Todas as vezes em que ocorrem greves em serviços públicos
que afetam diretamente a população, como dos transportes, os meios de
comunicação em massa revelam com especial clareza a sua função ideológica,
codificada por Theodor Adorno: duplicar de forma fiel a realidade, para que,
assim, se reafirme na mentalidade de todos que o real deve permanecer o que é,
devido precisamente ao fato de que assim já é.
Tão logo a população se vê prejudicada de forma drástica em
seu direito de ir e vir, todas as câmeras, microfones e narrativas se dedicam
integralmente a mostrar a face mais evidente, já conhecida de todos: este mesmo
prejuízo. Uma vez que estamos sempre acostumados a equalizar verdade com
adequação do discurso aos fatos, fica fora de circuito o significado, o papel e
a importância de outras formas de ler este mesmo complexo de coisas.
Qual seria a repercussão, em nosso juízo sobre um movimento
grevista de motoristas e cobradores, se, em vez desta duplicação espetacular do
que todos já estão vendo, os meios de comunicação em sua totalidade expusessem
matérias sobre a evolução salarial e as condições de trabalho dos motoristas,
cobradores e metroviários? Além disso, que efeito teria incluir nessa mesma
pauta de reportagem as margens de lucro de todas as empresas de transporte? – e
ainda: a condição cartelizada de todas, que impede a concorrência entre elas? –
e mais: todos os subsídios que o poder público proporciona a elas?
Ora, é evidente que jamais ouviremos nem veremos isso no
Jornal Nacional e nos grandes meios de comunicação em geral. Eles quererão
sempre martelar em nossa cabeça aquilo a que já estamos acostumados a ver, o
que já sabemos, já experimentamos duramente como a ponta do iceberg, que
é tão-somente a face mais dramática de uma violência que pretende reagir, de
forma desesperada, a uma violência constantemente perpetrada não somente aos
profissionais do transporte, mas à própria população, que também é vítima de
todo o sistema de cartéis das empresas de transporte público, com seus lucros
astronômicos e proteção desavergonhada por parte do Estado.
Assim, em vez de a imprensa dar uma condição de leitura
crítica às pessoas, de modo a elas perceberem o quanto elas também deveriam
reagir contra o sistema de transporte, coloca-as contra os trabalhadores e,
assim, a favor do sistema que as oprime.
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