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sexta-feira, 16 de maio de 2014

Erotismo, interdição e culpa


O erótico se nutre do sexual, mas não se resume a ele, existindo na exata proporção com que este se mostra inadequado e em descompasso consigo mesmo. Somente pelo fato de o sexual não se reduzir ao natural e, ao mesmo tempo, ser vivenciado como excessivo e intimamente em desajuste com o nosso senso pessoal, nosso próprio eu, somente nesse momento de dupla diferença interna é que o erótico pode florescer. Um dos elementos culturais mais propriamente determinantes da mobilidade erótica do sexual é a interdição, a promulgação dos sentimentos de vergonha, culpa e remorso no vínculo como a nudez e o comércio pervertido com o corpo e o gozo do outro. Assim, o erótico ganha seu poder de excitação, sua atratividade propriamente dita, pelo vigor das atitudes transgressivas, como na orgia, no adultério, nas inversões sexuais, nas perversões, nos fetiches etc. Meu objetivo é desdobrar um pouco de cada um desses conceitos, mostrando ao final o papel do cristianismo nesse cenário.

A reprodução humana é sexuada, mas sua sexualidade não é reprodutiva, pois o que impele ao sexo e o que dá seu sentido mais próprio, em nossa espécie, não é o instinto de reprodução, mas sim a busca de prazer. Isto significa, entre outras coisas, que o prazer sexual humano é desviante, múltiplo, adquire várias formas e pontos de apoio na corporeidade. Virtualmente toda parte do corpo pode produzir uma estimulação e uma excitação, tornando-se uma zona erógena. Considerando a gênese da sexualidade na primeira infância, a cada experiência de estimulação deverá corresponder uma série de imagens, cenas, fantasias, que visam fixar imagética e imaginariamente essas quantidades de afeto que podem ser vividas facilmente como excessivas, traumáticas, em virtude da radical fragilidade de um ego ainda muito incipiente. Como as imagens, cenas e fantasias são qualitativamente distintas das excitações e estimulações que elas procuraram fixar, logo toda sexualidade será sempre marcada por uma distância muito grande entre o âmbito das representações e a vivência concreta de nossas satisfações.

O erotismo surge como uma forma de canalização e ao mesmo tempo de resposta à desconexão e descompasso entre o âmbito representativo e dos afetos, da corporeidade, da excitação. Ele se pauta pela promessa, busca e tentativa de recusa da sedução, sendo marcado, assim, pela lógica do comércio e das trocas de mensagens que, elas mesmas, desconhecem o princípio de sua consistência mais substantiva. A obscuridade da sedução é exatamente a mola propulsora do erotismo, que precisa sempre negociar os diversos graus de evidência do sexual, de sua recusa, de sua distância em relação ao desejo.

Sendo o erótico um comércio e uma troca de mensagens sedutoras baseadas na obscuridade e descompasso do sexual, ele se estabelece como uma “ciência” e uma técnica que quer produzir o sexo e compreendê-lo na medida em que o apreende nas vias de sua evidenciação. Se quisermos, trata-se de um da certa pedagogia, no sentido etimológico de uma condução e captação do que há de infantilmente obscuro no desejo rumo à sua consumação na prática e na consciência de si. Como, entretanto, nenhuma pedagogia existe sem a ligação sempre renovada com as proibições, os limites e fronteiras do agir, aqui também o interdito é um elemento fundamental, e marca, no plano coletivo, um reforço absolutamente significativo na opacidade do sexual. Todos os tabus e interdições que pesam sobre o sexo, variando de cultura para cultura, como do incesto, da nudez, da poligamia, das perversões, tal como a pedofilia, a zoofilia etc., reforçam a obscuridade do sexual, instituindo formas social e historicamente determinadas de inacessibilidade a ele. Elas codificam, no plano da cultura, uma ambiguidade constitutiva do sexual, a saber, de atração e de repulsa, de prazer e de angústia, de incitamento ao saber e a seu enigma.

Muito do prazer erótico pode ser conceituado como um plus em relação ao sexual por trafegar na porosidade dos interditos, relembrando-os para, assim, evidenciar sua ruptura como símbolo e imagem de acesso ao subterrâneo sexual de nosso psiquismo. Romper a proibição configura-se, deste modo, como uma espécie de metáfora cultural para a ruptura do corpo do outro. Penetrar e ser penetrado são uma das primeiras formas de metáfora suficientemente amadurecidas para o complexo misterioso e descompassado entre a torrente de estimulação e excitação das primeiras experiências com o mundo e as vias fantasísticas de sua fixação. A ruptura do interdito seria um outro nível de metaforização, de deslocamento metafórico. Neste plano, romper um tabu, enfrentar a vergonha da nudez, praticar a poligamia, significa sempre, ao mesmo tempo, uma erótica de um corpo coletivo, tornado assim comensurável à dinâmica individual das mensagens sexuais.

A interdição só possui sentido em virtude da transgressão, pois, como mostrou Freud de forma enfática, somente se proíbe o que já se sabe como objeto de desejo. O incesto, sendo um tabu universalmente presente em todas as civilizações até hoje conhecidas, deve corresponder a um desejo cuja força e presença são proporcionais a sua universalidade. Por outro lado, no que concerne ao erotismo, o interdito tem seu sentido na transgressão pelo fato de que toda proibição parece ser feita para ser transgredida. A questão que se coloca sempre é: o quanto e qual interdição queremos transgredir? O quanto de robustez emocional precisamos para atravessar o interdito e “sobreviver”?

É de sobrevivência, afinal, que se trata na lógica cultural dos interditos. Diante das ameaças de ruptura, de desconhecimento e de perdição presentes na incerteza do redemoinho sexual, a cultura do ocidente codificou o sagrado como o que é puro e imaculado. O reino do espírito em- e para-si deverá ser eximido das ambiguidades e da virulência do erótico-sexual. Embora isso nos pareça evidente, tendo em vista a milenar formação cristã de nossas sociedades, nem sempre foi assim. Em muitas mitologias e religiões primitivas, a sexualidade foi tomada como força propulsora de diversos de seus símbolos, de tal forma que o sagrado absorvia toda a ambiguidade violenta, dilacerada e enigmática da sexualidade, e sua transcendência exprimia a celebração do gozo e da dor como componentes inalienáveis do mistério da existência. No cristianismo, ao contrário, em vez de uma projeção da força transgressiva do sexual, o sagrado passou a significar a recusa da ambiguidade, a negação da atitude erótica transgressiva em sua própria legitimidade de existência.

O cristianismo, no entanto, tem a sua erotica. Deve-se amar ao próximo como a si mesmo, deve-se amar ao inimigo, ou seja, a quem nos faz mal, deve-se amar a Deus acima de todas as coisas. Trata-se de um amor, obviamente, espiritualizado, universal, descarnado não apenas de seus componentes erótico-sexuais, quanto de uma dupla singularidade: de quem deseja e do objeto desejado. Ama-se de tal forma que não entre em jogo o desafio em relação à particularidade com que ao mesmo tempo desejo e recuso minha própria excitação, meu gozo. Em vez de tal erótica se nutrir da incerteza do quanto o outro efetivamente pode entrar como um dos polos das trocas enigmáticas de mensagens sexuais, funda-se na certeza prévia de um amor cuja motivação mais substantiva é a de garantir a definição hiper-moralizada de si mesmo como quem ultrapassa radicalmente a ambiguidade, o perigo e as aventuras do erótico-sexual. De forma análoga a como não se deve resistir ao mal, lutar contra o inimigo, para assim esvaziar a legitimação de existência da força, o amor universal cristão quer anular toda legitimidade transgressiva do erótico, dissolvendo-a na idealização sublime de um coração puro.

Em vez da ambiguidade intrínseca de todo sexual, o cristianismo divide radicalmente o erótico na pureza do coração e na mácula abjeta do pecado. Tal como as cartas de Paulo colocam enfaticamente, embora a Lei seja fundadora do pecado, este pré-existe a ela, como índice da impureza do próprio desejar como tal. Assim, a força da transgressão erótico-sexual é anulada na polaridade maniqueísta do amor universal puro e no enraizamento do desejo no pecado. Em vez da progressividade cultural das trocas das mensagens eróticas, o que se tem é um princípio hiperbólico de correção, culpa e remorso indefinidamente reafirmado em todas as práticas de martírio, confissão e penitência. A atitude confessional é o exato oposto e simétrico do erotismo transgressivo, pois a explicitação imagético-discursiva do sexual como pecado e crime a ser pago pretende colocá-lo sob o estigma de uma existência já desde sempre recusada, inválida. Ela incita, sim, a se lembrar do sexo, tal como enfatiza Michel Foucault em seu livro A vontade de saber, mas isso deve ser articulado por nós, ao contrário do que faz o filósofo francês, no registro de uma culpabilidade eternamente tomada como testemunha do caráter abjeto, repugnante e deplorável do que há de transgressivo e, portanto, de erótico na sexualidade.

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