Ao começar a ler esse texto, você poderá me taxar
de superficial ou até de um tanto frívolo — mas leia até o fim.
Em um relacionamento afetivo, de amor, vale muito
mais sermos leves, agradáveis e divertidos para o outro, do que trazermos “verdades”,
críticas substantivas sobre a vida, sobre a política, sobre o saber etc. É
evidente que o gosto pessoal por discussões aprofundadas sobre quaisquer
temas varia infinitamente, mas, ao longo dos anos, tendi a perceber que quando
se “aprende” a ter uma convivência afetiva mais pautada pela leveza, pela
amenidade e pelo humor, ela parece ter muito mais chances de permanecer viva
durante mais tempo.
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| Klimt - O beijo (detalhe) |
Nossos gostos, assim como nossos sentimentos e
até a própria percepção, não apenas são constantemente modelados socialmente,
quanto podem ser sempre refletidos de modo a tomarmos consciência do quanto são
pobres. A urgência da atividade profissional, a maciça influência da
demanda de sobriedade para lidar com a vida, o nosso próprio narcisismo em nos
pensarmos como “inteligentes” e uma série de outros fatores sociais e psíquicos
demonstram uma inércia muito grande, levando todo este núcleo de nossa
personalidade a expandir-se a ponto de colonizar muitas facetas da vida que
deveriam ser mais resguardadas desse imperialismo.
“Ora, eu sempre me relaciono com pessoas
inteligentes, e um dos motivos para isso está no fato de que posso ter trocas
de ideias enriquecedoras” — sim, entendo perfeitamente; tais momentos
crítico-reflexivos podem de fato contribuir para um bom vínculo amoroso, mas
existe uma outra face mais difícil de perceber nessa questão.
A inteligência não está apenas na dimensão
linguística, de articulação de ideias, aprofundamento conceitual, senso
crítico-social etc. — ela não se manifesta apenas aí. Ela está também na
compreensão de uma ironia perspicaz, na leitura dos gestos e demandas alheias,
em encontrar limites tanto para si quanto para o outro; está também no próprio
sexo, na capacidade de medir a sensibilidade própria e alheia, na leitura que
fazemos das fantasias e recusas do outro; reside também em boas escolhas de
oportunidades de entretenimento, passeio e descanso — e uma infinidade de
outras circunstâncias em que tal “inteligência” será muito bem aproveitada e,
assim, influirá decisivamente para
que o vínculo afetivo se enriqueça e tenha uma boa continuidade. Ela não será “desperdiçada”
por não se realizar (apenas ou majoritariamente) no âmbito em que é mais
tipicamente reconhecida como tal, ou seja, na teoria, no discurso, na
argumentação etc.
Em suma, acredito que no amor mais vale uma “inteligência
afetiva” do que a intelectual ou crítica. Penso que quanto mais esta última
apareça em sua forma mais típica, mais o relacionamento tende a se esvaziar de
um componente vivencial de sua importância: a percepção do “aqui e agora” do
prazer consubstanciado na leveza do vínculo amoroso, em sua desconexão perante
o compromisso da vida, em sua negação do “peso” da realidade. Cada encontro
amoroso, assim, deveria ser, essencialmente, um “fim de semana”, em contraste
com os dias úteis do trabalho de sol a sol com nossos conceitos e argumentos.
P.S.: “Ei, espera aí: e para mim, que sou casado,
convivendo várias horas por dia com minha esposa? Como fica essa ‘lógica afetiva
do fim-de-semana’?” — Ótima pergunta! Só que é melhor você mesmo tentar responder...
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