Desilusão.
Desapontamento. Vergonha alheia. “Os fins não justificam os meios”. “Quem te
viu e quem te vê”. — Essas são expressões frequentemente ouvidas diante do
apoio de Paulo Maluf a candidaturas do PT à prefeitura e/ou o governo de São
Paulo. Este estado de espírito é claramente estimulado pelas manchetes de
jornal, com suas fotos em destaque, em que os protagonistas se cumprimentam
como se fossem amigos em um momento de confraternização. Essa abordagem
midiática fomenta o espírito de desilusão com o que é pintado com todas as
cores como sendo oportunismo político, que substitui a grandiosidade de ideais
de “ética na política”, de modo a que se crie ou se reforce a percepção de que
o PT se transformou em um partido como todos os outros, sem apreço por sua
ideologia de outrora: afinal de contas, como pode um partido que se diz de
esquerda fazer aliança com um representante de agremiações políticas ligadas a
uma direita que apoiou a ditadura militar, e que foi acusado e condenado por
vários crimes de desvio de dinheiro público?
Durante
mais de uma década desde sua formação, o PT manteve uma estratégia “purista”,
recusando alianças com outros partidos em todos os níveis eleitorais — mesmo
aqueles com viés político claramente de esquerda, como PC do PT, eram
rejeitados. A partir de certo período, entretanto, as coligações nas “frentes
populares” tornaram-se regra, e somente em função delas é que foi possível
eleger uma quantidade expressiva de prefeitos, governadores e até mesmo Lula e
Dilma na presidência. O que causa ojeriza, aversão, desapontamento, é que essa
rede de alianças cresceu bastante, de modo a incluir não apenas o PMDB, mas
também o PP de Maluf. A pergunta é: o quanto é condenável esta última expansão,
que caracteriza de forma clara o quanto o PT aderiu ao que se chama “governo de
coalizão”?
A
dificuldade de pensar se determinados meios são admissíveis para um partido que
se pretende de esquerda ganhar uma eleição reside em um vício bastante
arraigado de praticar uma visão moral da política. Em vez de se pesar
objetivamente a magnitude dos ganhos e das perdas, a leitura das táticas no
jogo de interesses é fortemente tingida pelas cores da personalização,
da nobreza de valores individuais, da grandiosidade de ideais. Nesse momento,
essas duas opções: 1) um candidato de esquerda no poder, mesmo com o apoio
minoritário de um político desonesto de direita; 2) um candidato de direita
ganhar a eleição — passam a ter uma dificuldade enorme de ponderação, pois o
expressivo ganho político contido na primeira é sub-avaliado através de uma
super-valorização do quanto a integridade moral e a pureza
ideológico-partidária é gravemente “ferida” pela aliança com um político avesso
aos princípios de esquerda.
Em
um país com 500 anos de tradição escravista, coronelista, de subjugação
opressiva dos trabalhadores por grandes conglomerados financeiros, com uma
inércia acintosa de concentração de riqueza, em que os detentores do poder
econômico sempre terão as vias mais facilitadas para influir nas decisões
políticas em todos os âmbitos, em um meio em que a mentalidade das classes
baixas é gravemente corroída por um auto-rebaixamento e demérito — em um
contexto historicamente perverso como esse, não passa de uma ilusão com alta
dose de imaturidade política pensar que seja possível governar sem prestar
contas, sem negociar, sem estabelecer diálogo com as forças conservadoras mais
à direita no espectro político. Mesmo nas classes oprimidas e sujeitas aos
piores efeitos da acumulação capitalista de renda, a mentalidade conservadora e
de direita (e mesmo fascista) encontra uma acolhida relevante, e isso não pode
ser simplesmente deixado de lado como se fosse uma espécie de disfunção
política de um quadro em que “naturalmente” a parcela mais pobre da população
deveria se identificar com políticas de esquerda.
É
necessário ter a suficiente sobriedade para pensar que a política está baseada,
em quase todos seus momentos, em pequenos ganhos, em avanços progressivos,
pelos quais se deve esforçar que permaneçam o suficiente para sedimentarem
novos progressos. Considerando especificamente o caso do estado de São Paulo, é
preciso ter em mente que o mesmo grupo político detém o poder há 32 anos!
Isto foi conseguido em larga medida por estratégias populistas e de propaganda
que se nutrem da própria riqueza que o estado gera. Diante da tarefa hercúlea
de quebrar este monopólio, a aliança minoritária com um partido de direita,
mesmo que represente uma força política regressiva e corrupta, precisa ser
situada em sua devida proporção, ou seja, como um mal menor, que somente ganha
o status de algo “grave” e “decepcionante” porque vivemos em um mundo que
projeta a nossa própria concepção moral de pessoa em tudo o que vivenciamos no
âmbito social, político e cultural. O papel dos meios de comunicação em massa,
em geral, na medida em que servem prioritariamente a interesses empresariais, é
o de manter e reforçar este preconceito moral ao máximo possível.
Tudo
isto, entretanto, não significa subscrever a ideia de que quaisquer meios estão
justificados através da meta de progresso político. A avaliação das táticas e
estratégias adotadas, entretanto, além de dever ser sempre pontual, específica,
precisa se desfazer do vício induzido pelos meios de comunicação de nelas
projetar considerações por demais personalistas, moralizantes, que, em vez de
produzir um esclarecimento acerca do que significa a progressividade de
pequenos ganhos políticos, faz com que grupos poderosos se perpetuam no poder
em virtude do fato de que forças progressistas continuem avaliando a si mesmas
através de patamares ilusórios de moralidade incompatíveis com as tensões,
complexidades e diferenças qualitativas gritantes no âmbito do embate político.
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