Todos nós sabemos perfeitamente o quanto muita gente “reclama”
de perda de espaço, de individualidade, quando em um relacionamento amoroso
(particularmente, é claro, no casamento). Ora, se isso ocorre, significa dizer
que não apenas “a relação em si” corrói este espaço de nossa singularidade,
quanto — e essa é a minha perspectiva — existe um gosto, um gozo, bastante
comum de realizar uma colonização predatória do espaço do outro em que sua
diferença, o gosto de ser si-mesmo, pode se fazer. A velha atitude de moldar e
modelar o outro tal como gostaríamos que ele fosse parece ser nutrida, em sua
base, por este desejo devorador da diferença que nos leva a querer que o outro
se “desacostume” a ser ele mesmo.
Em termos práticos, isso pode ser visto em ação desde as
primeiras trocas de alguma forma de intimidade, em que, ao vermos uma atitude
ou um modo de ser que nos parece estranho, bizarro ou um desperdício, dizemos: “Nossa!
Você gosta de fazer isso desse jeito, hein!”, ou: “Como você deixa essas coisas
sempre nesse estado!”. Pronto. Já está feita a primeira colonização de um
espaço de idiossincrasia, de uma singularidade improdutiva, relapsa ou
estranha. Foi feita a primeira tentativa de saneamento das “ervas daninhas” que
povoavam o nicho ecológico alheio. — Não resta dúvida que tudo é feito na mais
absoluta consciência esclarecida e, ao mesmo tempo, ingênua de sabermos o que é
melhor para o outro a partir de nosso olhar objetivo, não totalmente mergulhado
na complacência conivente que a outra pessoa tem de seus próprios pecadilhos
cotidianos.
Não se nega em absoluto o potencial benéfico da crítica,
pois ninguém recusa o princípio geral de que é bom melhorar a si mesmo a partir
de uma perspectiva sensata vinda de outrem, que consegue se aperceber do que
nós realmente não conseguimos. O problema reside no fato de que, em uma grande
quantidade de vezes, este valor objetivo da crítica é posto a funcionar sob o
impulso de saneamento das “máculas”, inaptidões, desperdícios, bizarrices, que,
todas juntas e reunidas, perfazem o que nós chamamos de individualidade.
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