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sábado, 30 de agosto de 2014

A conivência hermenêutica


O princípio da complacência hermenêutica estabelece que, aos comentar um texto, deve-se fornecer a interpretação mais favorável ao autor, extraindo as melhores conclusões possíveis a partir dos argumentos expostos. Se, mesmo com esta leitura favorável, ainda for possível demonstrar que a argumentação é inválida, então a crítica terá todas as condições de ser levada a sério. Este procedimento é de fato recomendável, pois o seu oposto — a saber, focalizar as partes mais frágeis e/ou interpretar de forma ruim os argumentos — demonstra em grande medida uma indisposição na leitura e no comentário, o que nos faz crer que haja uma predisposição de ordem “pessoal”, diferente da relação concreta com as ideias analisadas. Em vários casos, uma crítica negativa a um determinado texto pode significar a necessidade ou o desejo de invalidar uma teoria de forma geral, momento em que a validação de argumentos específicos enfraquece essa disposição contrária “em bloco”.

Quem dedica sua trajetória acadêmica, principalmente em filosofia e ciências humanas, à interpretação de teorias de grandes pensadores costuma praticar o que considero uma variante desse estratégia de leitura: a conivência hermenêutica. Na ânsia de extrair o maior poder de compreensão sobre a realidade a partir de uma determinada teoria — o que, em si, não tem nada de reprovável —, o comentador tende a negligenciar e a diminuir a um mínimo possível as imprecisões, equívocos, contradições e parcialidades encontrados. Quando um aspecto negativo é por demais evidente e é impossível de ser negligenciado — como a defesa da escravatura por Aristóteles —, entra em jogo a costumeira estratégia de explicá-lo através das limitações da mentalidade geral da época em que a teoria foi concebida. Nesse momento, a lógica de leitura funciona assim: o autor ou a autora “clássicos” analisados podem ter sido especialmente geniais em avançar para além do seu tempo, mas onde eles não o foram, seu pertencimento à sua época tende a não apenas explicar a fraqueza de seu pensamento, mas também justificá-la. Além disso, esse aspecto negativo tenderá a ser isolado do complexo geral da teoria, uma vez que estabelecer relações com outros argumentos, temas e conceitos poderia enfraquecê-los demais. Este procedimento se assemelha ao que Freud concebeu como um dos mecanismos de defesa do eu, a saber, a separação e o isolamento de um grupo psíquico, que se torna impedido de circular e estabelecer conexões com outras formas de pensamento e ação.

Eu concordo que se deva, de fato, extrair o máximo possível em nossa leitura dos grandes pensadores. Ocorre que este “máximo” precisa incluir a percepção do quanto os equívocos, imprecisões, contradições e impasses revelam uma verdade sob uma outra forma, além daquela que é expressa diretamente. Explorar o que é falho na argumentação de um autor pode ser bastante produtivo, na medida em que nos apercebemos da lógica conceitual que levou a este erro. De forma análoga a como o ato falho foi explicitado por Freud como uma via de acesso a uma verdade subjetiva recusada e recalcada, a imprecisão em uma teoria deve ser vista com especial cuidado, bem como posta em circulação com outros argumentos, conceitos e temas, não com o intuito de simplesmente abalar e invalidar toda uma concepção filosófica ou teórica, mas para que possamos aproveitar o que surgiu e se manifestou como equívoco.

Para realizar isso, entretanto, é necessário não apenas distanciamento crítico, mas também uma negação do movimento identificatório e narcísico com a teoria estudada. Se o princípio da complacência hermenêutica visa anular os efeitos de uma contrariedade e uma hostilidade prévias, a conivência hermenêutica exprime o oposto, uma identificação que nos torna cegos para um conhecimento muitas vezes com um valor que deveria ser especialmente aproveitado.

2 comentários:

Ricardo Veiga disse...

Excelente post! Vou indicá-lo como leitura obrigatória a alunos e colegas. Serve especialmente como incentivo a autocrítica e exortação à abertura de espírito na leitura e debate. Também pode ajudar a reduzir a confusão resultante de preconceitos e indevida consideração às questões de mérito nos argumentos.

Verlaine Freitas disse...

Fico contente que tenha gostado da postagem, Ricardo. Obrigado pelo retorno.