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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Indignação inoperante


Theodor Adorno dizia que no capitalismo tardio as massas se desacostumaram a indignar-se, pari passu à muito falada transformação de tudo em espetáculo, em mera imagem de si mesmo. — Só que há um outro lado: tal indignação por assim dizer “pulverizou-se” em infinitas formas de intolerância, de correção obstinada de todos os pecadilhos, faltas e transgressões (tanto próprias quanto alheias). Em vez de nos indignarmos no sentido de exigir mudanças e alteração de rumo frente a graves iniquidades, execramos as menores coisas do cotidiano, sem que, no mais das vezes, haja um resultado concreto. Todo o ímpeto contestatório “deságua” em pequenas doses ao longo de todo o percurso de vida, realizando uma funesta inversão: resignamo-nos perante grandes questões e nos enervamos constantemente por coisas que deveriam ser toleradas.

Importa notar que ocorre uma divisão essencial entre o âmbito privado, individual, que gira ao redor de nossas imagens mentais e de seus respectivos afetos, por um lado, e a realidade concreta, que depende substancialmente de nossas atitudes e decisões, por outro. A partir dessa clivagem, forma-se uma solução de compromisso bastante própria ao universo contemporâneo, a saber: a satisfação com sua própria personalidade e com seu mundo particular, ao mesmo tempo silente e conturbado de emoções, coaduna-se de forma estranha com a imobilidade do mundo, deixado transcorrer segundo uma lógica bastante afim ao fluxo das ideias e imagens individuais, ou seja, a do espetáculo.

Não é difícil perceber o deslocamento substitutivo dos afetos, que perdem sua validade concreta na prática de instauração de mundo para serem absorvidos e “usufruídos” em toda sua tempestuosidade no restrito palco de nossa consciência privativa, compartilhável com quem está próximo em nosso cotidiano. Quanto menos operante no real, mais o investimento afetivo tende a si enovelar, multiplicar-se em redemoinho, cuja intensidade no mais das vezes é inversamente proporcional ao quanto ele pode construir e instaurar novas e melhores realidades.

Esse estado de coisas pode ser visto como uma aplicação de uma ideia básica da psicanálise freudiana, a partir da qual dizemos que a condição neurótica faz com que gastemos muito mais energia psíquica com nossas próprias questões e contradições internas do que com a própria realidade. Em vez de nossos afetos encontrarem uma via de escoamento de modo a modificarmos a realidade segundo nossos planos, projetos e desejos, sofrem uma retroação, um direcionamento regressivo, no sentido de nos impelir a nos debatermos indefinidamente com o que não admite solução progressiva. No caso dessa intolerância generalizada a que nos referimos, não apenas somos acometidos de certa paralisia, quanto ainda cerceamos o espaço em que outras pessoas poderiam agir, podamos suas formas de vida, restringimos os canais de expressão de sua individualidade etc.

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