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sábado, 8 de fevereiro de 2014

A escolha de um tema


O trabalho de pesquisa teórica, tanto no âmbito de ciências humanas quanto exatas, possui diversas características que geram a percepção de estranhamento em relação à realidade. O tipo de investimento pessoal para alcançar resultados consistentes difere bastante da realização de outras tarefas, mesmo quando estas são longas. Um mestrado em filosofia ou ciências humanas, por exemplo, demanda não apenas estudos constantes e prolongados, mas com um foco dirigido para um objeto bem circunscrito. Por mais que a graduação tenha sido longa, quatro anos ou mais, o estudo de pós tende a gerar um impacto afetivo especial devido ao fato, entre outras coisas, de exigir uma concentração em detalhes, em nuances de interpretação em perspectivas distintas, tudo isso gravitando ao redor de uma temática homogênea, que tende a produzir o sentimento de certa saturação, de algo por demais insistente. Durante as disciplinas cursadas na graduação, por maior que tenha sido o trabalho intelectual, a diversidade de assuntos produzia um contrapeso para a demanda de atenção, de atitude concentrada.

Há vários outros elementos que caracterizam essa discrepância do labor teórico para com o cotidiano, e falar de todos eles implicaria discutir a natureza da construção e prática do saber científico em geral, o que não é o caso para esta postagem do blog. Quero focar apenas uma questão muito relevante, que é a dificuldade inerente a uma das primeiras tarefas de quem se propõe a fazer uma pesquisa de pós-graduação: a escolha do tema. Vou deixar de lado as diferenças entre as diversas disciplinas e cursos, procurando focalizar elementos comuns ao estudo da filosofia e de ciências humanas e sociais.
 
Ao se escolher o tema da pesquisa, é necessário estabelecer uma formação de compromisso, um meio termo, entre o interesse, o gosto pessoal, e a adequação às expectativas da instituição onde se quer estudar. Embora não para todas as pessoas, mas creio que para a grande maioria esteja bastante claro que o excesso para um desses extremos é prejudicial. Focar apenas naquilo que nos dá prazer em estudar ou deixar este aspecto completamente de lado e obedecer totalmente àquilo que pode ser moda ou é praticado normalmente pelo conjunto de professores não promete, por motivos distintos, um bom rendimento ao longo de no mínimo dois anos de esforço contínuo. É interessante observar que, mesmo quando uma determinada temática obedece a parâmetros de aceitabilidade institucionais, o excessivo interesse e gosto por parte do pesquisador pode ser prejudicial, em virtude da dificuldade de se distanciar afetivamente em relação ao objeto. O desejo de compreendê-lo de forma abrangente demais, de pesquisar absolutamente tudo sobre ele, de não deixar passar nada que possa ser relevante etc., tudo isso pode tornar o trabalho incompatível com o que se espera de um trabalho acadêmico bem feito, enxuto, realizável dentro de um prazo adequado, tanto para o pesquisador quanto para a instituição.

Este contraste entre o impacto afetivo do objeto e a demanda de adequação aos requisitos teóricos tem outra faceta, mais difícil de ser apreendida, e que se reflete negativamente na qualidade de grande parte dos projetos. Trata-se do equívoco de pensar que o objeto-de-pesquisa é uma parte da realidade cultural, como cultura de massa, religião, arte moderna, alcoolismo, violência contra mulher etc. Na verdade, a pesquisa científica tem como foco determinada forma teórica de olhar para esse recorte da realidade exterior. O objeto-de-reflexão, que ao se redigir o texto se identifica ao objeto-de-apresentação, é a trama dos conceitos, de argumentos, de hipóteses e de resoluções apresentadas por um ou mais teóricos. Nesse sentido, a pergunta inicial que alguém deve se fazer, diante da tarefa de escrever um projeto, não é propriamente “O que eu quero estudar?”, mas sim: “Qual perspectiva teórica eu quero apresentar sobre determinada realidade?”.

Em termos práticos, não se devem tomar objetos de nosso interesse e então procurar algum teórico que fale sobre eles, mas sim aprofundar-se em textos importantes sobre um assunto e tentar formular um problema teórico a partir da própria leitura. Seguindo o primeiro viés, pode-se formular diversas questões em princípio muito interessantes, ricas e de fato inovadoras, mas a lida concreta com o trabalho de pesquisa pode se tornar inviável, em virtude de ser grande o risco de não se encontrar uma boa base na literatura de apoio. Embora prometa alguma inovação na área de conhecimento pretendido, a escassez de elementos teóricos já formulados pode tornar inviável toda a pesquisa. Adotando o outro direcionamento, a saber, buscar o tema, as questões e hipóteses teóricas a partir de todo o “caldo” de leituras, resumos e fichamentos dos textos estudados, a viabilidade da pesquisa é muito mais assegurada, pois tudo o que se quer responder, de alguma maneira, já está pelo menos indicado por aquilo que fez surgir toda a problemática.

Embora seja evidente que em muitos casos a nossa perspectiva “direta” para com determinado fenômeno seja componente integral do que nos levará a escrever sobre certos temas, como o consumo, a influência religiosa nos costumes, o discurso político de alguns grupos e atores sociais etc., a qualidade da pesquisa será marcada essencialmente pelo modo com que se demonstra a capacidade de aprender a enxergar a realidade com as lentes fornecidas por conceitos teóricos significativos. Isso se dá, primeiramente, pelo fato de que o esforço de tentar se aperceber da consistência de conceitos alheios (com os quais muitas vezes não concordamos) é um exercício indispensável para formar a própria capacidade intelectual, deslocando nosso olhar, já formado através de mecanismos fragmentários e não sistematizados, e fazendo-o fluir pelas vias da articulação rigorosa de etapas argumentativas consistentes. Trata-se de um exercício de alteridade de pensar não apenas junto com o outro, mas através dele, para que se possa, ao fim do per-curso, poder decidir com conhecimento de causa o que se quer e não se quer agregar à nossa própria visão de mundo. Além disso, em uma determinada etapa, tanto de nosso desenvolvimento pessoal, quanto também do estado de nosso conhecimento social sobre o assunto, um conceito teórico específico pode nos parece equivocado, mas através de estudos consistentes essa avaliação pode mudar, fazendo com que toda uma concepção científica seja tomada como consistente e útil para compreender a realidade.

“Mas e se eu quiser apresentar uma leitura original, pessoal, de uma realidade?” — Esta pergunta é muito interessante, pelo fato de que mesmo nesse caso o que deverá ser apresentado não é propriamente “o objeto”, mas sim um modo/modelo teórico, conceitual, específico de falar sobre ele. Quando Freud, por exemplo, criou sua teoria sobre o fenômeno histérico, construiu e apresentou, na verdade, conceitos e hipóteses que nos permitem compreender este fenômeno psíquico a partir de um viés teórico determinado. O que o fez ser um cientista de suma importância no panorama da ciências humanas do século XX foi a qualidade do edifício teórico que ele construiu. Todas as suas observações relativas aos objetos realmente significativas somente têm relevância pelo modo com que amparam, apoiam, ilustram e esclarecem seus conceitos, argumentos e hipóteses. — Assim, independente de a pesquisa apresentar uma perspectiva original ou de outro autor, o que está em jogo é, fundamentalmente, o valor teórico/conceitual do que é apresentado, ou seja, seu grau de coerência, de sistematicidade, de clareza de suas hipóteses etc.

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