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sexta-feira, 11 de abril de 2014

O recalque sexual


Desde que Michel Foucault defendeu enfaticamente sua tese de que não existe repressão sexual na época moderna e na contemporaneidade, vemos diversos intelectuais compartilharem esta ideia, alimentada em grande medida pela clara liberalização dos costumes sexuais a partir da segunda metade do século XX. A teoria do filósofo francês é complexa demais para ser abordada aqui, de modo que quero apenas argumentar de forma contrária a essa perspectiva geral de que não há mais repressão sexual, ou que ela é muito pequena, ou que ela se restrinja a algumas doutrinas religiosas coercitivas.

O contexto social, tecnológico, ético, político e até mesmo de influência das doutrinas religiosas no comportamento nos leva a dizer que a sexualidade experimentou uma expressiva liberação de diversas de suas práticas. Embora alguns grupos religiosos mais extremistas ainda apregoem a abstinência até o casamento e recebam certa acolhida por parte de seus fiéis, o ocidente (leia-se: a Europa e as Américas) já deixou há muito de considerar imoral a prática do sexo antes do matrimônio. A depender da disposição mútua, o sexo se tornou, em grande medida, um componente da vida, não mais atrelado a este compromisso de determinado estado civil. Considerando as múltiplas exposições do corpo nos meios de comunicação em massa (sem contar a facilidade de acesso à pornografia sexual explícita), costuma-se dizer que não haveria mais uma repressão sexual externa, e, considerando o desenvolvimento da consciência crítica sobre nossas opções individuais, tendemos a considerar como fruto de uma ponderação e escolha individuais aderir ou não a um regime mais liberal ou parcimonioso de entrega ao prazer sexual: casar virgem diria muito menos respeito ao fato de ser reprimido do que ter em mãos as duas possibilidades e se decidir por uma delas pelo conjunto de seus próprios valores.

Esta é uma perspectiva muito parcial, ingênua e enganosa. Há vários tipos e formas de negação da sexualidade, que residem muito aquém e além da limitação das práticas por normas morais e jurídicas, e também doutrinas religiosas. Não é de forma alguma necessário haver essas agências limitadoras, sejam elas menos ou mais interiorizadas psicologicamente, para que a sexualidade, mesmo praticada no dia-a-dia, seja bastante pobre, limitada, fraca em significado pessoal, contrarie uma afirmação mais progressista de si como indivíduo, seja acompanhada de sentimentos de culpa, remorso e auto-depreciação que não se mostram de forma clara à consciência. O universo da sexualidade envolve uma série de fatores, dinâmicas e formas de sensibilidade, desejos e fantasias muito mais perigosos de um ponto de vista de censura social do que a simples prática concreta, material.

Para entender a justificativa desse posicionamento crítico, é necessário entendermos minimamente a diferença entre repressão e recalque, que abordei em uma postagem anterior e que convido à leitura. Mesmo que aceitássemos, em princípio, a tese de que não há mais “repressão” sexual, estaríamos muito longe de dizer que não há recalque sexual. Este último diz respeito a uma mobilidade de interdições, atos compulsivos, auto-desconhecimento, dissimulação, deslocamentos de significado, condensação de afetos incompatíveis, incapacidade de articulação de uma identidade sexual não-restritiva — e uma série de outros mecanismos inconscientes que sustentam nossas práticas, desejos e fantasias conscientemente reconhecidas. Além disso, até mesmo a prática sexual obsessiva, tornada possível no horizonte desta liberação contemporânea, torna-se índice de um recalcamento que tanto mais empobrece a sexualidade, quanto mais tende a nos iludir sobre a liberdade que supostamente temos concretamente. Tal como Freud já havia demonstrado em seus primeiros escritos, a dimensão sexual inconsciente oscila entre uma rejeição histérica e absoluta, capaz de nos fazer fugir horrorizados de formas mínimas de exposição da sensualidade, até o aprisionamento do sujeito a seus desejos, que não deixam margem para nenhuma forma de negação.

Talvez um dos argumentos mais fortes para demonstrar o impacto do recalcamento do sexual seja a explicitação de um dos (vários) significados do apelo pornográfico. A pornografia não apenas pode ter a força suficiente para modelar o desejo sexual através de suas imagens exuberantes, quanto tende a dispensar as pessoas do exercício investigativo de suas próprias demandas, de suas formas singulares de prazer e fantasias. O objeto de desejo, glorificado e repetidamente exposto em imagens espetaculares, caminha no sentido de substituir a busca de vínculos concretos entre as pessoas, os quais tendem a ser vistos, em contraste com a lógica pornográfica, como empecilhos a um acesso direto e “eletrificado” para o gozo. Em certo sentido, considerando o movimento social amplo, quanto mais pornografia, menos sexo, na medida em que o brilho da evidência consumada do objeto como objeto-de-desejo tende a “polir” o desejo de seu ímpeto multifacetado, concretamente denso de contradições, mistérios e surpresas.

O cenário, entretanto, precisa ser complementado com a tomada de consciência bem mais explícita de que o homoerotismo, tal como pode ser perfeitamente constatado em nossas sociedades ocidentais, é alvo de uma recusa explícita e combativa. Até poucas décadas a prática homossexual era proibida em diversos países, e até hoje enfrenta investidas no plano político e jurídico fortes, como na Rússia. A discriminação social dos homossexuais está ainda muito longe de decair. Ora, será muito difícil reconhecer que esta aversão incide também sobre todos os traços e fantasias homoeróticas de cada pessoa? Seremos ingênuos de pensar que a recusa da homossexualidade se restringe a essa sua faceta física mais evidente? Não estará presente e atuante, de forma sempre dissimulada, como instâncias de censura intimamente vivenciadas, levando a sempre afunilar e tolher o desejo, e, na medida em que esse cerceamento se rompe, produzindo grande sentimento de culpa? — A violência externa é apenas a face literal de uma outra praticada de forma interna e extremamente prejudicial à riqueza dos desejos sexuais e, por extensão, do que constitui nossa própria identidade.

Por fim, cabe dizer que a alegação de liberdade de escolha entre abstinência ou prática do sexo ignora radicalmente o quanto nossas consciências são moldadas por uma ideologia que, de um ponto de vista crítico, empurra-as a coincidir com uma mentalidade coletiva, e isso de forma tão radical que a consciência de liberdade é por demais fraca e altamente questionável. A nossa perspectiva, em termos de crítica da cultura, deve ser precisamente a de denunciar de forma vigorosa o processo manipulador da cultura em sua totalidade, em vez de nos resignarmos a aceitar a perspectiva ilusória que cada indivíduo tem sobre si mesmo. Se a cultura não lograsse este processo de identificação radical e profundo de seus membros a ela, já teríamos sociedades muito mais livres, justas e emancipadas. Que uma pessoa opte “livremente” por deixar de ter relação sexual até um período tardio da vida simplesmente pelo fato de não ter se casado não pode ser o fundamento legitimador de si mesmo. Trata-se de um conceito de liberdade por demais abstrato, que abstrai precisamente das condições reais de formação da mentalidade, que toma a restrição do gozo sexual como índice de afirmação livre de si. É imprescindível reposicionar o campo do sexual como veículo concreto de instituição de uma identidade robusta, enriquecida, impulsionada pela riqueza de nossas fantasias e formas de satisfação no trânsito direto com a corporeidade e o desejo alheios.

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