancialmente diferentes de todas as que
se seguiram.
Em sua tentativa de elucidar o funcionamento do psiquismo,
Freud usou várias metáforas, e uma delas foi a da arqueologia. A psique
estaria constituída por vários estratos, como se fossem camadas geológicas
sobrepostas umas às outras, de tal forma que as mais antigas são as mais
profundas. A analogia não é perfeita, em virtude do fato de que no caso da
subjetividade não se trata de um material inerte, estacionário, mas sim com
graus e formas de mobilidade, pois elementos vivenciais arcaicos produzem
efeitos nas camadas superficiais, como é o caso dos sonhos e dos sintomas
neuróticos. Nesse momento, é instrutiva uma outra comparação de Freud com os
denominados fueros dos espanhóis, que são aqueles costumes arcaicos, já
superados por leis posteriores, mas que ainda são obedecidos em diversas regiões
do país, ocorrendo assim uma espécie de conflito entre duas “leis”: a jurídica
e a antiga, dos costumes, e nem sempre é fácil estabelecer qual delas deve
valer.
Aplicando tal concepção a uma incapacidade de falar em
público, por exemplo, dizemos que a exigência de lidar com a demanda de uma
grande quantidade de pessoas deve ser compreendida a partir de uma lógica
arcaica de investimento afetivo de determinadas representações, a qual é
descompassada, deslocada, incompatível com a percepção consciente atual. A
inibição, nesse caso, adquire sua força e poder coercitivo impressionantes
devido, entre outras várias coisas, ao fato de que não somos apenas modelados e
condicionados profundamente, mas segundo uma mobilidade de afetos que precisa
ser (re)traduzida como se estivesse escrita numa outra linguagem, em outro
código, de modo que sentimos seus efeitos, mas não conseguimos decifrar os
princípios de conexão entre todas as representações.
Por mais que a auto-reflexão seja sempre útil e necessária,
ela esbarra em um limite por assim dizer estrutural: ela é sempre feita a
partir da lógica de articulação entre nossos afetos e nossas representações
mais recente. Em virtude disso, sempre será necessário haver uma outra pessoa
capaz de fornecer esta passagem retradutiva para códigos de articulação
entre afetos e representações aos quais ainda obedecemos, mas de forma
inconsciente. Muito do trabalho do analista consistirá em dar relevo a diversos
elementos vivenciais que permitam reenviar nossa articulação consciente de
mundo atual a outras, mais antigas, profundas, cujo desconhecimento é em grande
medida a raiz da falta de liberdade com nossos valores atualmente percebidos.
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