A construção de sociedades marcadas por uma
concepção essencialmente individualizada de seus componentes sempre terá
diversos tipos de problemas de harmonização entre os planos individual e
coletivo, não apenas no que concerne ao egoísmo e desrespeito ou violência para
com as outras pessoas, mas também no plano da própria auto-concepção
individual. A interioridade subjetiva, vivida no horizonte de sociedades com
milhões de pessoas e que se sentem aumentadas infinitamente pela inter-relação
econômica e política mundial, exprime tensões e paradoxos visíveis na
dificuldade de conciliar o desejo de liberdade e a dinâmica que determina o
sentido da existência coletiva. — Hoje quero falar de uma questão relacionada a
isso: uma forma por assim dizer neurótica de afirmar a própria condição de ser
livre através da auto-sabotagem.
A construção laboriosa e continuada do que se
pretende alcançar, bem como da manutenção reiterada de relacionamentos
afetivos, exige um esforço que é muito facilmente assimilável como doação de si
à realidade, como anulação. Embora as exigências de nossos investimentos sejam
infinitamente variáveis, não é nada difícil que a tensão emocional e seu
consequente dispêndio de energia psíquica aumentem muito com o passar do tempo,
em que é exigido de nós re-começar, re-ssituarmo-nos, re-elaborar o que foi
vivido, de modo que a cada instante a “simples” continuidade exige uma espécie
de começo em escala micro. Que tudo isso seja vivenciado como um excessivo peso
de determinação extrínseca a nós mesmos marca uma condição de heteronomia, de
ausência de liberdade, de subjugação a uma objetividade do real por demais
irritante. Se somarmos a este complexo de coisas a dúvida em relação ao
resultado final (se tudo terá valido a pena), logo uma “solução” pode ser
antecipar o fim através da simples recusa de continuar.
Duas situações típicas desse estado de coisas:
1) Dificilmente alguém escapa ao longo da vida da
experiência de ter alívio e mesmo alegria quando uma situação de incerteza se
resolve, mas para a alternativa pior. O desgosto de não ter alcançado o
melhor acaba um tanto obscurecido pelo prazer da fuga da situação de dúvida e
incerteza, pois a tensão emocional e psíquica do desconhecimento, da
impossibilidade de agir em virtude disso, parece pior do que ter algo ruim em
mãos, mas com a possibilidade de fazer por conta própria algo que solucione o
problema.
2) Tal como coloquei em uma postagem anterior, é
um exemplo consumado de auto-sabotagem a atitude de antecipar de forma ansiosa
o que se gostaria que as coisas fossem, “punir” o presente por ainda ser o que
ele é, e acabar inviabilizando o que se gostaria de alcançar. A distância entre
a fantasia que impulsiona o desejo e sua concretização futura é anulada, de
modo que tudo o que poderia construir mediações para fazer a ponte entre a
interioridade e a objetividade do mundo deixa de ter seu espaço mínimo.
Ora, um dos sintomas de vigor emocional e
psíquico consiste precisamente em ser capaz de sustentar a continuidade do
estado de incerteza, tal como muito bem sabia Nietzsche. A não-necessidade de
suprir as lacunas de nossa convicção sobre o valor de nossas ações, sobre o
sucesso ou fracasso do curso do mundo, sobre o sentido ou absurdo de nossa
caminhada, sobre o mistério do quanto seremos recompensados por nosso
investimento afetivo no outro etc., esta não-carência demonstra o quanto damos
muito mais valor àquilo que podemos efetivamente praticar, construir e obter do
que à negatividade que pesa como obstáculo.
Nesse sentido, a auto-sabotagem, a recusa de continuar, a desistência
pura e simples configuram uma simulação canhestra da capacidade de
autodeterminação, de ter em mãos o poder de determinar a si mesmo, negando a
condição de heteronomia (que é a condição oposta à de autonomia). Em vez de a
liberdade ser definida como resultado da superação de obstáculos e da
negatividade, como já havia dito Hegel, ela é vivenciada intimamente como
uma condição, como mera negação dos obstáculos e incertezas provenientes
da realidade. Ao longo do tempo, o que resulta é um empobrecimento e restrições
cada vez maiores, pois a percepção de si como livre por decisão de seu próprio
arbítrio recusador tem como ponto de fuga tão-somente o âmbito do pensamento,
da imaginação e da fantasia, onde não há todo aquele um “massacrante” peso da
objetividade social, da natureza e dos afetos.
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