O princípio da complacência hermenêutica estabelece
que, aos comentar um texto, deve-se fornecer a interpretação mais favorável ao
autor, extraindo as melhores conclusões possíveis a partir dos argumentos
expostos. Se, mesmo com esta leitura favorável, ainda for possível demonstrar
que a argumentação é inválida, então a crítica terá todas as condições de ser
levada a sério. Este procedimento é de fato recomendável, pois o seu oposto — a
saber, focalizar as partes mais frágeis e/ou interpretar de forma ruim os
argumentos — demonstra em grande medida uma indisposição na leitura e no
comentário, o que nos faz crer que haja uma predisposição de ordem “pessoal”,
diferente da relação concreta com as ideias analisadas. Em vários casos, uma
crítica negativa a um determinado texto pode significar a necessidade ou o
desejo de invalidar uma teoria de forma geral, momento em que a validação de
argumentos específicos enfraquece essa disposição contrária “em bloco”.
Quem dedica sua trajetória acadêmica,
principalmente em filosofia e ciências humanas, à interpretação de teorias de
grandes pensadores costuma praticar o que considero uma variante desse
estratégia de leitura: a conivência hermenêutica. Na ânsia de extrair o
maior poder de compreensão sobre a realidade a partir de uma determinada teoria
— o que, em si, não tem nada de reprovável —, o comentador tende a negligenciar
e a diminuir a um mínimo possível as imprecisões, equívocos, contradições e
parcialidades encontrados. Quando um aspecto negativo é por demais evidente e é
impossível de ser negligenciado — como a defesa da escravatura por Aristóteles —,
entra em jogo a costumeira estratégia de explicá-lo através das limitações da
mentalidade geral da época em que a teoria foi concebida. Nesse momento, a
lógica de leitura funciona assim: o autor ou a autora “clássicos” analisados
podem ter sido especialmente geniais em avançar para além do seu tempo, mas
onde eles não o foram, seu pertencimento à sua época tende a não apenas
explicar a fraqueza de seu pensamento, mas também justificá-la. Além disso,
esse aspecto negativo tenderá a ser isolado do complexo geral da teoria, uma
vez que estabelecer relações com outros argumentos, temas e conceitos poderia
enfraquecê-los demais. Este procedimento se assemelha ao que Freud concebeu
como um dos mecanismos de defesa do eu, a saber, a separação e o isolamento de
um grupo psíquico, que se torna impedido de circular e estabelecer conexões com
outras formas de pensamento e ação.
Eu concordo que se deva, de fato, extrair o
máximo possível em nossa leitura dos grandes pensadores. Ocorre que este “máximo”
precisa incluir a percepção do quanto os equívocos, imprecisões, contradições e
impasses revelam uma verdade sob uma outra forma, além daquela que é expressa
diretamente. Explorar o que é falho na argumentação de um autor pode ser
bastante produtivo, na medida em que nos apercebemos da lógica conceitual
que levou a este erro. De forma análoga a como o ato falho foi explicitado
por Freud como uma via de acesso a uma verdade subjetiva recusada e recalcada,
a imprecisão em uma teoria deve ser vista com especial cuidado, bem como posta
em circulação com outros argumentos, conceitos e temas, não com o intuito de
simplesmente abalar e invalidar toda uma concepção filosófica ou teórica, mas para
que possamos aproveitar o que surgiu e se manifestou como equívoco.
Para realizar isso, entretanto, é necessário não apenas distanciamento
crítico, mas também uma negação do movimento identificatório e narcísico com a
teoria estudada. Se o princípio da complacência hermenêutica visa anular
os efeitos de uma contrariedade e uma hostilidade prévias, a conivência
hermenêutica exprime o oposto, uma identificação que nos torna cegos para
um conhecimento muitas vezes com um valor que deveria ser especialmente
aproveitado.

3 comentários:
Excelente post! Vou indicá-lo como leitura obrigatória a alunos e colegas. Serve especialmente como incentivo a autocrítica e exortação à abertura de espírito na leitura e debate. Também pode ajudar a reduzir a confusão resultante de preconceitos e indevida consideração às questões de mérito nos argumentos.
Fico contente que tenha gostado da postagem, Ricardo. Obrigado pelo retorno.
superação do ego e capacidade de se colocar no lugar do outro... caminhos para um diálogo verdadeiro.
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