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sexta-feira, 4 de abril de 2014

O perigo são os outros

Um relacionamento afetivo tende a nos retirar de nossa zona de conforto centrada na segurança de nosso próprio eu. Isso pode parecer óbvio, mas não algumas de suas implicações e reações nossas.

A experiência amorosa solicita um trânsito de si ao mundo que é permeado da necessidade de doação, de acolhida de diferença e de uma série de outras formas de questionamento do que já se define como "bom para mim", estável, já-previamente-sabido. Estar só, para muitas pessoas, e durante muito tempo, sempre será uma "solução" perfeitamente disponível. O provérbio "Antes só do que mal acompanhado" pode ser traduzido, desse ponto de vista emocional, como: "Antes só do que possível- e provavelmente mal acompanhado". A insuficiência e precariedade da vida "de mim comigo mesmo" mostra-se, nessas circunstâncias, como um mal menor, se comparada com a periculosidade do trânsito com o outro.

Uma vez que as demandas alheias sempre contêm um grau de incerteza que se mescla ao que nós temos das nossas, isso potencializa um desejo cada vez crescente de delimitação "do que está em jogo". Considerando a eterna impossibilidade de prever a continuidade de nossos sentimentos, e com muito mais razão, a duas sentimentos alheios, logo essa demanda dificilmente deixa de acompanhar o relacionamento amoroso desde fases surpreendentemente iniciais. A depender do grau de "ameaça" com que a instabilidade vivencial é percebida, um de seus efeitos é certa irritação, mal-estar e... raiva, pois o conflito entre a demanda de segurança de si e a aventura do comércio afetivo é constante, reiterada e muitas vezes tende a aumentar de forma crítica.

Ocorre que tudo isso existe precisamente em virtude do prazer, do gozo, ou seja, da experiência do que sai dos trilhos do "já-vivenciado-por-mim-mesmo". Trata-se de um estímulo e de uma excitação que são percebidos como tais porque anulam a placidez e a fleuma do centramento egóico. Nesse instante, entra em jogo a percepção de dependência para com o outro, uma vez que este prazer do que ultrapassa nosso próprio eu necessita não apenas da presença, mas das atitudes, das escolhas, dos gostos e preferências alheios, que não podem ser absolutamente modelados.

Evidencia-se, assim, o paradoxo da situação: quanto mais intenso o prazer/gozo, tanto mais ameaçadora é não apenas "a relação em si", mas quem a proporciona! Quem oferece a oportunidade de prazer é, por essa mesma razão (nutrida pela insegurança própria), quem recebe um investimento afetivo contrário, que pode permanecer inconsciente por muito tempo, até que... o relacionamento termina. Nesse instante, a ambiguidade afetiva (tema muito estudado por Freud) se desdobra em uma raiva/ódio purificada de seu sentimento oposto e que lhe foi a principal causa (!).

Isso esclarece em grande medida a ânsia crônica de sabotagem dos relacionamentos: responde à pressão do desejo de se ver livre da mescla muito pouco compreendida entre amor e ódio...

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