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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um exemplo de populismo


O conceito de populismo, tal como vários outros em ciências humanas, obtém um consenso muito mais fácil em seu delineamento teórico e do que em suas aplicações nos casos concretos. Apesar das diferentes formas de ele ser concebido, creio que haja suficiente acordo em ligá-lo a estratégias demagógicas, ou seja, de manipulação de grandes camadas populares, propiciando a elas vantagens e benefícios ilusórios, no sentido de não serem substanciais para uma ascensão sócio-econômica auto-sustentada e que poderiam ser bem mais significativos, caso houvesse um interesse “real” de favorecimento dessas classes. O grande problema reside em demarcar o que é ou não demagógico, ilusório.

O exemplo mais claro para a discussão deste tópico atualmente no Brasil são os programas de distribuição de renda direta dos governos Lula e Dilma, como o bolsa-família. Muitos argumentam que se trata apenas de uma estratégia astuciosa de cooptação de milhões de pessoas, oferecendo-lhes uma remuneração que pouco contribui para lutar contra condição real de miséria. Seus defensores, por outro lado, insistem na necessidade de um apoio financeiro direto mínimo para essas camadas populares, que sempre estarão atrasadas demais no processo de absorção dos benefícios da produção de riqueza global do país. — Meu objetivo aqui, entretanto, não é me posicionar em relação a este caso, mas a um outro, mais localizado e com uma repercussão social de menor grandeza: o sistema BRT Move implantado pela prefeitura de Belo Horizonte a partir de 2013.

Trata-se de um sistema viário constituído em boa parte por ônibus luxuosos, com ar-condicionado, acentos confortáveis, suspensão aperfeiçoada, em sua maioria compostos por dois vagões articulados, e que possuem privilégios de circulação em importantes avenidas de Belo Horizonte. O princípio que norteia este projeto está muito claro: dar uma resposta clara e evidente às rotineiras queixas de desconforto, vagarosidade e superlotação do transporte coletivo. Esses novos veículos prometem o exato contrário de cada uma dessas três características, e isso não apenas por suas próprias características, mas também pelo fato de ocuparem um espaço na malha viária que antes era destinado aos ônibus comuns e carros. A avenida Antônio Carlos, por exemplo, havia sido recentemente duplicada, encurtando consideravelmente o tempo de deslocamento entre a zona norte e o centro da cidade, tanto para ônibus quanto para carros. Com o Move, as duas pistas centrais, com duas faixas cada uma, foram integralmente reservadas aos veículos do BRT, transferindo-se todas as linhas de ônibus comuns, bem como os táxis, para as pistas laterais. O resultado concreto pode ser visto nas duas fotos abaixo, tiradas em épocas diferentes. 

Pista do BRT Move à esquerda e tráfego comum, à direita, na Av. Cristiano Machado, Belo Horizonte, março/2014
 
Duas pistas para o BRT Move, e as dos demais veículos à direita e à esquerda, na Av. Antônio Carlos, Belo Horizonte, em maio/2014

Este sistema foi apresentado como projeto à cidade exatamente nos meses que precederam a última eleição municipal, em 2012. Pode-se dizer que foi ele o grande trunfo para a reeleição do prefeito Marcio Lacerda. Seu apelo popular é inequívoco, uma vez que os benefícios se dirigem precisamente às camadas de baixa renda, que precisam dos ônibus para seu deslocamento. De meu ponto de vista, entretanto, trata-se de um empreendimento tipicamente populista, e mais especificamente, de direita.

Embora ainda esteja em fase inicial de implantação, podendo ter diversos ajustes e alterações substantivas (dentre as quais o aumento do número de carros do BRT para substituir os ônibus comuns que trafegam nas pistas laterais das grandes avenidas), o espírito que anima este sistema parece-me tipicamente de direita: megalomaníaco, vistoso, para encher os olhos com seu brilho e exuberância, deixando na sombra os problemas estruturais crônicos. Um transporte viário rápido teria que desafogar as ruas, dando mais espaço para ônibus circularem (e também carros), como o metrô subterrâneo ou o suspenso, como em algumas cidades na Alemanha. Em vez de dar mais espaço para o trânsito já existente, o que se fez? Retirou-se o já exíguo espaço dos ônibus comuns e carros!!! Em suma: criou-se um veículo caro, luxuoso, que passa a trafegar ocupando de forma desavergonhada o espaço que seria de usuários do transporte coletivo, para representar com toda a pompa do mundo o que seria uma ênfase no transporte coletivo. Em larga medida, temos uma exibição simbólica que pretende, com seu brilho incontestável, dar visibilidade a um governo comprometido com a manutenção de um sistema viário caótico, dominado pelos cartéis de ônibus.

Espero vivamente que o aumento do número de unidades do BRT alivie o grave problema de congestionamento nas pistas laterais das grandes avenidas, substituindo ao máximo possível os ônibus comuns. Por mais que isto tenha bom resultado, entretanto, os problemas estruturais de deslocamento na região central ainda permanecerão. Creio que todos os esforços vão convergir para que o BRT funcione, de modo a se tornar uma vitrine exuberante para atestar aos olhos de todos (não apenas na cidade, mas no estado) a eficiência de um projeto político, independente de se uma grande parte da população não puder ser servida por essas linhas super especiais, tendo que se resignar a sofrer seus efeitos colaterais de desajuste do fluxo normal do trânsito, que na verdade está longe de ser “normal”. — Não é difícil imaginar o que será uma próxima campanha eleitoral, como ao governo do estado, por exemplo, em que se poderão fazer várias e várias entrevistas com quem se beneficia diretamente do BRT, desconsiderando solenemente todos os que passaram a ter uma viagem de ônibus mais lenta ainda devido a seus efeitos colaterais.

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Um comentário:

Alexandre disse...

Cabe lembrar que mesmo aqueles que passaram a fazer uso do BRT tiveram seu tempo de viagem estendido. As novas linhas destinadas aos bairros da Zona Norte, por exemplo, continuam sucateadas e demoram um tempo considerável para chegar à Estação Pampulha. Na Estação, as filas para a compra do bilhete são enormes e os BRTs saem sempre abarrotados. Os ônibus são, de fato, mais confortáveis, mas, como se mantém a mesma lógica de transporte de gado utilizada pela BHTrans, esse conforto acaba sendo anulado. Aliás - e entro aqui no rol das especulações -, duvido muito que a referida empresa fará a manutenção adequada desses veículos após as Eleições.
Parabéns pela iniciativa em procurar refletir sobre questões que permeiam nosso cotidiano!