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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Insuficiência crônica


Nietzsche desconfiava muito do poder, do valor e da veracidade da consciência. Chegou ao extremo de dizer que não existe causalidade intelectual, ou seja, que não são crenças e ideias, mas sim apenas o próprio querer, o impulso, que gera ações. Essa desconfiança é compartilhada em larga medida pela psicanálise, que vê nos estratos mais superficiais e conscientes de nosso psiquismo apenas a ponta do iceberg de fenômenos muito mais intrincados e complexos, que permanecem inconscientes.

Essas perspectivas sempre me veem à cabeça quando da leitura de determinadas críticas contundentes ao nosso modo de vida, cujo impacto às vezes é tão grande que geram a percepção de que não há saída, de que somos condenados a modos de vida medíocres, alienados, pobres espiritualmente etc. Um modo recorrente de manter a validade dessas críticas é lançar mão da ideia de que nos tornarmos conscientes desse estado de coisas já nos colocaria em um patamar substancialmente diferenciado em relação a quem está imerso em toda a dinâmica, mas não reflete sobre ela. Hegel já havia empregado isto inúmeras vezes em sua concepção dialética da realidade, dizendo, por exemplo, que o homem é um animal, mas a consciência de sua animalidade o retira deste mesmo plano, elevando-o à espiritualidade própria da cultura. No tratamento psicanalítico isso também ocorre, na medida em que a consciência dos sintomas é um passo necessário para sua superação.

Ocorre que muitas vezes tal conscientização não significa nem sequer um passo, mas apenas a abertura dos olhos, que nada mais fazem do que contemplar toda a situação como uma realidade, um fato, uma fatalidade. O que deveria fornecer a percepção de necessidade de agir, de mudar, acaba gerando apenas a satisfação narcisista de saber-de-si. Nesse momento, o ser-consciente está para a realidade de vida assim como o atestado está para o óbito: apenas testemunha e confirma o que está dado.

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