Theodor
Adorno dizia que no capitalismo tardio as massas se desacostumaram a
indignar-se, pari passu à muito falada transformação de tudo em
espetáculo, em mera imagem de si mesmo. — Só que há um outro lado: tal
indignação por assim dizer “pulverizou-se” em infinitas formas de intolerância,
de correção obstinada de todos os pecadilhos, faltas e transgressões (tanto
próprias quanto alheias). Em vez de nos indignarmos no sentido de exigir
mudanças e alteração de rumo frente a graves iniquidades, execramos as menores
coisas do cotidiano, sem que, no mais das vezes, haja um resultado concreto.
Todo o ímpeto contestatório “deságua” em pequenas doses ao longo de todo o
percurso de vida, realizando uma funesta inversão: resignamo-nos perante
grandes questões e nos enervamos constantemente por coisas que deveriam ser
toleradas.
Importa
notar que ocorre uma divisão essencial entre o âmbito privado, individual, que
gira ao redor de nossas imagens mentais e de seus respectivos afetos, por um
lado, e a realidade concreta, que depende substancialmente de nossas atitudes e
decisões, por outro. A partir dessa clivagem, forma-se uma solução de
compromisso bastante própria ao universo contemporâneo, a saber: a satisfação
com sua própria personalidade e com seu mundo particular, ao mesmo tempo
silente e conturbado de emoções, coaduna-se de forma estranha com a imobilidade
do mundo, deixado transcorrer segundo uma lógica bastante afim ao fluxo das
ideias e imagens individuais, ou seja, a do espetáculo.
Não
é difícil perceber o deslocamento substitutivo dos afetos, que perdem
sua validade concreta na prática de instauração de mundo para serem absorvidos
e “usufruídos” em toda sua tempestuosidade no restrito palco de nossa
consciência privativa, compartilhável com quem está próximo em nosso cotidiano.
Quanto menos operante no real, mais o investimento afetivo tende a si enovelar,
multiplicar-se em redemoinho, cuja intensidade no mais das vezes é inversamente
proporcional ao quanto ele pode construir e instaurar novas e melhores realidades.
Esse estado de coisas pode ser visto como uma
aplicação de uma ideia básica da psicanálise freudiana, a partir da qual
dizemos que a condição neurótica faz com que gastemos muito mais energia
psíquica com nossas próprias questões e contradições internas do que com a
própria realidade. Em vez de nossos afetos encontrarem uma via de escoamento de
modo a modificarmos a realidade segundo nossos planos, projetos e desejos,
sofrem uma retroação, um direcionamento regressivo, no sentido de nos impelir a
nos debatermos indefinidamente com o que não admite solução progressiva. No
caso dessa intolerância generalizada a que nos referimos, não apenas somos
acometidos de certa paralisia, quanto ainda cerceamos o espaço em que outras
pessoas poderiam agir, podamos suas formas de vida, restringimos os canais de
expressão de sua individualidade etc.
Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.

Nenhum comentário:
Postar um comentário