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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Qual o sentido de um palavrão?


Desde minha adolescência, sempre achei no mínimo muito estranho que as pessoas usassem gestos como do dedo médio em riste para ofender alguém. Palavrões de ordem sexual, como “vai tomar no cu”, sempre me pareceram algo meio sem sentido, em virtude do fato de que, obviamente, muitas pessoas gostam e praticam sexo anal sendo penetradas (felizmente!). Se eu, como homem, gosto que uma mulher queira e goste de fazer sexo anal, sendo que o mesmo acontece com outros homens que queiram relação com homens, somente uma boa dose de desajuste na concepção do vínculo entre sexualidade e o resto da vida pode explicar este uso do que, na vivência íntima é prazeroso, mas se torna índice de agressão, ofensa.

Claro está que a insinuação subjacente é não apenas machista, mas “masculinista”, no sentido de tomar a posição feminina como um índice de apequenamento, humilhação, subjugação. As coisas adquirem um interesse até mesmo anedótico quando mulheres heterossexuais e gays usam esses mesmos veículos para xingamento. Isto se dá, obviamente, pela absorção de códigos que se descolam de sua gênese mais imediata, passando a designar de forma irrefletida a ideia de ofender, mesmo que para isso se use algo que as próprias mulheres gostem.

Essas reflexões foram incitadas por um grande coincidência, pois há poucos dias eu estava pensando exatamente nesse deslocamento dos conteúdos sexuais motivados por uma forte dose de recalque, quando um motorista buzinou de forma altamente injustificável para mim, pois queria que eu virasse à direita em uma via em que eu decididamente não era obrigado a fazê-lo. A estupidez do gesto e a altura da buzina foram tão grandes, que qualquer motorista que tivesse a disposição de fazer gestos obscenos teria feito algum com certeza. Nesse instante, pensei: “que pena que eu não tenha agora nenhum gesto que possa demonstrar minha indignação com a esta atitude insensata; o máximo que posso fazer é colocar a mão para fora em uma atitude interrogativa, como se dissesse que não fazia sentido buzinar naquele momento”.

Moral da história: esclarecimento filosófico-psicanalítico priva você de um vocabulário eficaz e rápido na luta esganiçada por manter sua dignidade no dia-a-dia!

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