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sábado, 18 de janeiro de 2014

Revolução por encomenda


Os protestos que eclodiram em São Paulo em junho de 2013 e se espalharam pelo Brasil constituíram um fato político muito relevante, em virtude não apenas de sua força, quanto também do modo como destoaram de outros movimentos precedentes. Os governadores e a presidência da república foram levados a tomar posições políticas mais à esquerda, se não em suas atitudes concretas, pelo menos em seu discurso. Uma vez terminada a copa das confederações, os protestos refluíram, embora seu “espírito” possa ser invocado para explicar outros movimentos populares, como é o caso dos assim chamados “rolezinhos” nesse começo de 2014. Tal como já se pode prever por determinadas manifestações em redes sociais, blogs e comentários em colunas jornalísticas, haverá uma nova onda de protestos quando da realização da copa do mundo de futebol em junho deste ano. O que significa essa reedição anunciada dos protestos? Serão estes tão legítimos como manifestação popular quanto foram os de 2013? Podem ser tomados como sua continuação e “reforço”?

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.” Estas são as duas primeiras frases do texto de Marx O 18 Brumário de Luís Bonaparte, que se tornaram célebres, sendo muito citadas toda vez que se quer desmascarar criticamente a pretensão de legitimidade de determinados projetos políticos, sociais, artísticos ou religiosos, demonstrando serem eles na verdade reedições de outros sob uma nova feição.

Na medida em que dois eventos ou personagens estão distantes um do outro por pelo menos cinco décadas, como a revolução de 1848 e a de 1789 (tomadas como um dos exemplos por Marx), é possível verificar com um bom grau de certeza se estamos diante de uma repetição decaída, um arremedo, uma simulação, ou se temos algo essencialmente diferente, com novos princípios e concepções de mundo. Se a distância temporal diminui demais, como um ano ou menos, em princípio nos recusamos a considerar que se trate de uma repetição falsificada, em virtude de que tendemos obviamente a tomar o segundo evento como um desdobramento ou continuação do primeiro. — A pergunta é: como e em que medida podemos aplicar este conceito crítico de Marx na relação entre os protestos de junho de 2013 e os que se vislumbram no horizonte para junho de 2014? — ou não se justifica de forma alguma sua aplicação nesse caso?

Quando a assembleia constituinte de 1988 fixou o mandato de José Sarney em cinco anos e os demais governos passaram a ter quatro anos de duração, bastava um pouco de atenção para se constatar uma “coincidência” muito interessante: todas as eleições para os governos estaduais e federal passaram a ocorrer sempre em um ano de copa do mundo de futebol. Considerando que esse evento esportivo se dá precisamente no auge dos debates eleitorais, e também que a seleção brasileira de futebol tem sempre uma perspectiva de vitória ou de uma boa campanha, esse paralelismo copa/eleição deve ter sido, se não claramente planejado, pelo menos concebido como uma aposta para perpetuação dos grupos políticos dominantes àquela época. Com a vitória de Lula em 2002, o que pode ter sido uma boa estratégia de manutenção do poder virou-se contra os grupos políticos até então vigentes.

Agora, devido a uma peripécia do destino, o “fator copa” começou a se delinear claramente o exato oposto do favorecimento de continuidade no poder. Embora os índices de popularidade dos governadores em cujos estados houve protestos tenha baixado de forma expressiva, é inegável que o mais afetado foi o governo federal. Considerando o enorme poder dos grandes meios de comunicação de influenciar a leitura popular do que significam os protestos, torna-se especialmente fácil estampar sempre com mais evidência, e antes de quaisquer outros, o impacto da imagem do governo federal na opinião pública. Em suma: a copa do mundo como símbolo de malversação do dinheiro público está sendo meticulosamente construída como uma bomba-relógio a explodir no colo do governo federal com vistas a enfraquecê-lo na disputa eleitoral. Nesse sentido, os protestos já anunciados contêm, sim, um forte teor de farsa, pois, segundo penso, serão patrocinados, de diversas formas, por forças políticas substancialmente contrárias ao espírito das próprias manifestações.

Ora, perguntará um crítico desta perspectiva: “Não é evidente que as mesmas condições econômico-políticas que deram origem aos protestos de 2013 ainda vigoram? Se assim é, então como retirar legitimidade de manifestações populares cujo objeto de reivindicação ainda persiste tal como antes?”.

A resposta que proponho é a seguinte. No âmbito político há diversos planos de verdade. O que é válido sob um aspecto pode ser utilizado para fomentar uma perspectiva falsificada e que favoreça o exercício de relações de poder injustas socialmente. Tal como exemplifiquei em uma outra postagem, verdades no plano jurídico, por exemplo, podem servir como veículos para dissimular metas e articulações políticas muito difíceis de serem desmascaradas nos termos em que aparecem no debate público. Nesse sentido, o que há de verdadeiro na dimensão mais de esquerda das forças populares que querem se colocar como um ator político presta-se muito bem (em determinado contexto) como aliado das forças de direita mais reacionárias, uma vez que tais movimentos de protesto foram e serão marcados por uma pauta difusa de reivindicações, sendo muito mais caracterizados como um enorme NÃO do que como via de afirmar uma política específica para se alcançar isso que “todos nós queremos”: melhor saúde, educação, transportes públicos etc. As manifestações, mobilizadas como fogos de artifício preenchendo o céu da política com feixes luminosos de “nãos”, podem ser vias para moldar a imagem das forças políticas mais à direita como alternativa disponível para substituir as atuais no plano federal. Naturalmente, não se trata de uma aposta isenta de seus possíveis percalços, a começar pelo fato de que os governos estaduais também podem ser afetados negativamente pelos protestos, mas, como disse acima, o âmbito político federal parece muito mais facilmente prejudicável.

Mesmo que a política representativa, exercida cotidianamente nos gabinetes, mostre-se degenerada e corroída em seu potencial de mudanças substantivas, necessariamente continuará a ser o palco dos debates e o espaço onde os diversos interesses sócio-econômicos deverão ser resolvidos. Não é possível substituí-la por uma assembleia popular constantemente mobilizada, mesmo porque as assembleias sempre serão, também elas, uma “representação” de uma mentalidade mais difusa pelos milhões de outras pessoas que irão se recusar a tomar parte nelas. Entre a pedrada, o coquetel molotov, o incêndio numa concessionária de carro, o grito de guerra de um black bloc, por um lado, e o poder infinito de coerção do capital financeiro, por outro, os embates políticos entre representantes mais próximos dos movimentos populares e aqueles ligados, por exemplo, às elites agrárias, mostram-se como uma “sintonia fina” eternamente ajustada, desfeita e reajustada ao sabor das possibilidades reais de progresso, encarando eternamente a possibilidade de regressão. Em um momento especialmente delicado como a eleição para o governo federal, o que pode estar no horizonte dos próximos meses é uma estratégia de interferência bruta dessa sintonia fina através do aproveitamento ideológico do potencial disruptivo dos movimentos de massa por parte de setores reacionários da política.

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