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sexta-feira, 2 de maio de 2014

A psicologia do redentor, segundo Nietzsche


Hoje gostaria de aproveitar o espaço do blog para postar o texto de uma palestra que proferi em 29/04/2014 no evento “Filosofia e religião”, promovido pelo Programa de Educação Tutorial do departamento de Filosofia da UFMG.

Em O anticristo, Nietzsche empreende uma violenta crítica ao cristianismo. Entre os vários momentos de sua argumentação, um dos mais significativos é a caracterização que o autor faz de uma tipologia de Jesus, pretendendo resgatar filosoficamente o que teria correspondido à mensagem evangélica do Cristo, em flagrante contraste com a doutrina de Paulo e de todas as igrejas e seitas cristãs posteriores. Essa parte do texto está nos aforismos de 28 a 35, depois da apresentação geral da crítica ao cristianismo, da análise do vínculo entre este último e o judaísmo, bem como de sua relação com o budismo, e antes da crítica ao cristianismo histórico, que se inicia após a morte de Jesus.

Crucificação. Gravura digital. Verlaine Freitas
Ao falar do “tipo psicológico” do redentor, Nietzsche exclui um interesse histórico-científico, pois escritos teológicos e hagiográficos (biografia de santos) são os mais sujeitos a deturpações e manipulações interessadas, com vistas ao poder. Os seguidores de todo grande mestre sempre têm uma enorme dificuldade de perceber e relatar o que há que verdadeiramente novo e original nele, não se apercebendo o quanto eles se colocam nessa narrativa. Além disso, na medida em que a seita nascente precisou de um teólogo para lutar contra os teólogos judeus, não se pode excluir a ideia de que foram bem mais os discípulos que tomaram a Jesus como santo, salvador e Messias do que ele próprio.

O interesse de Nietzsche é, assim, falar não propriamente da dimensão histórica, real, da vida de Jesus, mas sim do que poderia ser seu tipo psicológico, que ainda deve poder ser visto de um ponto de vista filosófico apesar de toda deturpação provocada pelos evangelhos, que são por sua vez o único veículo substancial para se ter acesso à mensagem de Jesus. Trata-se, assim, de uma figuração filosófica abstrata, no sentido de se colocar como uma das várias tentativas possíveis de se tentar ler além dos evangelhos através deles.

Nietzsche recusa inicialmente a atribuição dos conceitos de gênio e herói que Ernest Renan faz a Jesus (em seu livro La vie de Jésus). O conceito de herói não cabe em virtude do princípio máximo do evangelho de não resistir ao mal, de se recolher em relação a toda inimizade e luta no mundo. A boa nova significa propriamente esta recusa do enfrentamento com o real, o recolhimento em si mesmo, em um coração puro que corporifica toda a bondade concebida como reino de Deus. Em vez da instauração e do regozijo com a diferença do e no exercício da força, que qualifica propriamente a atitude heróica, tem-se a universalização de um princípio radicalmente individual. Em função disso, o outro conceito, de gênio, também se mostra inadequado, pois, em vez da criação de um mundo novo, da criatividade propriamente falando, tem-se o egoísmo negativo, da retroação perante tudo o que possa ser sinal de dor, sofrimento, luta, poder e transgressão (e de realidade!). De forma simétrica ao egoísmo positivo (que é o de somente se preocupar consigo e querer acumular a maior satisfação possível em detrimento dos outros), o negativo é marcado pela recusa querer, e de se preocupar com, qualquer outra coisa além de sua própria paz interior: recusa-se tudo o que, externamente, possa perturbar esse estado de espírito. É preciso anular, por uma atitude de retraimento máximo, toda possibilidade de o mal ser reconhecido não apenas em sua legitimidade, mas em sua própria realidade.

A origem deste movimento de retroação interiorizada seria uma condição fisiológica de hiperestesia, de extrema sensibilidade e aversão à dor, a qualquer sensação que possa vir a irritar. Disso decorre um ódio em relação à realidade como um todo. Não resistir ao inimigo, recusá-lo de antemão como tal, não o enfrentar, significa negar a realidade em seu potencial de ruptura em relação a uma suposta paz de espírito alcançável por este recolhimento. Trata-se de um tipo de hedonismo, mas, uma vez mais, negativo: um prazer concebido como negação máxima de toda possibilidade de dor, desprazer, maldade, luta e transgressão.

Nem fanatismo, nem luta, nem qualquer forma de negação cabe no tipo psicológico do salvador. A boa nova significa uma infantilidade do coração e da vida como fatos alcançáveis por qualquer um através de uma pura (disposição) prática. Que o Reino de Deus pertença às crianças significaria a anulação de toda maturidade como requisito para se compreender a “Verdade” que Jesus quis trazer ao (ou fazer-se para o) mundo. Não há a necessidade de nenhuma prova, de nenhuma demonstração rigorosa dessa verdade ou de absolutamente nada afirmado por ele, pois o próprio Cristo é sua prova, sua maravilha, sua recompensa, e cada um pode compartilhar esta graça através de uma fé que não é conquistada por esforço, que não recebe nenhuma formulação que necessite de conhecimento prévio, bastando para isso apenas o coração purificado. Embora toda a mensagem evangélica se sirva de conceitos, palavras e metáforas, nada deve ser tomado literalmente, de forma fixa e determinada, mas tão-somente como símbolos, alegorias, metáforas, como aliás tudo o mais que é externo à própria interioridade de um coração puro.

Jesus seria, através de uma atribuição alegórica, um espírito livre, mas na verdade por negação preestabelecida (por uma prática) de tudo o que é signo de aprisionamento, de fixidez para o espírito, de ressentimento.

A psicologia do evangelho (de Jesus) desconhece os conceitos de culpa, punição, recompensa e pecado, pois esses conceitos representariam uma distância entre o indivíduo e Deus que é anulada precisamente pela boa nova, a saber, que o Reino de Deus está em nós. A felicidade, a beatitude, não está distante daquilo que cada ser humano é em seu sentido mais próprio, a saber, um filho de Deus, de modo que tudo mais é apenas um veículo para se falar desta única realidade. Todo o evangelho se resume, assim, em uma prática, em um modo de vida, em uma luz interior que não necessita nem sequer de uma crença em sentido mais forte do termo em relação a uma transcendência. Disso decorre a não necessidade de diferenciar os homens por sua raça, nacionalidade, de não repreender nem punir a ninguém (veja-se o caso da adúltera perdoada).

Toda a dimensão doutrinária e ritualística do judaísmo foi anulada com essa prática de vida cristã, em virtude do fato de que nem sequer a oração foi tomada como necessária, pois cada um já é divino, bem-aventurado, “evangélico”, ao agir segundo uma prática em que se percebe como filho de Deus, ou o próprio Deus. Todo o ideal de purificação dos pecados, de salvação através da fé dos judeus foi abolido por esta prática interiorizada. Jesus não precisava negar absolutamente nada pelo fato de que sua própria prática já significava a recusa “a priori” do mundo.

Como consequência disso, tem-se que toda a dogmática cristã de um Reino de Deus para além da vida, de um porvir de um juízo final, da virgindade de Maria, da concepção de Deus como pessoa etc.: tudo isto significa um atentado ao evangelho de Jesus, que somente conhece como realidade a interna, tomando tudo mais como mero veículo de significação simbólica. Para ele, a palavra “Filho” significa este passo de assunção rumo de um sentimento da transfiguração total das coisas, a beatitude, e a palavra “Pai” significa este próprio sentimento da eternidade, da beatitude em sua consumação. “Filho” seria a singularidade do estar-disposto a, do agir, do caminhar; “Pai” seria a universalidade conquistada intimamente pelo sentimento de pertença ao âmbito macro dos que assim vivem.

Jesus morreu tal como viveu e ensinou: sem lutar contra nada, sem tentar evitar nada que o afligisse, mesmo a mais injusta das acusações, e na verdade exigia que ela fosse praticada contra ele. Não apenas não se defender e não lutar contra o inimigo, mas amá-lo, acolhê-lo intimamente em seu coração: é isso que representa a morte na cruz, que deveria simbolizar, pela prática assumida da desistência de luta, a morte do mal. Ao contrário do que Paulo pregou, Jesus não veio ao mundo para salvar os homens de seus pecados, mas isso não simplesmente é falso perante o evangelho, pois, de certa forma, a prática cristã (originária) quer anular o pecado do mundo através de sua absorção na renúncia a lutar contra ele. Nesse sentido, todo cristão “salva todos os homens de seus pecados”, se age como o Cristo: absorvendo todos os males e morrendo com eles!

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2 comentários:

Julia Machado disse...

Gostei muito dos texto. Você traz questões fundamentais sobre o cristianismo. Obrigada.

Verlaine Freitas disse...

Fico contente que tenha gostado, Julia. Obrigado por seu retorno.