Quando a fotografia e o cinema surgem, as artes
tradicionais, como poesia, pintura e música entravam em um processo radical e crescente
de abstração. Exemplificado de forma enfática nos quadros de Kandinsky e Mondrian,
a pintura queria encontrar a si mesma depurando-se tudo o que não era o
pictórico por excelência. Não apenas a figuração tornou-se relegada a um
segundo plano, quanto até mesmo o senso de totalidade visual cedeu lugar a um
experimentalismo, na busca do que o ponto, a linha e o plano poderiam oferecer
por si mesmos; era necessário extrair da materialidade da cor toda a
espiritualidade que os quadros narrativos no período barroco, clássico e
romântico prometiam.
Os meios técnicos foto- e cinematográfico produziram nesse
horizonte um impacto considerável como uma contra-corrente,
em virtude de seu poder figurativo, mimético, representacional. Isso foi em
grande medida nuançado por linguagens artísticas expressionistas, como no
cinema alemão inicial, em que a ausência de cor e de som ainda marcava um
espaço de abstração a ser preenchido pela atividade imaginária do espectador.
Embora a fotografia também represente a realidade de forma bem mais fácil do que
a pintura e com uma relação de intimidade inigualável para os padrões técnicos da
época em que surgiu, seu caráter estático ainda convidava a uma atitude de
diálogo, de interação de mão dupla. O cinema, ao contrário, arrastando a
narrativa para dentro de seu potencial pictórico (pelo menos tal como se
consolidou em sua história), pareceu cada vez mais se impor maciçamente por
sobre a capacidade de configuração imagética subjetiva.
As primeiras experiências estéticas com o cinema devem ter tido
de fato um significado próximo ao que foi descrito por Walter Benjamin como de
choques perceptivos, através de uma sucessão nunca antes percebida na arte que
fazia síntese de todas as outras, como a ópera. Esta última ainda transcorria
no mesmo tempo do espectador, enquanto o cinema institui a sua própria temporalidade,
que pode ser muito mais lenta, pouco mais rápida, muito mais acelerada,
descontínua, regressiva, entrecortada etc. O mesmo ocorre na relação entre imagem
e som, pois até então música, imagem e texto formavam uma continuidade
aglutinada ao redor de um desses três elementos, enquanto no cinema, com sua
estratégia de montagem, isso não necessariamente se realiza. A sonoridade pode
romper a atmosfera emocional de uma sucessão de cenas, produzindo um efeito de
estranhamento que tanto mais reforça o peso impositivo da tela sobre o
espectador.
Já muito se falou do cinema como uma máquina de realização
de sonhos. Isso se dá não apenas devido a seu potencial figurativo, pois já na
envolvência da sala de cinema temos algo que concretiza isso de forma literal. Estar
circundado por um ambiente escurecido, tendo à frente uma imagem em movimento
reproduz de forma impressionante a própria atividade de quem sonha, mergulhado na
escuridão do sono e, em vez de contemplar suas imagens oníricas, vivencia-as
como se fossem a única realidade.
Tudo é muito forte e “denso” no cinema com um poder
gravitacional que acolhe, processa e devolve expectativas de vivências pessoais
e coletivas que produzem o típico impacto do que Nietzsche chamava de apolíneo, a saber, uma transposição
contínua de planos de realidade, de tal forma que um parece revelar uma verdade
oculta dos anteriores. Sucessos de bilheteria como Avatar e Matrix devem
muito de sua calorosa recepção ao modo como exploraram exaustivamente esse
“milagre” cinemático de comércio incessante entre planos de realidade,
replicando na tela o que esta representa perante a realidade empírica. De forma
análoga a como o sonho, de acordo com a teoria psicanalítica, nos revela
desejos e censuras inconscientes, o cinema nos arranca da pobreza semântica da
realidade empírica e nos situa como um personagem que atua como voyeur de todos
os outros. O filme A janela indiscreta,
de Alfred Hitchcock, pode ser lido como uma metáfora do que todo filme de
cinema é.
Apesar de a leitura de Theodor Adorno sobre o filme me
parecer pouco frutífera em diversos aspectos, é significativa sua observação de
que muito do que na literatura é vivido de forma progressiva mostra-se de difícil
assimilação no âmbito do cinema. O exemplo que me parece mais claro,
recentemente, é o filme O curioso caso de
Benjamim Button, em que o personagem principal nasce idoso e com o passar
do tempo vai ficando mais jovem. Conceber esta estranha metamorfose na
imaginação, ao ler o romance homônimo de F. Scott Fritzgerald, possui de fato
um estatuto estético muito diferente do que ver concretamente a produção
cinematográfica de um bebê com todas as feições de um idoso. Além disso, a
dramaticidade envolvida em um velho que tem o corpo de uma criança dificilmente
é percebida em seu teor próprio, ou seja, como algo trágico, adquirindo facilmente
afeição de algo ridículo, pois, afinal de contas, como sentir compaixão para
com uma pessoa que vai ficando cada vez mais bonita e com a pele cada vez mais
lisa etc.?
Em função dessas vicissitudes, as estratégias de recorte,
rompimento da linearidade narrativa e temporal, a justaposição de imagens e
cenas entrecortadas, enfim, a exacerbação e desdobramento do teor
plástico-imagético do filme sempre pareceu um recurso disponível ao cineasta
para, por assim dizer, achatar, tornar plano, aquilo que é envolvente devido à sua
profundidade. Se a pintura se tornou abstrata pelo fato de ter subtraído de si
a figuração, o cinema tem na abstração do aprofundamento narrativo da
continuidade temporal um de seus pontos de apoio para devolver para si a sua
realidade-tela. Nesse momento, é como se o filme se demorasse sobre a
inevitabilidade do decurso temporal, comentasse a si mesmo, duplicando esta
materialidade, passando a emular a música, que existe na relação entre repetição
e diferença para compor um sentido proveniente da existência sonora antecipada,
tensionada e por fim resolvida.
Naturalmente, nem todas as propostas fílmicas progressistas passam
por esse tipo de estratégia, sendo ela apenas uma que demonstra essa tomada de
consciência do filme sobre sua realidade constitutiva material. Ela, por outro
lado, pode se tornar facilmente um clichê, principalmente em vídeos, em que
vemos claramente o decurso narrativo do filme ser reduzido ou limitado a essa
situação auto-referente do filme como pedaços de tempo que são justapostos de
forma caleidoscópica. Não é por mero acaso que este é o tipo de procedimento
mais usualmente empregado em video-clipes de músicas de indústria cultural.
Entre o peso cenográfico aprofundado de uma narrativa que se encorpa na
passagem do tempo e a planura de fragmentos pseudo-musicais que duplicam a tela
para reafirmar-se em sua realidade própria: o cinema define-se em certa medida
por oscilar entre esses dois polos.
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