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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Esquerda e direita, ainda.


Um dos primeiros filósofos a refletir programaticamente sobre os fundamentos e os parâmetros de validade do conhecimento teórico, Aristóteles havia dito que nas ciências da ética e da política não se deveria exigir tanta clareza e exatidão quanto na matemática e no conhecimento sobre a natureza. De fato, a mobilidade e a confluência às vezes não harmônica de inumeráveis fatores no comportamento humano, não apenas tomado no âmbito político e social, mas também de cada indivíduo, torna por vezes até ridícula alguma tentativa de precisão quanto a ações futuras, e mesmo quanto à validade de princípios gerais do que leva cada pessoa ou grupo a agir, pensar e sentir. Embora essa ideia se nos afigure hoje, 2300 anos depois da morte de Aristóteles, como até mesmo evidente, por outro lado a extensão e o grau de sua aplicabilidade, ou seja, o quanto podemos tolerar de incerteza no âmbito da ciências humanas, ainda é bastante discutível, e me parece que em vários momentos esse princípio não recebe a devida atenção. Dos vários exemplos, o que gostaria de discutir hoje são os conceitos de esquerda e direita na política.

Desde que o regime dito socialista na União das Repúblicas Soviéticas sofreu uma derrocada significativa, ao que se seguiu a tomada do poder central por partidos políticos tradicionalmente ligados às forças de esquerda (como de movimentos operários e de grupos de defesa de parcelas oprimidas da sociedade), essa tradicional divisão do espectro político passou a ser criticada de diversas formas. O questionamento mais “clássico” é: se partidos e representantes de movimentos sociais, ao terem em mãos as principais chaves para orquestração das políticas sociais e econômicas, não apenas executam durante um bom tempo medidas tradicionalmente ligadas a partidos de direita (como o aumento e manutenção de taxas de juros elevadas, empréstimos subsidiados a grandes empresas, favorecimento de concentração de empresas prestadoras de serviço etc.), como se pode manter tal divisão sem se pagar o preço de um grande idealismo? — É precisamente este preço que muitas pessoas temem apagar, e se relutam a fazê-lo. De fato, o raciocínio parece coerente e forte: se partidos que sempre se disseram de esquerda, ao se defrontarem com as vicissitudes em princípio intransponíveis da pluralidade continuamente renovada de interesses divergentes, se veem obrigados a práticas que mantêm e acolhem programas dos mais variados, como não taxar de uma abstração idealista a manutenção do conceito de esquerda, por exemplo?

Em debates deste tipo, o dispositivo de argumentação que me parece mais eficaz é o questionamento dos princípios que dão suporte a uma perspectiva, uma vez que seus defensores muitas vezes não possuem suficiente consciência do modelo e estratégia de pensamento nos quais se firmam. Em relação a este argumento que apresentei acima, seu princípio de apoio é o de que conceitos referentes à realidade social somente possuem validade suficiente quando os quadros de sua aplicabilidade concreta são suficientemente consistentes no âmbito macro, de conjunto. Na medida em que certo conceito é por demais relativizado, de modo a não se concretizar com um grau de coerência ampla significativa, então seria necessário, segundo essa perspectiva, “descer” a um plano descritivo mais rente à superfície irregular, múltipla e diversificadamente colorida da realidade tal como “efetivamente” praticada. Desse modo, escaparíamos da pecha de idealistas, que supostamente habitam em castelos conceituais no ar de nosso desejo juvenil revolucionário.

Tal como disse Theodor Adorno de forma programática, não se deve sempre “culpar” os conceitos pelo fato de a realidade não ser cabal- ou completamente assimilada por eles. Em uma grande quantidade de casos, essa distância é, sim, índice de fraqueza conceitual, como os conceitos de anjo, forças cósmicas morais, superioridade das raças etc. Em outros momentos, entretanto, um conceito, uma ideia, um paradigma de análise significa uma espécie de baliza para que se meça a realidade em termos de nossas expectativas de justiça, de progresso social, de compromisso político, de coerência administrativa. Todos esses fatores e dimensões sócio-políticas possuem bem mais validade normativa do que descritiva. Nesse sentido, não é pelo fato de partidos que supostamente “encarnavam” e “incorporavam” um ideário de esquerda passarem a adotar políticas tipicamente associadas à direita, que os conceitos de esquerda e de direita perderam seu valor.

Se podemos aprender algo com essa espécie de consciência política decepcionada e pseudo-órfã de ideais socialistas, então se trata da tarefa de assumir que “esquerda” e “direita” não descrevem partidos, grupos de pessoas ou mesmo um indivíduo em sua totalidade atual ou em seu desdobramento histórico, mas sim determinadas ações, projetos, estratégias, práticas etc., compreendidos dentro do contexto em que se inserem, lastreadas por suas finalidades, consequências reais e meios empregados. Nesse sentido, um partido não “é” de esquerda, mas sim, hipoteticamente, propõe mais projetos e implementa mais políticas de esquerda, a saber, que favorecem a distribuição de renda, fomentam justiça social, amparam os direitos de minorias, contribuem para o reconhecimento do direito de expressão simbólica de indivíduos marginalizados pelo sistema econômico etc. Assim, numa abstração apenas retórica, podemos dizer que no absurdo de nenhum governo no mundo praticar nenhuma política semelhante a essas, mesmo assim este conceito continuaria válido...

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