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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Arqueologia e liberdade


Vários são os motivos que levam uma pessoa a procurar um tratamento psicanalítico: desde distúrbios em atividades cotidianas, como a dificuldade de dormir, passando por problemas emocionais difusos, até questionamentos de vida em sentido bastante amplo. Algo que atravessa todos esses planos de motivação é a demanda de ser livre. Por mais que não nos vejamos tolhidos por circunstâncias externas, ou as consideremos necessárias e racionalmente justificadas (como o fato de termos que respeitar o silêncio em um ambiente como um condomínio de apartamentos, por exemplo), em vários momentos tomamos a nós mesmos como não-livres em um sentido mais íntimo/interno — e é a este que se volta a psicanálise. Haveria uma décalage (descompasso, deslocamento, hiato) entre os limites socialmente impostos e nossa capacidade íntima/interna de escolher os princípios que pautam nossas ações. Nesse momento, dizer que interiorizamos profundamente valores e normas sociais a ponto de nos identificarmos radicalmente com eles e de, assim, não conseguirmos suficiente distanciamento, é correto, mas a questão psicanalítica propriamente dita é: por que nossa reflexão consciente é tão fraca a ponto de não romper essa interiorização dos valores sociais?

Um dos princípios basilares da teoria freudiana é que todas as nossas representações de mundo, desde as mais concretas como a percepção sensível atual até as ideias mais abstratas, somente possuem existência em nosso psiquismo devido ao fato de que são sustentadas e movidas por um investimento afetivo, por uma energia psíquica. Todo desejo se refere, em última instância, à colocação em cena do sujeito e outros personagens em fantasias inconscientes, que conferem sentido mais fundamental para os desejos percebidos conscientemente. O desejo de ter um carro, por exemplo, não é explicado apenas por querermos satisfazer a necessidade de melhor e mais rápida locomoção, mas também pelo vínculo com a imagem e a fantasia de ter um segundo corpo, uma duplicação de nós mesmos, à qual se associa também certa extensão fálica, como se representasse um segundo pênis para os homens e a posse de um para as mulheres; ele pode representar, também, a imagem da casa e do acolhimento materno, que se vincula à percepção de aconchego e de completude. Todas essas associações (inconscientes) estão carregadas de afetos, de estimulação sensorial/sensual/sexual em sentido mais próximo ou distante, e variam infinitamente de pessoa para pessoa. O que é significativo, em termos gerais, é essa vinculação estrutural e estruturante entre imagens/cenas/fantasias e afetos/estimulação/excitação. Além disso, nossa memória está impulsionada e influenciada por todas essas cargas de afeto que se ligam às diversas representações, de modo que as lembranças são mantidas ou recalcadas em virtude de questões afetivas, e não apenas por uma suposta capacidade inata de memorização.

Ainda segundo Freud — e esse é o ponto de que nos servimos em nossa argumentação —, quanto mais retrocedemos na história de vida de uma pessoa, mais constatamos que a associação entre as representações (imagens, cenas, fantasias, ideias) e seus investimentos afetivos obedeceu a uma lógica diferente, não totalmente compatível com as formas de associação posteriores. Isso é especialmente válido no que concerne à primeira infância, aos primeiros anos de vida, em que os nexos entre representações e afetos se estabeleceram segundo uma lógica e uma dinâmica substancialmente diferentes de todas as que se seguiram.

Em sua tentativa de elucidar o funcionamento do psiquismo, Freud usou várias metáforas, e uma delas foi a da arqueologia. A psique estaria constituída por vários estratos, como se fossem camadas geológicas sobrepostas umas às outras, de tal forma que as mais antigas são as mais profundas. A analogia não é perfeita, em virtude do fato de que no caso da subjetividade não se trata de um material inerte, estacionário, mas sim com graus e formas de mobilidade, pois elementos vivenciais arcaicos produzem efeitos nas camadas superficiais, como é o caso dos sonhos e dos sintomas neuróticos. Nesse momento, é instrutiva uma outra comparação de Freud com os denominados fueros dos espanhóis, que são aqueles costumes arcaicos, já superados por leis posteriores, mas que ainda são obedecidos em diversas regiões do país, ocorrendo assim uma espécie de conflito entre duas “leis”: a jurídica e a antiga, dos costumes, e nem sempre é fácil estabelecer qual delas deve valer.

Aplicando tal concepção a uma incapacidade de falar em público, por exemplo, dizemos que a exigência de lidar com a demanda de uma grande quantidade de pessoas deve ser compreendida a partir de uma lógica arcaica de investimento afetivo de determinadas representações, a qual é descompassada, deslocada, incompatível com a percepção consciente atual. A inibição, nesse caso, adquire sua força e poder coercitivo impressionantes devido, entre outras várias coisas, ao fato de que não somos apenas modelados e condicionados profundamente, mas segundo uma mobilidade de afetos que precisa ser (re)traduzida como se estivesse escrita numa outra linguagem, em outro código, de modo que sentimos seus efeitos, mas não conseguimos decifrar os princípios de conexão entre todas as representações.

Por mais que a auto-reflexão seja sempre útil e necessária, ela esbarra em um limite por assim dizer estrutural: ela é sempre feita a partir da lógica de articulação entre nossos afetos e nossas representações mais recente. Em virtude disso, sempre será necessário haver uma outra pessoa capaz de fornecer esta passagem retradutiva para códigos de articulação entre afetos e representações aos quais ainda obedecemos, mas de forma inconsciente. Muito do trabalho do analista consistirá em dar relevo a diversos elementos vivenciais que permitam reenviar nossa articulação consciente de mundo atual a outras, mais antigas, profundas, cujo desconhecimento é em grande medida a raiz da falta de liberdade com nossos valores atualmente percebidos.

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