Desde minha adolescência, sempre achei no mínimo muito
estranho que as pessoas usassem gestos como do dedo médio em riste para ofender
alguém. Palavrões de ordem sexual, como “vai tomar no cu”, sempre me pareceram
algo meio sem sentido, em virtude do fato de que, obviamente, muitas pessoas
gostam e praticam sexo anal sendo penetradas (felizmente!). Se eu, como homem,
gosto que uma mulher queira e goste de fazer sexo anal, sendo que o mesmo
acontece com outros homens que queiram relação com homens, somente uma boa dose
de desajuste na concepção do vínculo entre sexualidade e o resto da vida pode
explicar este uso do que, na vivência íntima é prazeroso, mas se torna índice
de agressão, ofensa.
Claro está que a insinuação subjacente é não apenas
machista, mas “masculinista”, no sentido de tomar a posição feminina como um
índice de apequenamento, humilhação, subjugação. As coisas adquirem um
interesse até mesmo anedótico quando mulheres heterossexuais e gays usam esses
mesmos veículos para xingamento. Isto se dá, obviamente, pela absorção de
códigos que se descolam de sua gênese mais imediata, passando a designar de
forma irrefletida a ideia de ofender, mesmo que para isso se use algo que as
próprias mulheres gostem.
Essas reflexões foram incitadas por um grande coincidência,
pois há poucos dias eu estava pensando exatamente nesse deslocamento dos
conteúdos sexuais motivados por uma forte dose de recalque, quando um motorista
buzinou de forma altamente injustificável para mim, pois queria que eu virasse
à direita em uma via em que eu decididamente não era obrigado a fazê-lo. A
estupidez do gesto e a altura da buzina foram tão grandes, que qualquer
motorista que tivesse a disposição de fazer gestos obscenos teria feito algum
com certeza. Nesse instante, pensei: “que pena que eu não tenha agora nenhum
gesto que possa demonstrar minha indignação com a esta atitude insensata; o
máximo que posso fazer é colocar a mão para fora em uma atitude interrogativa,
como se dissesse que não fazia sentido buzinar naquele momento”.
Moral da história: esclarecimento filosófico-psicanalítico
priva você de um vocabulário eficaz e rápido na luta esganiçada por manter sua
dignidade no dia-a-dia!
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