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sábado, 21 de dezembro de 2013

Futebol e violência


No dia 8 de dezembro de 2013, houve mais uma violenta briga entre torcidas em um estádio de futebol no Brasil, desta vez durante o jogo entre Atlético/PR e Vasco, com cenas de barbárie e selvageria impressionantes, em que vários torcedores foram agredidos brutalmente, recebendo socos e pontapés na cabeça quando já estavam inconscientes, sofrendo agressões com canos e paus sem poder oferecer nenhuma resistência. Embora a violência nos estádios no Brasil seja relativamente usual, a brutalidade deste caso inspira uma análise mais longa.

A pergunta mais geral a ser considerada é: em que medida a instituição futebol se liga de forma interna a manifestações de violência tal como vemos praticada por torcedores dentro e fora dos campos? (Aqui vamos abstrair metodologicamente da violência entre os jogadores.) Por mais que possa soar surpreendente para a maioria de nós, incluindo a mim, algumas pessoas disseram, ao comentar o episódio, que o futebol não tem nada a ver (sic) com essa selvageria que presenciamos regularmente nos estádios.

Uma das explicações deste posicionamento emprega a constatação de que existe violência acontecendo nesse exato instante em todas as partes do Brasil, com dezenas de assassinatos todos os dias, centenas de estupros, milhares de assaltos etc. A pancadaria nos estádios seria apenas mais uma forma de violência, devendo ser reprimida, tal como todas as outras, em seu campo de atuação próprio: mecanismos de controle de quem pertence a torcidas organizadas (pois, por mais que elas se envolvam em atos de violência, não deveriam ser proibidas completamente, segundo tal perspectiva), colocação de contingente policial significativo para inibir as agressões, reforço nas divisórias entre as torcidas etc.

Outra explicação se apoia no argumento de que, considerando que a quase totalidade dos atos de violência são praticados por homens, o problema está em uma concepção radicalmente equivocada de masculinidade, que a associa à afirmação violenta de si através da agressão ao outro. Dado que, como é evidente, existem machões carentes de auto-afirmação violenta em toda parte: bares, churrascos, bailes funk, trânsito, ou onde quer que haja uma aglomeração de “machos”, logo a explosão de violência nos estádios é, mais uma vez, apenas um dos palcos de manifestação deste machismo hétero- e auto-destrutivo.

Embora essas duas vertentes se apoiem em considerações factuais verdadeiras (generalidade da ocorrência de violência e concepção deturpada de masculinidade), equivocam-se por desconsiderar a especificidade com que a instituição futebol, em vários de seus agentes e palcos de atuação, somente tem sua força devido a uma forma sui generis de absorver, canalizar e fornecer as vias de escoamento para uma energia volitiva individual e coletiva. Cada uma das instituições culturais em uma civilização produz uma oferta de satisfação e cobra um preço de seus adeptos que deve ser considerada em uma dinâmica própria, que a distingue, quando lida em um patamar de análise, de todas as outras. Publicações semanais para meninas adolescentes têm uma lógica simbólica e cultural radicalmente diferente de uma luta de boxe, que se diferencia da prática da ciência, que por sua vez é bastante distinta do que oferece a indústria pornográfica etc. Nesse sentido, não é pelo fato de haver vários focos de violência que todas eles ocorram segundo uma mesma lógica de incitação, favorecimento e incapacidade repressiva. Por outro lado, é inegável que as agressões nos estádios se ligam intimamente a uma masculinidade completamente enviesada, tosca e totalmente não-crítica, mas esse mesmo machismo pode se dar de diversas formas e em diversos contextos. Mais uma vez, é necessário investigar a dinâmica simbólica de drenagem deste machismo nessa realidade cultural determinada. — No que se segue, procurarei fornecer uma concepção geral do que vejo como significativo na instituição futebol como ligada intimamente à forma específica de violência tal como vemos ocorrer nos estádios.

Tradicionalmente, considera-se nos estudos de antropologia cultural que o esporte competitivo consiste em uma derivação simbólica do desejo de agressão e de morte do outro. Em lugar da satisfação literal de agredir e matar, tem-se o prazer mais abstrato (alguns diriam “sublimado”) de vencer o adversário nos limites das regras impostas pelo jogo. Esse deslocamento figurado da agressividade fomenta múltiplas elaborações simbólicas e culturais, que tendem a assumir direções opostas à de seu ímpeto inicial, propiciando o espaço de celebração do evento competitivo como espetáculo para todos. Nesse momento, o plano abstrato de obediência às regras arbitrárias do jogo serve como suporte de um gozo estético, uma vez que talento, habilidade, perseverança e disciplina podem se exprimir na beleza, elegância e vivacidade dos lances e jogadas. A própria disposição de se manter dentro das regras adquire um valor simbólico-ético celebrado como o espírito esportivo, em que cada pessoa se regozija com a percepção sublime de si como não movida diretamente pelo desejo de agressão.

(Essa perspectiva — é preciso deixar claro — não inclui condenação moral ao se dizer que o esporte competitivo proporciona um gozo com a morte simbólica do outro. Na verdade, trata-se de uma troca de valores afetivos através dessa moeda comum do jogo como espaço de participação franqueada a todos que se dispõem a ele.)

Os esportes coletivos, como o futebol, agregam uma característica especial a todo esse cenário, pois, tal como nos diz Johan Huizinga em seu famoso livro Homo ludens, eles derivam do espírito da guerra. Trata-se de uma característica muito relevante. Tudo o que dissemos da drenagem simbólica da agressividade adquire uma nova feição, ligada à psicologia das multidões, segundo as formulações semifinais do teórico francês Gustave Le Bon, estudadas, entre outros, por Sigmund Freud. O sugestionamento e reforço recíproco para atitudes passionais e extremas, a diminuição da força do senso crítico para estabelecer mediações racionais, o abandono de valores e posturas individuais em prol do gozo de se mesclar às decisões coletivas (por mais estapafúrdias que sejam), a infantilização generalizada dos pontos de vista — tudo isso e várias outras características demonstram com especial clareza que podemos falar, junto com aqueles autores, da diferença de uma psicologia de grupo em contraste com a individual.

Considerando a dinâmica vertiginosa de massificação do esporte tal como presenciamos desde meados do século XX, o adensamento simbólico da coletividade na disputa de um jogo de futebol, ele mesmo coletivo, assistido por uma multidão, tanto dentro quanto fora dos estádios, ganha contornos dramáticos. Todo esse estado de coisas absorve e canaliza um desejo de consistência simbólica que, nas formas de vida preponderantes nas sociedades europeias e das Américas, mostra-se cronicamente frustrado devido à fraqueza atual de instâncias representativas outrora robustas, como as grandes religiões. Se aliarmos a isso as desilusões concretas da vida econômica e da representatividade política, temos um complexo psíquico altamente explosivo.

Intimamente associados a essa convergência de massa no movimento de coletivização do esporte como espetáculo, temos os traços muito claros de atitudes semi-, pseudo- ou proto-religiosas. A idolatria dos clubes de futebol e de seus jogadores não é de forma alguma apenas uma figura de linguagem dos estudos antropológicos para exprimir a dimensão pseudo-religiosa destes fenômenos. O fanatismo dos torcedores, com sua devoção ritualística a tudo que ocorre com seus times, dispendendo grandes recursos para ver pessoalmente os jogos a centenas de quilômetros de casa, muitas vezes pagando seu “dízimo” mensalmente aos clubes, celebrando em êxtase a vitória em um campeonato como se significasse uma espécie de salvação, ou lamentando o rebaixamento para divisões inferiores como se fosse uma profunda desonra (ou se regozijando lauta e fartamente quando isso se dá com o adversário) — tudo isso demonstra a impregnação do esporte com o espírito da ritualística religiosa. Pode-se falar até mesmo de raízes mais arcaicas, como o totemismo, em que os clãs se definiam por serem descendentes de um totem, normalmente um animal. “Ser” um touro, um peixe, um porco significava partilhar de um sangue comum, de um lastro intra-natural para os vínculos tribais. Que as torcidas gostem de se denominar através de animais que simbolizam seus clubes pode parecer algo inócuo, mas de um ponto de vista antropológico não o é.

Em termos gerais, esta dimensão proto-religiosa do esporte nos mostra que a mesma energia psíquica que move à idolatria e submissão aos ícones é descarregada com fúria contra todos aqueles que idolatram outros “deuses”. Tal como Freud sublinhou, toda religião é uma religião do amor para aqueles que estão nela, e é potencialmente uma religião de ódio contra os que estão fora dela. O gozo de pertencer a uma mesma derivação totêmica é também satisfeito ao se marcar com violência todos os que não participam desta irmandade. Afirmar a força e realidade efetiva do próprio ídolo está intimamente associado a negar as mesmas coisas ao ídolo alheio. — Tudo isso, deve-se salientar, é considerado em termos de registro histórico macro da realidade da psicologia dos grupos e massas, pois é óbvio que nem todos os que participam de um grupo exercem violência contra o outro; a questão que nos move, no entanto, mais especificamente, é: por que a dinâmica de grupo do futebol como espetáculo de massa cataliza formas de violência des-simbolizada, crua, tal como ocorrem frequentemente dentro e fora dos estádios?

No que concerne à mutação simbólica da canalização cultural dos afetos, a condição do torcedor como espectador, como quem espera que tudo aconteça para então sentir alegria ou tristeza, é de crucial importância. Tal como disse Theodor Adorno, o esporte praticado tem um significado substancialmente distinto do apenas assistido, ou seja, como objeto de consumo. Segundo ele, a prática esportiva é progressista, pois fomenta a disposição para disciplina, o senso de trabalho em equipe, a percepção aguçada para aproveitamento de oportunidades, a melhora dos reflexos e do condicionamento físico etc. O esporte como espetáculo, por sua vez, tende a gerar preguiça, resignação aos fatos, animosidade, ressentimento e intrigas. De um ponto de vista psicanalítico (não empregado por Adorno nesse momento), vemos que o apenas-espectador está duplamente afastado do substrato afetivo que nutre o esporte, pois não atua concretamente para o alcance simbólico da vitória, participando dela de forma inerte, passiva, ou no máximo com seus gritos, danças ritualísticas, fogos e outras manifestações ruidosas. Não é difícil concluir que isso pode — e em termos de psicologia de grupo parece inevitável que ocorra em alguma (grande) medida — convergir na figuração (inconsciente) de si por parte do torcedor como submetido a uma castração simbólica, ao ter que tão-somente contemplar, resignado, o gozo real-simbólico do outro, ou lamentar, também de forma resignada (pois é necessário ter a suficiente elevação de espírito esportivo), a morte simbólica de seu avatar. Estamos diante da experiência continuada de um déficit simbólico que se dá por um exercício de manutenção à distância do que conta efetivamente como um mecanismo de drenagem cultural de determinado plano afetivo (esse mecanismo é a prática do esporte, o enfrentamento real do outro). Se isso se soma a uma insatisfação econômica e política grave como no Brasil (embora isto não seja necessário em vários outros países, como bem nos mostravam os violentos torcedores ingleses, felizmente hoje em dia neutralizados por uma boa política de contenção da violência), então causa alguma especial surpresa que a agressividade e o desejo de morte aflorem violentamente como um desejo imediato de violência?

Por fim, uma última questão: em virtude desta violência crua, deveríamos condenar a instituição futebol em sua totalidade? Para mim é evidente que não. Um contingente muito grande de pessoas não apenas gosta mas carece intimamente dessas formas de canalização simbólica de desejos agressivos, e, na medida em que isso se mantém neste patamar de abstração simbólica, não cabe um juízo definitivo contra. A grande questão reside em que o preço que estamos pagando para fornecer esta satisfação é socialmente alto, não apenas com essa explosões de violência bruta, quanto também pelo fanatismo dos torcedores, que gera o abastecimento milionário dos cofres dos clubes de futebol e das empresas de telecomunicação, e ainda pela manutenção de um clima de animosidade entre os torcedores onde quer que a realidade futebol se insira na vida cotidiana. É necessário implementar urgentemente estratégias de contenção da violência bruta, tanto dentro quanto fora dos estádios, mas o sucesso relativo dessa empreitada não nos dispensa de refletir de forma bastante crítica sobre a raiz simbólica dessa agressividade.


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