Um dos primeiros filósofos a refletir programaticamente
sobre os fundamentos e os parâmetros de validade do conhecimento teórico,
Aristóteles havia dito que nas ciências da ética e da política não se deveria
exigir tanta clareza e exatidão quanto na matemática e no conhecimento sobre a
natureza. De fato, a mobilidade e a confluência às vezes não harmônica de
inumeráveis fatores no comportamento humano, não apenas tomado no âmbito
político e social, mas também de cada indivíduo, torna por vezes até ridícula alguma
tentativa de precisão quanto a ações futuras, e mesmo quanto à validade de
princípios gerais do que leva cada pessoa ou grupo a agir, pensar e sentir.
Embora essa ideia se nos afigure hoje, 2300 anos depois da morte de
Aristóteles, como até mesmo evidente, por outro lado a extensão e o grau de sua
aplicabilidade, ou seja, o quanto podemos tolerar de incerteza no âmbito da
ciências humanas, ainda é bastante discutível, e me parece que em vários
momentos esse princípio não recebe a devida atenção. Dos vários exemplos, o que
gostaria de discutir hoje são os conceitos de esquerda e direita na política.
Desde que o regime dito socialista na União das Repúblicas
Soviéticas sofreu uma derrocada significativa, ao que se seguiu a tomada do
poder central por partidos políticos tradicionalmente ligados às forças de
esquerda (como de movimentos operários e de grupos de defesa de parcelas
oprimidas da sociedade), essa tradicional divisão do espectro político passou a
ser criticada de diversas formas. O questionamento mais “clássico” é: se
partidos e representantes de movimentos sociais, ao terem em mãos as principais
chaves para orquestração das políticas sociais e econômicas, não apenas
executam durante um bom tempo medidas tradicionalmente ligadas a partidos de direita
(como o aumento e manutenção de taxas de juros elevadas, empréstimos
subsidiados a grandes empresas, favorecimento de concentração de empresas
prestadoras de serviço etc.), como se pode manter tal divisão sem se pagar o
preço de um grande idealismo? — É precisamente este preço que muitas pessoas
temem apagar, e se relutam a fazê-lo. De fato, o raciocínio parece coerente e
forte: se partidos que sempre se disseram de esquerda, ao se defrontarem com as
vicissitudes em princípio intransponíveis da pluralidade continuamente renovada
de interesses divergentes, se veem obrigados a práticas que mantêm e acolhem
programas dos mais variados, como não taxar de uma abstração idealista a
manutenção do conceito de esquerda, por exemplo?
Em debates deste tipo, o dispositivo de argumentação que me
parece mais eficaz é o questionamento dos princípios que dão suporte a uma
perspectiva, uma vez que seus defensores muitas vezes não possuem suficiente
consciência do modelo e estratégia de pensamento nos quais se firmam. Em
relação a este argumento que apresentei acima, seu princípio de apoio é o de
que conceitos referentes à realidade social somente possuem validade suficiente
quando os quadros de sua aplicabilidade concreta são suficientemente
consistentes no âmbito macro, de conjunto.
Na medida em que certo conceito é por demais relativizado, de modo a não se
concretizar com um grau de coerência ampla significativa, então seria
necessário, segundo essa perspectiva, “descer” a um plano descritivo mais rente
à superfície irregular, múltipla e diversificadamente colorida da realidade tal
como “efetivamente” praticada. Desse modo, escaparíamos da pecha de idealistas,
que supostamente habitam em castelos conceituais no ar de nosso desejo juvenil
revolucionário.
Tal como disse Theodor Adorno de forma programática, não se
deve sempre “culpar” os conceitos pelo fato de a realidade não ser cabal- ou
completamente assimilada por eles. Em uma grande quantidade de casos, essa
distância é, sim, índice de fraqueza conceitual, como os conceitos de anjo,
forças cósmicas morais, superioridade das raças etc. Em outros momentos,
entretanto, um conceito, uma ideia, um paradigma de análise significa uma
espécie de baliza para que se meça a realidade em termos de nossas expectativas
de justiça, de progresso social, de compromisso político, de coerência
administrativa. Todos esses fatores e dimensões sócio-políticas possuem bem
mais validade normativa do que descritiva. Nesse sentido, não é
pelo fato de partidos que supostamente “encarnavam” e “incorporavam” um ideário
de esquerda passarem a adotar políticas tipicamente associadas à direita, que os
conceitos de esquerda e de direita perderam seu valor.
Se podemos aprender algo com essa espécie de consciência
política decepcionada e pseudo-órfã de ideais socialistas, então se trata da
tarefa de assumir que “esquerda” e “direita” não descrevem partidos, grupos de
pessoas ou mesmo um indivíduo em sua totalidade atual ou em seu desdobramento
histórico, mas sim determinadas ações, projetos, estratégias, práticas etc.,
compreendidos dentro do contexto em que se inserem, lastreadas por suas
finalidades, consequências reais e meios empregados. Nesse sentido, um partido
não “é” de esquerda, mas sim, hipoteticamente, propõe mais projetos e
implementa mais políticas de esquerda, a saber, que favorecem a distribuição de
renda, fomentam justiça social, amparam os direitos de minorias, contribuem
para o reconhecimento do direito de expressão simbólica de indivíduos
marginalizados pelo sistema econômico etc. Assim, numa abstração apenas
retórica, podemos dizer que no absurdo de nenhum governo no mundo praticar
nenhuma política semelhante a essas, mesmo assim este conceito continuaria
válido...
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