Nietzsche desconfiava muito do poder, do valor e da
veracidade da consciência. Chegou ao extremo de dizer que não existe
causalidade intelectual, ou seja, que não são crenças e ideias, mas sim apenas
o próprio querer, o impulso, que gera ações. Essa desconfiança é compartilhada
em larga medida pela psicanálise, que vê nos estratos mais superficiais e
conscientes de nosso psiquismo apenas a ponta do iceberg de fenômenos muito
mais intrincados e complexos, que permanecem inconscientes.
Essas perspectivas sempre me veem à cabeça quando da leitura
de determinadas críticas contundentes ao nosso modo de vida, cujo impacto às
vezes é tão grande que geram a percepção de que não há saída, de que somos
condenados a modos de vida medíocres, alienados, pobres espiritualmente etc. Um
modo recorrente de manter a validade dessas críticas é lançar mão da ideia de
que nos tornarmos conscientes desse estado de coisas já nos colocaria em um
patamar substancialmente diferenciado em relação a quem está imerso em toda a
dinâmica, mas não reflete sobre ela. Hegel já havia empregado isto inúmeras
vezes em sua concepção dialética da realidade, dizendo, por exemplo, que o
homem é um animal, mas a consciência de sua animalidade o retira deste mesmo
plano, elevando-o à espiritualidade própria da cultura. No tratamento
psicanalítico isso também ocorre, na medida em que a consciência dos sintomas é
um passo necessário para sua superação.
Ocorre que muitas vezes tal conscientização não significa
nem sequer um passo, mas apenas a abertura dos olhos, que nada mais fazem do
que contemplar toda a situação como uma realidade, um fato, uma fatalidade. O
que deveria fornecer a percepção de necessidade de agir, de mudar, acaba
gerando apenas a satisfação narcisista de saber-de-si. Nesse momento, o
ser-consciente está para a realidade de vida assim como o atestado está para o
óbito: apenas testemunha e confirma o que está dado.
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