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sábado, 25 de janeiro de 2014

Troca de valores


Quem viaja para outros países, não apenas Estados Unidos e Europa, mas também para alguns da América Latina, como o Chile, constata de forma impressionante o quanto produtos industrializados, como roupas, calçados, automóveis e eletrônicos, são bem mais baratos lá do que aqui. Sempre quando do lançamento de um produto badalado, como os iPhone’s da Apple ou um console de videogame, vemos várias reportagens mostrando que no Brasil tal produto é “o mais caro do mundo”. A explicação que parece vigorar há mais tempo, e na qual muitos ainda insistem, é a de que a carga tributária no Brasil é alta demais. Várias matérias jornalísticas têm mostrado, entretanto, que, embora esse seja um fator real, não é o decisivo, pois na verdade o preponderante seriam as altas taxas de lucro das empresas. Por tudo que li a respeito, estou convencido de que essa segunda perspectiva é a correta. Se assim é, a pergunta a se responder é a seguinte: por que nós no Brasil aceitamos pagar tão caro pelos produtos industrializados?

Em sua coluna no jornal Folha de São Paulo, Vladimir Safatle respondeu exatamente a essa questão com uma ideia que me parece acertada, embora insuficiente para dar conta da especificidade deste fenômeno no Brasil. Resumindo, sua posição é a de que pagamos mais caro porque o preço alto confere status ao comprador. Safatle cita o exemplo de um psicanalista seu amigo que passou a ter mais pacientes quando aumentou consideravelmente o preço da consulta. Pagar caro teria o sentido de um fetiche, de modo que o comprador se identifica com o preço da mercadoria ou do serviço. Essa ideia é, de fato, representativa de muito da atitude do consumo, em que, seguindo conceitos basilares da teoria de Jean Baudrillard, o ímpeto do consumo não é ligado ao uso concreto que se faz dos objetos, mas sim à apropriação das coisas como signos de valores menos ou mais abstratos, como feminilidade, status, juventude, alegria, vigor sexual etc. O problema em empregar este princípio como explicação para o caso brasileiro está no fato de que ele é válido em todos países em que o capitalismo chegou a ter a mobilidade e desenvolvimento que vemos nas Américas e na Europa. Já na década de 50 do século passado Theodor Adorno havia dito explicitamente que o preço era uma das coisas que se compram em uma mercadoria, e as formulações teóricas de Baudrillard datam dos anos 70 na França. Assim, continuamos com a questão: por que no Brasil esse princípio da atitude consumptiva se dá de forma tão gritante?

Todas as nossas atitudes são sempre motivadas por vários fatores, que não se situam em um mesmo plano de consciência, pois alguns são mais profundamente arraigados em nós, marcados por um forte grau de inconsciência, enquanto outros podem ser mais facilmente localizáveis no âmbito de nossa percepção e das trocas no imaginário coletivo. A fim de entender como se dá o resultado dessa convergência de elementos motivacionais, muitas vezes é interessante estabelecer um vínculo entre fenômenos aparentemente sem ligação. Tal como a técnica da associação livre de Freud demonstrou, quando conectamos vivências aparentemente discrepantes surgem significados subjetivos que passam ao largo de nossa percepção e censura conscientes, possibilitando-nos compreender uma motivação comum a mais de uma atitude, o que faz com que ambas sejam esclarecidas de um modo que não seria alcançável na leitura de cada uma isoladamente.

Permitam-me usar um caso que ocorreu comigo, como um dos vários exemplos para uma atitude que considero também típica no Brasil. No prédio onde tenho lecionado nos últimos semestres, todos os quatro são brancos e, como sempre acontece, os marcadores que a instituição oferece acabam secando muito rápido devido ao uso coletivo. Para evitar este problema, comprei um marcador um pouco mais caro, recarregável. Há alguns meses, esqueci-o na sala de aula, provavelmente na canaleta de alumínio na base do quadro. Dois dias depois, notei que ele não estava na sala, nem na pasta em que ficam todos os objetos a serem usados na aula, nem havia sido devolvido aos funcionários da secretaria do prédio. Como a sala só é aberta com chave por cada professor durante período de aula, o mais provável é que algum dos colegas de trabalho se apossou do marcador de quadro branco, pois viu que era um tanto “especial”.

O que impressiona neste como em outros casos semelhantes é a mesquinhez da atitude. O objeto em questão tem um valor pequeno demais quando comparado à percepção de si como honesto. Embora seja muito evidente que grandes furtos sejam repreensíveis proporcionalmente ao valor do objeto furtado, o complexo psíquico-emocional do que tipicamente se chama “um mísero ladrão de galinhas” é um objeto que merece uma investigação específica. Indo direto ao que nos interessa aqui, está muito claro que a pessoa que pratica essas pequenas apropriações de objetos se “vende” por muito pouco, rebaixando-se, em sua dignidade, ao valor da própria coisa. Trata-se — de forma pouco metafórica — de uma compra e de uma venda, pois se está “adquirindo” um produto e dando-se em troca a própria qualificação de si como honesto.

Voltando à questão do preço das mercadorias, é importante notar que toda vez que compramos um objeto, pagamos não propriamente com o dinheiro, mas com o nosso tempo de trabalho (ou o de nossos pais, ou de quem quer que nos tenha dado dinheiro): comprar significa trocar esforço, trabalho e energia por um objeto (que por sua vez também condensa trabalho alheio, como diz Marx, mas vamos abstrair deste lado da equação). Em outras palavras: trocamos “um pouco de nós mesmos” por algo que queremos. — A esta altura não deve ser difícil perceber em que consiste o argumento: quem admite, aceita, se resigna a pagar caro por uma mercadoria está, neste mesmo ato, vendendo a si mesmo por um preço baixo. Ora, isso é bem análogo à atitude mesquinha de se apropriar indevidamente de coisas alheias, bem como de “querer levar vantagem em tudo”, mesmo — e tipicamente — quando são vantagens pequenas demais comparadas a nossa dignidade, paz de espírito e amor-próprio. Em suma: tudo é muito caro no Brasil devido a um complexo psíquico-emocional compartilhado em nossa sociedade que resulta em darmos pouco valor a nós mesmos, em nos vendermos por muito pouco.

Essa perspectiva não se opõe à defendida por Adorno e Safatle, em virtude do fato de que a percepção de pouco valor para si é compensada, através de uma formação de compromisso, com a identificação imaginária com o preço pago pelo produto. A um só tempo, nós nos rebaixamos e nos elevamos na compra de uma mercadoria cara, de tal forma que o processo de identificação com o preço é uma espécie de facilitador psíquico para a pré-disposição de auto-rebaixamento.

Desnecessário dizer que tudo isso não significa uma descrição da personalidade, do caráter e da disposição afetiva de todas as pessoas no Brasil. Trata-se de uma tipificação ideal, um princípio genérico de análise que se aplica a uma cultura em um plano que não se traduz na descrição de cada indivíduo. Além disso, ela ainda deixa em aberto a questão de por que esses traços gerais são fortes em nosso meio e não em alguns países da América Latina, que indubitavelmente passaram por um processo de colonização bastante próximo ao nosso — Apesar dessas lacunas inerentes a esse tipo de análise, creio que ela aponta para uma característica marcante de nossa sociedade, podendo contribuir para reflexões mais aprofundadas, com ganhos significativos para a visão sobre a “brasilidade”.

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