Os protestos que eclodiram em São Paulo em junho de 2013 e
se espalharam pelo Brasil constituíram um fato político muito relevante, em
virtude não apenas de sua força, quanto também do modo como destoaram de outros
movimentos precedentes. Os governadores e a presidência da república foram
levados a tomar posições políticas mais à esquerda, se não em suas atitudes
concretas, pelo menos em seu discurso. Uma vez terminada a copa das
confederações, os protestos refluíram, embora seu “espírito” possa ser invocado
para explicar outros movimentos populares, como é o caso dos assim chamados “rolezinhos”
nesse começo de 2014. Tal como já se pode prever por determinadas manifestações
em redes sociais, blogs e comentários em colunas jornalísticas, haverá uma nova
onda de protestos quando da realização da copa do mundo de futebol em junho
deste ano. O que significa essa reedição anunciada dos protestos? Serão estes
tão legítimos como manifestação popular quanto foram os de 2013? Podem ser
tomados como sua continuação e “reforço”?
“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e
personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim
dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a
segunda como farsa.” Estas são as duas primeiras frases do texto de Marx O
18 Brumário de Luís Bonaparte, que se tornaram célebres, sendo muito
citadas toda vez que se quer desmascarar criticamente a pretensão de
legitimidade de determinados projetos políticos, sociais, artísticos ou
religiosos, demonstrando serem eles na verdade reedições de outros sob uma nova
feição.
Na medida em que dois eventos ou personagens estão distantes
um do outro por pelo menos cinco décadas, como a revolução de 1848 e a de 1789
(tomadas como um dos exemplos por Marx), é possível verificar com um bom grau
de certeza se estamos diante de uma repetição decaída, um arremedo, uma
simulação, ou se temos algo essencialmente diferente, com novos princípios e
concepções de mundo. Se a distância temporal diminui demais, como um ano ou
menos, em princípio nos recusamos a considerar que se trate de uma repetição
falsificada, em virtude de que tendemos obviamente a tomar o segundo evento
como um desdobramento ou continuação do primeiro. — A pergunta é: como e em que
medida podemos aplicar este conceito crítico de Marx na relação entre os
protestos de junho de 2013 e os que se vislumbram no horizonte para junho de
2014? — ou não se justifica de forma alguma sua aplicação nesse caso?
Quando a assembleia constituinte de 1988 fixou o mandato de
José Sarney em cinco anos e os demais governos passaram a ter quatro anos de
duração, bastava um pouco de atenção para se constatar uma “coincidência” muito
interessante: todas as eleições para os governos estaduais e federal passaram a
ocorrer sempre em um ano de copa do mundo de futebol. Considerando que esse
evento esportivo se dá precisamente no auge dos debates eleitorais, e também
que a seleção brasileira de futebol tem sempre uma perspectiva de vitória ou de
uma boa campanha, esse paralelismo copa/eleição deve ter sido, se não
claramente planejado, pelo menos concebido como uma aposta para perpetuação dos
grupos políticos dominantes àquela época. Com a vitória de Lula em 2002, o que
pode ter sido uma boa estratégia de manutenção do poder virou-se contra os
grupos políticos até então vigentes.
Agora, devido a uma peripécia do destino, o “fator copa”
começou a se delinear claramente o exato oposto do favorecimento de
continuidade no poder. Embora os índices de popularidade dos governadores em
cujos estados houve protestos tenha baixado de forma expressiva, é inegável que
o mais afetado foi o governo federal. Considerando o enorme poder dos grandes
meios de comunicação de influenciar a leitura popular do que significam os
protestos, torna-se especialmente fácil estampar sempre com mais evidência, e
antes de quaisquer outros, o impacto da imagem do governo federal na opinião
pública. Em suma: a copa do mundo como símbolo de malversação do dinheiro
público está sendo meticulosamente construída como uma bomba-relógio a explodir
no colo do governo federal com vistas a enfraquecê-lo na disputa eleitoral.
Nesse sentido, os protestos já anunciados contêm, sim, um forte teor de farsa,
pois, segundo penso, serão patrocinados, de diversas formas, por forças
políticas substancialmente contrárias ao espírito das próprias manifestações.
Ora, perguntará um crítico desta perspectiva: “Não é
evidente que as mesmas condições econômico-políticas que deram origem aos
protestos de 2013 ainda vigoram? Se assim é, então como retirar legitimidade de
manifestações populares cujo objeto de reivindicação ainda persiste tal como
antes?”.
A resposta que proponho é a seguinte. No âmbito político há
diversos planos de verdade. O que é válido sob um aspecto pode ser utilizado
para fomentar uma perspectiva falsificada e que favoreça o exercício de
relações de poder injustas socialmente. Tal como exemplifiquei em uma outra
postagem, verdades no plano jurídico, por exemplo, podem servir como veículos
para dissimular metas e articulações políticas muito difíceis de serem
desmascaradas nos termos em que aparecem no debate público. Nesse sentido, o
que há de verdadeiro na dimensão mais de esquerda das forças populares que
querem se colocar como um ator político presta-se muito bem (em determinado
contexto) como aliado das forças de direita mais reacionárias, uma vez que tais
movimentos de protesto foram e serão marcados por uma pauta difusa de
reivindicações, sendo muito mais caracterizados como um enorme NÃO do que como via
de afirmar uma política específica para se alcançar isso que “todos nós
queremos”: melhor saúde, educação, transportes públicos etc. As manifestações,
mobilizadas como fogos de artifício preenchendo o céu da política com feixes
luminosos de “nãos”, podem ser vias para moldar a imagem das forças políticas
mais à direita como alternativa disponível para substituir as atuais no plano
federal. Naturalmente, não se trata de uma aposta isenta de seus possíveis
percalços, a começar pelo fato de que os governos estaduais também podem ser
afetados negativamente pelos protestos, mas, como disse acima, o âmbito
político federal parece muito mais facilmente prejudicável.
Mesmo que a política representativa, exercida cotidianamente
nos gabinetes, mostre-se degenerada e corroída em seu potencial de mudanças
substantivas, necessariamente continuará a ser o palco dos debates e o espaço
onde os diversos interesses sócio-econômicos deverão ser resolvidos. Não é
possível substituí-la por uma assembleia popular constantemente mobilizada,
mesmo porque as assembleias sempre serão, também elas, uma “representação” de
uma mentalidade mais difusa pelos milhões de outras pessoas que irão se recusar
a tomar parte nelas. Entre a pedrada, o coquetel molotov, o incêndio numa
concessionária de carro, o grito de guerra de um black bloc, por um
lado, e o poder infinito de coerção do capital financeiro, por outro, os
embates políticos entre representantes mais próximos dos movimentos populares e
aqueles ligados, por exemplo, às elites agrárias, mostram-se como uma “sintonia
fina” eternamente ajustada, desfeita e reajustada ao sabor das possibilidades
reais de progresso, encarando eternamente a possibilidade de regressão. Em um
momento especialmente delicado como a eleição para o governo federal, o que
pode estar no horizonte dos próximos meses é uma estratégia de interferência
bruta dessa sintonia fina através do aproveitamento ideológico do potencial
disruptivo dos movimentos de massa por parte de setores reacionários da política.
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