Desde que Michel Foucault defendeu
enfaticamente sua tese de que não existe repressão sexual na época moderna e na
contemporaneidade, vemos diversos intelectuais compartilharem esta ideia,
alimentada em grande medida pela clara liberalização dos costumes sexuais a
partir da segunda metade do século XX. A teoria do filósofo francês é complexa
demais para ser abordada aqui, de modo que quero apenas argumentar de forma
contrária a essa perspectiva geral de que não há mais repressão sexual, ou que
ela é muito pequena, ou que ela se restrinja a algumas doutrinas religiosas
coercitivas.
O contexto social, tecnológico, ético,
político e até mesmo de influência das doutrinas religiosas no comportamento
nos leva a dizer que a sexualidade experimentou uma expressiva liberação de
diversas de suas práticas. Embora alguns grupos religiosos mais extremistas
ainda apregoem a abstinência até o casamento e recebam certa acolhida por parte
de seus fiéis, o ocidente (leia-se: a Europa e as Américas) já deixou há muito
de considerar imoral a prática do sexo antes do matrimônio. A depender da
disposição mútua, o sexo se tornou, em grande medida, um componente da vida,
não mais atrelado a este compromisso de determinado estado civil. Considerando
as múltiplas exposições do corpo nos meios de comunicação em massa (sem contar
a facilidade de acesso à pornografia sexual explícita), costuma-se dizer que
não haveria mais uma repressão sexual externa, e, considerando o
desenvolvimento da consciência crítica sobre nossas opções individuais,
tendemos a considerar como fruto de uma ponderação e escolha individuais aderir
ou não a um regime mais liberal ou parcimonioso de entrega ao prazer sexual:
casar virgem diria muito menos respeito ao fato de ser reprimido do que ter em
mãos as duas possibilidades e se decidir por uma delas pelo conjunto de seus
próprios valores.
Esta é uma perspectiva muito parcial,
ingênua e enganosa. Há vários tipos e formas de negação da sexualidade, que
residem muito aquém e além da limitação das práticas por normas morais e
jurídicas, e também doutrinas religiosas. Não é de forma alguma necessário
haver essas agências limitadoras, sejam elas menos ou mais interiorizadas
psicologicamente, para que a sexualidade, mesmo praticada no dia-a-dia, seja
bastante pobre, limitada, fraca em significado pessoal, contrarie uma afirmação
mais progressista de si como indivíduo, seja acompanhada de sentimentos de
culpa, remorso e auto-depreciação que não se mostram de forma clara à
consciência. O universo da sexualidade envolve uma série de fatores, dinâmicas
e formas de sensibilidade, desejos e fantasias muito mais perigosos de um ponto
de vista de censura social do que a simples prática concreta, material.
Para entender a justificativa desse
posicionamento crítico, é necessário entendermos minimamente a diferença entre repressão e recalque, que abordei em uma postagem anterior e que convido à
leitura. Mesmo que aceitássemos, em princípio, a tese de que não há mais
“repressão” sexual, estaríamos muito longe de dizer que não há recalque
sexual. Este último diz respeito a uma mobilidade de interdições, atos
compulsivos, auto-desconhecimento, dissimulação, deslocamentos de significado,
condensação de afetos incompatíveis, incapacidade de articulação de uma identidade
sexual não-restritiva — e uma série de outros mecanismos inconscientes que
sustentam nossas práticas, desejos e fantasias conscientemente reconhecidas.
Além disso, até mesmo a prática sexual obsessiva, tornada possível no horizonte
desta liberação contemporânea, torna-se índice de um recalcamento que tanto
mais empobrece a sexualidade, quanto mais tende a nos iludir sobre a liberdade
que supostamente temos concretamente. Tal como Freud já havia demonstrado em
seus primeiros escritos, a dimensão sexual inconsciente oscila entre uma
rejeição histérica e absoluta, capaz de nos fazer fugir horrorizados de formas
mínimas de exposição da sensualidade, até o aprisionamento do sujeito a seus
desejos, que não deixam margem para nenhuma forma de negação.
Talvez um dos argumentos mais fortes para
demonstrar o impacto do recalcamento do sexual seja a explicitação de um dos
(vários) significados do apelo pornográfico. A pornografia não apenas pode ter
a força suficiente para modelar o desejo sexual através de suas imagens
exuberantes, quanto tende a dispensar as pessoas do exercício investigativo de
suas próprias demandas, de suas formas singulares de prazer e fantasias. O
objeto de desejo, glorificado e repetidamente exposto em imagens espetaculares,
caminha no sentido de substituir a busca de vínculos concretos entre as
pessoas, os quais tendem a ser vistos, em contraste com a lógica pornográfica,
como empecilhos a um acesso direto e “eletrificado” para o gozo. Em certo
sentido, considerando o movimento social amplo, quanto mais pornografia,
menos sexo, na medida em que o brilho da evidência consumada do objeto como
objeto-de-desejo tende a “polir” o desejo de seu ímpeto multifacetado,
concretamente denso de contradições, mistérios e surpresas.
O cenário, entretanto, precisa ser
complementado com a tomada de consciência bem mais explícita de que o
homoerotismo, tal como pode ser perfeitamente constatado em nossas sociedades
ocidentais, é alvo de uma recusa explícita e combativa. Até poucas décadas a
prática homossexual era proibida em diversos países, e até hoje enfrenta
investidas no plano político e jurídico fortes, como na Rússia. A discriminação
social dos homossexuais está ainda muito longe de decair. Ora, será muito
difícil reconhecer que esta aversão incide também sobre todos os traços e
fantasias homoeróticas de cada pessoa? Seremos ingênuos de pensar que a
recusa da homossexualidade se restringe a essa sua faceta física mais evidente?
Não estará presente e atuante, de forma sempre dissimulada, como instâncias de
censura intimamente vivenciadas, levando a sempre afunilar e tolher o desejo,
e, na medida em que esse cerceamento se rompe, produzindo grande sentimento de
culpa? — A violência externa é apenas a face literal de uma outra praticada de
forma interna e extremamente prejudicial à riqueza dos desejos sexuais e, por
extensão, do que constitui nossa própria identidade.
Por fim, cabe dizer que a alegação de
liberdade de escolha entre abstinência ou prática do sexo ignora radicalmente o
quanto nossas consciências são moldadas por uma ideologia que, de um ponto de
vista crítico, empurra-as a coincidir com uma mentalidade coletiva, e isso de
forma tão radical que a consciência de liberdade é por demais fraca e altamente
questionável. A nossa perspectiva, em termos de crítica da cultura, deve ser
precisamente a de denunciar de forma vigorosa o processo manipulador da cultura
em sua totalidade, em vez de nos resignarmos a aceitar a perspectiva ilusória
que cada indivíduo tem sobre si mesmo. Se a cultura não lograsse este processo
de identificação radical e profundo de seus membros a ela, já teríamos
sociedades muito mais livres, justas e emancipadas. Que uma pessoa opte
“livremente” por deixar de ter relação sexual até um período tardio da vida
simplesmente pelo fato de não ter se casado não pode ser o fundamento
legitimador de si mesmo. Trata-se de um conceito de liberdade por demais abstrato,
que abstrai precisamente das condições reais de formação da mentalidade,
que toma a restrição do gozo sexual como índice de afirmação livre de si. É
imprescindível reposicionar o campo do sexual como veículo concreto de
instituição de uma identidade robusta, enriquecida, impulsionada pela riqueza
de nossas fantasias e formas de satisfação no trânsito direto com a corporeidade
e o desejo alheios.
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