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sábado, 21 de junho de 2014

Psicanálise do motorista de carro


Em 2009, a agência de publicidade Artplan criou para o governo federal uma campanha educativa para motoristas cujo slogan era “Seja educado no trânsito como você é na sua vida”. De fato, é uma experiência tão comum, que os motoristas podem perceber o quanto eles mesmos a vivenciam, a saber: alterar completamente seu nível de tolerância, paciência e calma quando estão dirigindo, de modo a se tornarem irreconhecíveis. Como todo fenômeno que rompe a linearidade e a conexão sensata dos pensamentos, ações e sentimentos, este também desperta um interesse psicanalítico.

Ao dizer sobre como os objetos, instrumentos, móveis e demais coisas do ambiente marcam profundamente nosso modo de ser na contemporaneidade, Adorno questiona: “qual o motorista nunca foi tentado pela potência do motor de seu veículo a atropelar os animais de rua, pedestres, crianças e ciclistas?”. O contexto da argumentação do autor mostra sua ênfase na determinação, na influência e na força de modelagem de nossas ações por toda a maquinaria de nossa existência cotidiana. Trata-se de uma perspectiva marcadamente sociológica, reservando pouco espaço para questionarmos o quanto todos esses elementos não sejam tão determinantes, mas sim facilitadores para a eclosão de certos comportamentos.

Quando cometemos um ato falho, com uma palavra diferente da que pretendíamos, uma das formas mais corriqueiras de explicação é o fato de não estarmos atentos, ou muito cansados, ou termos nos ocupado há pouco com o assunto referente à palavra efetivamente dita. Tal como argumentou Freud, todas essas condições, na verdade, apenas produzem a atmosfera psíquica favorável à eclosão de um conteúdo inconsciente que, em outras circunstâncias, permaneceria oculto. A explicação para a especificidade de uma palavra equivocada ser dita quando em uma situação de stress, por exemplo, deve ser buscada através das associações afetivas com outras palavras, de modo que o conteúdo latente possa ser esclarecido.

O trânsito das grandes metrópoles tende a ser um ambiente altamente facilitador para a eclosão de comportamentos agressivos, mas não de forma totalmente determinante, pois é tão evidente haver quanto não haver aquela mudança de atitude do motorista em relação à sua vida cotidiana. Muitas pessoas dirigem seus carros de forma tranquila, sem nenhuma agressividade especialmente detectável no contexto do trânsito. Não nos cabe aqui fazer uma análise psicanalítica que pretendesse dar a chave de compreensão dos motivos inconscientes dessa transformação dos motoristas, mas sim falar em geral do quanto o ambiente e a própria situação de dirigir um carro são facilitadores psíquicos para os comportamentos que gostaríamos que não existissem.

O automóvel pode ser facilmente vivido como uma extensão do próprio corpo. O fato de se estar segurando o volante e apertando o pedal do acelerador, envolvido por toda a carroceria e em conexão corporal direta através do banco, induz de forma vigorosa uma identificação metafórica (por analogia/comparação) e metonímica (por relação da parte ao todo) do sujeito com este invólucro suficiente para movê-lo de forma veloz e acelerada. Estando em todos os automóveis separados uns dos outros tal como nos corpos estão reciprocamente, não é difícil perceber que esta expansão metafórica se alastra também para fora de cada conjunto homem-máquina, incluindo todos os outros que trafegam no mesmo espaço. Em geral, tem-se uma espécie de sociedade de indivíduos “inflados” por esta expansão dada pelo invólucro metálico e mecanizado, que se percebem restringidos por todos os outros em sua expansão vital.

A subtração da paciência dos motoristas é proporcional à multiplicação de seu poder de deslocamento pelo carro: se o automóvel foi feito para aumentar a velocidade com que nos deslocamos, qualquer barreira nessa expansão pode ser facilmente percebida não mais como um mero obstáculo (tal como na vida cotidiana), mas sim como uma contradição interna, intrínseca ao ambiente de maximização de força, poder e velocidade. Nesse momento, qualquer erro ou negligência alheia, seja de pedestre ou motorista, pode incitar um desejo de justiçamento extremo, em que a punição se torna francamente desproporcional à falta. Considerando a facilitação psíquica dada por “estar certo”, pode-se querer condenar o outro não propriamente pelo seu erro, mas pela contradição ao que meu próprio ego se tornou, ao ser multiplicado pela ambientação do automóvel. Isso significa, entre outras coisas, que cada motorista “já espera” o erro, a negligência ou a imperícia de qualquer outro para puni-lo segundo esta lógica. Em certo sentido, qualquer evento significará meramente um pretexto, o que fica demonstrado pelo fato de deslizes alheios insignificantes poderem gerar uma fúria inacreditável.

Na identificação metafórica e metonímica com o carro, creio que seja um fator significativo a própria condição de olhar para a realidade externa através do pára-brisa. Tudo se passa como se a realidade exterior ganhasse um aspecto onírico ou ficcional, quase cinematográfico, tornando o ato de dirigir próximo a um devaneio, no qual sempre projetamos livremente nossas fantasias intimamente mais recompensadoras e narcisicamente inflacionadas. Isto aponta para um desligamento qualitativo do sujeito com o exterior do carro, induzindo a um perigoso senso de descompromisso para com o que ocorre à sua volta. Tal como não nos envergonhamos de nossas fantasias nos sonhos diurnos (os devaneios), o motorista parece ser movido também por um senso de engrandecimento que o libera intimamente da necessidade de prestar contas da racionalidade de suas escolhas.

Dada a complexidade do tráfego nas metrópoles com milhões de habitantes, toda esta inflação narcísica deve, na verdade, dar lugar a um movimento substancialmente inverso. Embola a tolerância seja um valor que reconhecemos como válido para todos os âmbitos da vida, no trânsito ela deve ser multiplicada: o outro motorista tem o direito de errar, de cometer uma imprudência, de ser negligente, de ser apressado em demasia etc. Desde que a ação não produza um acidente, que ela implique apenas em nossa necessidade de frear, de perder alguns segundos ou minutos, a falha alheia deve ser claramente situada dentro da própria normalidade da condução do veículo. Até mesmo a intolerância alheia para com nossos próprios erros deve ser computada do mesmo modo!

Nesse momento entra em jogo uma outra questão, que é o fato de os motoristas se sentirem como que “pedagogos” dos outros, punindo com rigor (buzinando, xingando) para demonstrar que “isto não se faz”. Na verdade, a verdadeira “pedagogia” consiste em mostrar que “o que se faz” é tolerar o erro alheio, dar espaço a quem tem pressa demais, compreender o quanto a falta de atenção é um componente eternamente compartilhado em alguma medida por todos no cenário do tráfego etc. Tendo em vista a compreensão intuitiva que cada motorista possui da maximização de si pelo carro, creio que esta percepção da necessidade de um plus de tolerância, de calma e de generosidade seja vivenciada por muitos, fazendo com que o trânsito de diversas metrópoles não apenas não seja especialmente violento, mas bastante harmônico.

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