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sábado, 28 de dezembro de 2013

Miscelânea


“Amar” é um verbo muito adverbial; tem muitos modos, frequências, intensidades, tempos.

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Teia. Gravura digital. Verlaine Freitas 12/2013
Exemplo de auto-sabotagem: antecipar de forma ansiosa o que se gostaria que as coisas fossem, “punir” o presente por ainda ser o que ele é e acabar inviabilizando o que se gostaria de alcançar.

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Interessante como é fácil oscilar entre os extremos de resignar-se e querer corrigir o mundo. Em ambos os casos, falta a mediação laborativa do diálogo entre o que somos, o que desejamos e o que é possível construir na realidade.

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Quem se pré-dispõe de fato a aquiescer à demanda do outro tem mais liberdade e consistência para se recusar a fazê-lo, se assim o quiser.

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Eu me cansei de gente que diz que está cansada/o disso, daquilo e daquilo outro.

Importa pensar que a humanidade não fracassou, porque dor, desrespeito e violência haverá enquanto seres humanos pisarem no mundo, bem como vontade de mudar e disposição para aproveitar o que há de bom, que também haverá enquanto seres humanos pisarem nesse mesmo mundo.

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Na relação afetiva com o outro, são duas coisas diferentes: (1) pedir, solicitar e dizer o que queremos e o que não gostamos, e (2) cobrar essas mesmas coisas. Pode soar paradoxal, mas é possível pedir sem cobrar, e mesmo cobrar sem ter o significado de se pedir.

Dizer ao outro qual é nosso desejo, nosso gosto e nossa disposição tem o sentido de um convite, de uma abertura de mundo a ser participada como acréscimo de realidade. Trata-se de uma chave de compartilhamento de afetos, experiências e prazeres a ser trocada e ter sua força de abertura de mundos acrescida.

A cobrança, por sua vez, está sempre “atrasada”, contém um “quê” de punição, de rancor pelo outro se atrever a ser ele mesmo — independente de isso se dar de um jeito ruim ou bom, “verdadeiro” ou “falso” etc. —; bem como pode ser sempre hiper-precoce, antecipada por angústia/medo de as coisas saírem do trilho fixado por nossa insegurança sobre o desejo do outro.

No primeiro caso, muita coisa pode perfeitamente não ser pedida nem falada, pois o acordo mútuo baseia-se naquela cumplicidade de quem não tem medo do desejo do outro. No outro caso, tudo parece ser arrastado pela ação gravitacional da ansiedade, restando pouco espaço para o não-pedido, não-dito.

Em suma, quem não sabe da liberdade de pedir e dizer de si ao outro, estará sempre pronto a cobrar e punir — nisso consiste, na verdade, muito de seu gozo.

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Será que um dia riremos da seriedade carrancuda com que usamos a vida como apêndice de nossos valores? Falaremos de um modo mais prosaico e matreiro sobre a sublimidade inafiançável de nossos ideais? — Quisera eu pisar como um porco imundo sobre o sorriso sem hálito da voz da razão. Possa uma vírgula absurda, inserta na melodia emudecida de quem somente trabalha, clivar sua sobriedade anêmica. Quiçá laboremos um dia mais pela expressão contraditória de nosso gozo do que pelo enxerto cadavérico de sentido no cotidiano.

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Um dia Alfredo encontrou um caminho escondido entre suas dúvidas. Estava pardacento como uma camada desmanchada de lápis sobreposta por certezas que ele aprendeu na televisão, na missa e na escola. Furou o tecido do papel que sempre desempenhara na rotina de ser somente ele, e acabou vendo outro lado do saber, que somente tem sabor pelo fato de que aprendemos uma nova língua: a de gostar da atitude irreverente de reescrever a própria história.

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Poetas entraram em greve. Reivindicam mais facilidade para adquirir licença poética, mais liberdade semântica e igual coerência estética na leitura de cada verso plurissintático. Patrulhas ideológicas reprimem violentamente os grevistas; a atmosfera está irrespirável com as bombas de efeito moralizante. Vândalos e baderneiros ocupam todas as saídas do senso comum, reintroduzem a ordenação insípida de uma gramática já desgastada pela obviedade do cotidiano.

Em toda parte já se percebem os efeitos do movimento: até o pôr-do-sol tem sido hiper-prosaico, desde que um último verso havia saído da pena de um fura-greve, que resolvera declinar um verbo inaudito.

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Gente que sempre mede o que lhe acontece com a régua do que deveria ocorrer: será sempre um funcionário executor — e insatisfeito — de seu próprio idealismo.

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Existe um perigo na literatura, no cinema e na filosofia, incluindo as obras que são realmente boas: elas estimulam o desejo e o gosto de viver de forma “épica”, grandiosa e plena de significação quase que universal em vários momentos em que isso não deveria estar em jogo. Nesses instantes — que na verdade vivemos grande parte do tempo — o gostoso é a pequenez da gratuidade e do não-futuro, do não-saber-o-que-isso-significa, da irresponsabilidade de não ser adulto o suficiente para se medir com quem soube dizer de forma homérica sobre os profundos enigmas da existência. É preciso se habituar em ser menos do que imaginamos, para poder sentir o gosto do que a gente é, de fato.

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Alberto não mudava de humor; precisava desdobrar-se para ser não-de-novo, mas aprendeu com o tempo. — De como um tempo ensolarado para um de chuva que molha bobo, de como um tempo quente mesmo para quem não tem. Com o tempo aprendeu que tem estações quatro em cada dia; que é mentira que só no ano tem. Amanhece perdendo folha, ensolara de meio prumo, fresco vento sopra tarde e noite cai esfria orvalhando triste. — É tristeza não calada, silvos e silêncios poucos de mato gostam de rastejar na longa sombra de mundo, mas aquele olho, grande agoura no alto e morre cedo, vigiado foi o negrume de tudo — amém.


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