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sábado, 26 de julho de 2014

A ideologia da evidência dos fatos


Todas as vezes em que ocorrem greves em serviços públicos que afetam diretamente a população, como dos transportes, os meios de comunicação em massa revelam com especial clareza a sua função ideológica, codificada por Theodor Adorno: duplicar de forma fiel a realidade, para que, assim, se reafirme na mentalidade de todos que o real deve permanecer o que é, devido precisamente ao fato de que assim já é.

Tão logo a população se vê prejudicada de forma drástica em seu direito de ir e vir, todas as câmeras, microfones e narrativas se dedicam integralmente a mostrar a face mais evidente, já conhecida de todos: este mesmo prejuízo. Uma vez que estamos sempre acostumados a equalizar verdade com adequação do discurso aos fatos, fica fora de circuito o significado, o papel e a importância de outras formas de ler este mesmo complexo de coisas.

Qual seria a repercussão, em nosso juízo sobre um movimento grevista de motoristas e cobradores, se, em vez desta duplicação espetacular do que todos já estão vendo, os meios de comunicação em sua totalidade expusessem matérias sobre a evolução salarial e as condições de trabalho dos motoristas, cobradores e metroviários? Além disso, que efeito teria incluir nessa mesma pauta de reportagem as margens de lucro de todas as empresas de transporte? – e ainda: a condição cartelizada de todas, que impede a concorrência entre elas? – e mais: todos os subsídios que o poder público proporciona a elas?

Ora, é evidente que jamais ouviremos nem veremos isso no Jornal Nacional e nos grandes meios de comunicação em geral. Eles quererão sempre martelar em nossa cabeça aquilo a que já estamos acostumados a ver, o que já sabemos, já experimentamos duramente como a ponta do iceberg, que é tão-somente a face mais dramática de uma violência que pretende reagir, de forma desesperada, a uma violência constantemente perpetrada não somente aos profissionais do transporte, mas à própria população, que também é vítima de todo o sistema de cartéis das empresas de transporte público, com seus lucros astronômicos e proteção desavergonhada por parte do Estado.

Assim, em vez de a imprensa dar uma condição de leitura crítica às pessoas, de modo a elas perceberem o quanto elas também deveriam reagir contra o sistema de transporte, coloca-as contra os trabalhadores e, assim, a favor do sistema que as oprime.

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domingo, 20 de julho de 2014

Escoamento e corrosão do tempo


Em uma postagem anterior, eu havia abordado o problema da fixação das pessoas em seus aparelhos tecnológicos através da ideia de uma transfusão de realidades, em que o âmbito virtual e o real se complementam na oferta de satisfação de se poder transitar de um para o outro. Hoje quero falar de outro aspecto dessa questão, mas enfocando um aspecto negativo: do uso compulsivo (vício) da Internet.

Depois de décadas de aperfeiçoamento e expansão contínuos da rede mundial de computadores, torna-se ocioso explicitar suas vantagens, tanto para a produtividade acadêmica, quanto para transações comerciais, relacionamentos afetivos, divulgação de informações, democratização do processo interativo com notícias e um sem-número de outras coisas. Igualmente claro é o lado negativo para toda essa expansão, a saber, a proliferação de fraudes, promoção de diversos tipos de crime, disseminação de calúnias etc. Dentro deste leque de elementos negativos, um deles reside no fascínio que os diversos conteúdos da Internet exercem sobre os consumidores. É deveras impressionante a quantidade de horas despendidas por alguns usuários, que se sentem compelidos, a cada poucos minutos, a verificar e-mail, interagir em redes sociais, buscar notícias ao longo de todo o dia, assistir dezenas de vídeos (desde alguns mais relevantes culturalmente até aqueles mais idiotas), procurar a companhia em salas de bate-papo, jogar diversos tipos de passatempos extremamente simples, e uma série de outras atividades que tendem a absorver a atenção de uma forma impensável antes do advento dos computadores pessoais.

Tal como eu havia dito na postagem a que me referi, o princípio explicativo de fuga de realidade não é satisfatório. Não se trata apenas de um desejo difuso de negação de nossa realidade, mas também não somente de uma ânsia de preenchimento, de busca de sentido a se obter através das diversas formas de estimulação visual, tátil, imaginária e de troca de ideias. Ambos os conceitos são, sim, válidos, mas devem ser empregados sob a luz fornecida pela ótica da corrosão do próprio tempo. Muito do sentido do uso compulsivo da Internet estaria ligado a um gozo incompreendido e, portanto, inconsciente de usufruir do tempo na medida em que ele é completamente esvaziado de interesses ligados ao progresso da vida, seja de um ponto de vista do trabalho, seja também de fontes de prazer construtivos, como ir a um espetáculo de dança, caminhar no parque, ler livros de literatura, jogar futebol com os amigos, desenhar, pintar, dançar etc. Isso significa dizer que todos os conteúdos realmente significantes trazidos pelo ambiente virtual configuram, para o usuário obsessivo, um enorme pretexto, pois o que eles trazem de bom têm o mesmo estatuto que as trivialidades, que os vídeos engraçados-mas-nem-tanto, que as notícias irrelevantes, que discussões intermináveis que não levam a lugar algum etc. Em certo sentido, toda essa vinculação obsessiva com o virtual deve ser visto como uma negação, não apenas do trabalho produtivo, mas também do lazer considerado em sua face mais robusta e construtiva para nosso senso pessoal de aproveitamento da vida.

Percebo uma relação analógica bastante esclarecedora entre a compulsão com a internet e com o café. Em ambos os casos, temos uma frequentação baseada em doses que se espalham ao longo do dia e se repetem cotidianamente durante toda a semana. Tanto o virtual quanto essa bebida são estimulantes, mantêm-nos acesos e interessados, causam certo frisson, gerando uma sensação menos ou mais elétrica do que o nosso estado normal. A cada instante de tédio ou monotonia, ambos podem ser recortados como uma solução fácil, à mão, para pontuar aquele momento do dia com mais uma injeção de ânimo, de colorido, de estimulação, de interesse. Ambos nos “despertam” da placidez empobrecida do cotidiano.

Ao mesmo tempo, porém, tanto o café quanto a internet são corrosivos. O primeiro pode causar perda ou distúrbio do sono, taquicardia e certo grau de ansiedade. A segunda, tal como dissemos acima, absorve, invade e coloniza o tempo em pequenas e grandes doses, fazendo-o escoar inapelavelmente na proporção com que somos atraídos pela miríade de conteúdos e de ofertas de atividades de interação, mobilização de nossa curiosidade etc.

Em ambos casos, temos uma formação de compromisso entre o que há de “positivo” em termos de inoculação de sensações e experiências, de reforço da percepção de vivacidade, por um lado, e o negativo, ligado ao constante distúrbio e colonização de nosso espaço vital por algo extrínseco, alheio, com a eterna promessa e efetivação de se experimentar o que é diferente do que já estávamos vivenciando.

No caso da compulsão com a internet, essa ambiguidade entre o positivo e o negativo sempre será resolvida através do posicionamento típico de quem é viciado em um jogo: a cada nova notícia, a cada nova interação em redes sociais etc., está contida a promessa de um conteúdo que terá feito valer a pena esse desvio de atenção, e, no acumulado de todos esses desvios, o que terá contato efetivamente, de um ponto de vista psicanalítico, será, entre outras coisas, o próprio gozo com o escoamento sem sentido do tempo, tornado possível pelo excesso de sentido que as milhares fontes de conteúdo prometem o tempo todo.

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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Indignação inoperante


Theodor Adorno dizia que no capitalismo tardio as massas se desacostumaram a indignar-se, pari passu à muito falada transformação de tudo em espetáculo, em mera imagem de si mesmo. — Só que há um outro lado: tal indignação por assim dizer “pulverizou-se” em infinitas formas de intolerância, de correção obstinada de todos os pecadilhos, faltas e transgressões (tanto próprias quanto alheias). Em vez de nos indignarmos no sentido de exigir mudanças e alteração de rumo frente a graves iniquidades, execramos as menores coisas do cotidiano, sem que, no mais das vezes, haja um resultado concreto. Todo o ímpeto contestatório “deságua” em pequenas doses ao longo de todo o percurso de vida, realizando uma funesta inversão: resignamo-nos perante grandes questões e nos enervamos constantemente por coisas que deveriam ser toleradas.

Importa notar que ocorre uma divisão essencial entre o âmbito privado, individual, que gira ao redor de nossas imagens mentais e de seus respectivos afetos, por um lado, e a realidade concreta, que depende substancialmente de nossas atitudes e decisões, por outro. A partir dessa clivagem, forma-se uma solução de compromisso bastante própria ao universo contemporâneo, a saber: a satisfação com sua própria personalidade e com seu mundo particular, ao mesmo tempo silente e conturbado de emoções, coaduna-se de forma estranha com a imobilidade do mundo, deixado transcorrer segundo uma lógica bastante afim ao fluxo das ideias e imagens individuais, ou seja, a do espetáculo.

Não é difícil perceber o deslocamento substitutivo dos afetos, que perdem sua validade concreta na prática de instauração de mundo para serem absorvidos e “usufruídos” em toda sua tempestuosidade no restrito palco de nossa consciência privativa, compartilhável com quem está próximo em nosso cotidiano. Quanto menos operante no real, mais o investimento afetivo tende a si enovelar, multiplicar-se em redemoinho, cuja intensidade no mais das vezes é inversamente proporcional ao quanto ele pode construir e instaurar novas e melhores realidades.

Esse estado de coisas pode ser visto como uma aplicação de uma ideia básica da psicanálise freudiana, a partir da qual dizemos que a condição neurótica faz com que gastemos muito mais energia psíquica com nossas próprias questões e contradições internas do que com a própria realidade. Em vez de nossos afetos encontrarem uma via de escoamento de modo a modificarmos a realidade segundo nossos planos, projetos e desejos, sofrem uma retroação, um direcionamento regressivo, no sentido de nos impelir a nos debatermos indefinidamente com o que não admite solução progressiva. No caso dessa intolerância generalizada a que nos referimos, não apenas somos acometidos de certa paralisia, quanto ainda cerceamos o espaço em que outras pessoas poderiam agir, podamos suas formas de vida, restringimos os canais de expressão de sua individualidade etc.

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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Reação, progresso e continuísmo


“Si hay gobierno, soy contra” — essa expressão irônica, que pode servir de inspiração a alguma forma de anarquismo muito pouco elaborado, parece inspirar uma mentalidade difusa que deve pautar, em uma medida significativa, a perspectiva da classe média jovem em todo o Brasil no que concerne às próximas eleições, principalmente à presidência da república. Para quem hoje tem menos de 25 anos de idade, os mandatos de Lula e Dilma representam, essencialmente, o que significa “ser governo”, com toda a carga de responsabilização exacerbada pelo que há principalmente de ruim no plano das políticas públicas em geral (sejam elas municipais, estaduais ou federais).

Nesse cenário, torna-se extremamente importante uma grande dose não apenas de conhecimento, mas de assimilação vivencial da história recente do país para se poder avaliar de forma mais precisa o quanto esses três últimos mandatos presidenciais são mais progressistas do que os anteriores. Em função da dificuldade de isso ocorrer, o que se apresenta como possibilidade de mudança, no sentido de progresso, a saber: as candidaturas de Aécio Neves e de Eduardo Campos, adquirem certo destaque e acolhida, não pelo que apresentem de propostas políticas concretas, mas pela ideia difusa de que a manutenção do governo (seja ele qual for, de acordo com a frase que abriu esse texto) é índice de continuísmo, de inércia, de freio a avanços possíveis.

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domingo, 6 de julho de 2014

Competição e pseudo-individualidade


O futebol atualmente demonstra o quanto uma sociedade individualista é pseudo-individualizada. Em vez de a competitividade resultar no senso de competência, de afirmação de si, de seu talento, de sua própria determinação etc., reenvia de forma regressiva à imagem de fracasso do outro. A vitória se transforma em um pretexto para celebrar o quanto o outro é menor, pior, mais fraco e, numa sociedade machista, a corporificação do feminino como um masculino-não-realizado. Em vez de olhar para si e ver o sucesso como espelho e veículo de compreensão de suas potencialidades realizadas — o que é índice de construção progressista de individualidade —, o torcedor tem o olhar dirigido ao outro, e assim ele se compraz, por identificação, com o que é está fracassado em si mesmo. Disso resulta numa celebração da mediocridade, do não-conseguido, transformando no gozo do escárnio o que deveria ser celebração do que se construiu. Só que as mentes avessas de antemão ao politicamente correto gostam de associar maturidade ao pervertido, e então o prazer de se afirmar independentemente da derrota alheia (no sentido mesmo de não depender dela para a satisfação) é visto como “careta”, como índice de “ser reprimido”.

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