Um relacionamento afetivo tende a nos retirar de nossa zona
de conforto centrada na segurança de nosso próprio eu. Isso pode parecer óbvio,
mas não algumas de suas implicações e reações nossas.
A experiência amorosa solicita um trânsito de si ao mundo
que é permeado da necessidade de doação, de acolhida de diferença e de uma
série de outras formas de questionamento do que já se define como "bom
para mim", estável, já-previamente-sabido. Estar só, para muitas pessoas,
e durante muito tempo, sempre será uma "solução" perfeitamente
disponível. O provérbio "Antes só do que mal acompanhado" pode ser
traduzido, desse ponto de vista emocional, como: "Antes só do que
possível- e provavelmente mal acompanhado". A insuficiência e precariedade
da vida "de mim comigo mesmo" mostra-se, nessas circunstâncias, como
um mal menor, se comparada com a periculosidade do trânsito com o outro.
Uma vez que as demandas alheias sempre contêm um grau de
incerteza que se mescla ao que nós temos das nossas, isso potencializa um
desejo cada vez crescente de delimitação "do que está em jogo".
Considerando a eterna impossibilidade de prever a continuidade de nossos
sentimentos, e com muito mais razão, a duas sentimentos alheios, logo essa
demanda dificilmente deixa de acompanhar o relacionamento amoroso desde fases
surpreendentemente iniciais. A depender do grau de "ameaça" com que a
instabilidade vivencial é percebida, um de seus efeitos é certa irritação,
mal-estar e... raiva, pois o conflito entre a demanda de segurança de si e a
aventura do comércio afetivo é constante, reiterada e muitas vezes tende a
aumentar de forma crítica.
Ocorre que tudo isso existe precisamente em virtude do
prazer, do gozo, ou seja, da experiência do que sai dos trilhos do
"já-vivenciado-por-mim-mesmo". Trata-se de um estímulo e de uma
excitação que são percebidos como tais porque anulam a placidez e a fleuma do
centramento egóico. Nesse instante, entra em jogo a percepção de dependência
para com o outro, uma vez que este prazer do que ultrapassa nosso próprio
eu necessita não apenas da presença, mas das atitudes, das escolhas, dos gostos
e preferências alheios, que não podem ser absolutamente modelados.
Evidencia-se, assim, o paradoxo da situação: quanto mais
intenso o prazer/gozo, tanto mais ameaçadora é não apenas "a relação em
si", mas quem a proporciona! Quem oferece a oportunidade de prazer é, por
essa mesma razão (nutrida pela insegurança própria), quem recebe um
investimento afetivo contrário, que pode permanecer inconsciente por muito
tempo, até que... o relacionamento termina. Nesse instante, a ambiguidade
afetiva (tema muito estudado por Freud) se desdobra em uma raiva/ódio
purificada de seu sentimento oposto e que lhe foi a principal causa (!).
Isso esclarece em grande medida a ânsia crônica de sabotagem
dos relacionamentos: responde à pressão do desejo de se ver livre da mescla
muito pouco compreendida entre amor e ódio...
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