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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Pseudo-liberdade

A construção de sociedades marcadas por uma concepção essencialmente individualizada de seus componentes sempre terá diversos tipos de problemas de harmonização entre os planos individual e coletivo, não apenas no que concerne ao egoísmo e desrespeito ou violência para com as outras pessoas, mas também no plano da própria auto-concepção individual. A interioridade subjetiva, vivida no horizonte de sociedades com milhões de pessoas e que se sentem aumentadas infinitamente pela inter-relação econômica e política mundial, exprime tensões e paradoxos visíveis na dificuldade de conciliar o desejo de liberdade e a dinâmica que determina o sentido da existência coletiva. — Hoje quero falar de uma questão relacionada a isso: uma forma por assim dizer neurótica de afirmar a própria condição de ser livre através da auto-sabotagem.

A construção laboriosa e continuada do que se pretende alcançar, bem como da manutenção reiterada de relacionamentos afetivos, exige um esforço que é muito facilmente assimilável como doação de si à realidade, como anulação. Embora as exigências de nossos investimentos sejam infinitamente variáveis, não é nada difícil que a tensão emocional e seu consequente dispêndio de energia psíquica aumentem muito com o passar do tempo, em que é exigido de nós re-começar, re-ssituarmo-nos, re-elaborar o que foi vivido, de modo que a cada instante a “simples” continuidade exige uma espécie de começo em escala micro. Que tudo isso seja vivenciado como um excessivo peso de determinação extrínseca a nós mesmos marca uma condição de heteronomia, de ausência de liberdade, de subjugação a uma objetividade do real por demais irritante. Se somarmos a este complexo de coisas a dúvida em relação ao resultado final (se tudo terá valido a pena), logo uma “solução” pode ser antecipar o fim através da simples recusa de continuar.

Duas situações típicas desse estado de coisas:

1) Dificilmente alguém escapa ao longo da vida da experiência de ter alívio e mesmo alegria quando uma situação de incerteza se resolve, mas para a alternativa pior. O desgosto de não ter alcançado o melhor acaba um tanto obscurecido pelo prazer da fuga da situação de dúvida e incerteza, pois a tensão emocional e psíquica do desconhecimento, da impossibilidade de agir em virtude disso, parece pior do que ter algo ruim em mãos, mas com a possibilidade de fazer por conta própria algo que solucione o problema.

2) Tal como coloquei em uma postagem anterior, é um exemplo consumado de auto-sabotagem a atitude de antecipar de forma ansiosa o que se gostaria que as coisas fossem, “punir” o presente por ainda ser o que ele é, e acabar inviabilizando o que se gostaria de alcançar. A distância entre a fantasia que impulsiona o desejo e sua concretização futura é anulada, de modo que tudo o que poderia construir mediações para fazer a ponte entre a interioridade e a objetividade do mundo deixa de ter seu espaço mínimo.

Ora, um dos sintomas de vigor emocional e psíquico consiste precisamente em ser capaz de sustentar a continuidade do estado de incerteza, tal como muito bem sabia Nietzsche. A não-necessidade de suprir as lacunas de nossa convicção sobre o valor de nossas ações, sobre o sucesso ou fracasso do curso do mundo, sobre o sentido ou absurdo de nossa caminhada, sobre o mistério do quanto seremos recompensados por nosso investimento afetivo no outro etc., esta não-carência demonstra o quanto damos muito mais valor àquilo que podemos efetivamente praticar, construir e obter do que à negatividade que pesa como obstáculo.

Nesse sentido, a auto-sabotagem, a recusa de continuar, a desistência pura e simples configuram uma simulação canhestra da capacidade de autodeterminação, de ter em mãos o poder de determinar a si mesmo, negando a condição de heteronomia (que é a condição oposta à de autonomia). Em vez de a liberdade ser definida como resultado da superação de obstáculos e da negatividade, como já havia dito Hegel, ela é vivenciada intimamente como uma condição, como mera negação dos obstáculos e incertezas provenientes da realidade. Ao longo do tempo, o que resulta é um empobrecimento e restrições cada vez maiores, pois a percepção de si como livre por decisão de seu próprio arbítrio recusador tem como ponto de fuga tão-somente o âmbito do pensamento, da imaginação e da fantasia, onde não há todo aquele um “massacrante” peso da objetividade social, da natureza e dos afetos.

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