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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Inteligência afetiva

Ao começar a ler esse texto, você poderá me taxar de superficial ou até de um tanto frívolo mas leia até o fim.

Em um relacionamento afetivo, de amor, vale muito mais sermos leves, agradáveis e divertidos para o outro, do que trazermos “verdades”, críticas substantivas sobre a vida, sobre a política, sobre o saber etc. É evidente que o gosto pessoal por discussões aprofundadas sobre quaisquer temas varia infinitamente, mas, ao longo dos anos, tendi a perceber que quando se “aprende” a ter uma convivência afetiva mais pautada pela leveza, pela amenidade e pelo humor, ela parece ter muito mais chances de permanecer viva durante mais tempo.

Klimt - O beijo (detalhe)
Nossos gostos, assim como nossos sentimentos e até a própria percepção, não apenas são constantemente modelados socialmente, quanto podem ser sempre refletidos de modo a tomarmos consciência do quanto são pobres. A urgência da atividade profissional, a maciça influência da demanda de sobriedade para lidar com a vida, o nosso próprio narcisismo em nos pensarmos como “inteligentes” e uma série de outros fatores sociais e psíquicos demonstram uma inércia muito grande, levando todo este núcleo de nossa personalidade a expandir-se a ponto de colonizar muitas facetas da vida que deveriam ser mais resguardadas desse imperialismo.

“Ora, eu sempre me relaciono com pessoas inteligentes, e um dos motivos para isso está no fato de que posso ter trocas de ideias enriquecedoras” — sim, entendo perfeitamente; tais momentos crítico-reflexivos podem de fato contribuir para um bom vínculo amoroso, mas existe uma outra face mais difícil de perceber nessa questão.

A inteligência não está apenas na dimensão linguística, de articulação de ideias, aprofundamento conceitual, senso crítico-social etc. — ela não se manifesta apenas aí. Ela está também na compreensão de uma ironia perspicaz, na leitura dos gestos e demandas alheias, em encontrar limites tanto para si quanto para o outro; está também no próprio sexo, na capacidade de medir a sensibilidade própria e alheia, na leitura que fazemos das fantasias e recusas do outro; reside também em boas escolhas de oportunidades de entretenimento, passeio e descanso — e uma infinidade de outras circunstâncias em que tal “inteligência” será muito bem aproveitada e, assim, influirá decisivamente para que o vínculo afetivo se enriqueça e tenha uma boa continuidade. Ela não será “desperdiçada” por não se realizar (apenas ou majoritariamente) no âmbito em que é mais tipicamente reconhecida como tal, ou seja, na teoria, no discurso, na argumentação etc.

Em suma, acredito que no amor mais vale uma “inteligência afetiva” do que a intelectual ou crítica. Penso que quanto mais esta última apareça em sua forma mais típica, mais o relacionamento tende a se esvaziar de um componente vivencial de sua importância: a percepção do “aqui e agora” do prazer consubstanciado na leveza do vínculo amoroso, em sua desconexão perante o compromisso da vida, em sua negação do “peso” da realidade. Cada encontro amoroso, assim, deveria ser, essencialmente, um “fim de semana”, em contraste com os dias úteis do trabalho de sol a sol com nossos conceitos e argumentos.

P.S.: “Ei, espera aí: e para mim, que sou casado, convivendo várias horas por dia com minha esposa? Como fica essa ‘lógica afetiva do fim-de-semana’?” — Ótima pergunta! Só que é melhor você mesmo tentar responder...

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