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sábado, 9 de agosto de 2014

A neutralização do sofrimento


A vida pode se tornar mais pobre em virtude de vários aspectos, e o sofrimento é um índice subjetivo do modo e da intensidade com que fatores externos e internos parecem corroer a plenitude da existência. Independente de qual seja sua origem, no entanto, ele pode ser não apenas completamente emudecido, quanto tomado como fonte de riqueza para a existência. Chega a ser impressionante a negligência com que o sofrimento é percebido pelas pessoas. Em uma pesquisa sobre as condições de trabalho dos músicos, um baterista relatou problemas muito graves de coluna, que colocavam sérios riscos para sua saúde e para a continuidade de seu trabalho. Naturalmente, os problemas não surgiram de uma vez só, e, perguntado sobre por que não havia procurado um ortopedista há mais tempo, respondeu que pensava que todas as dores e incômodos que sentia “faziam parte de seu trabalho”. Não é difícil perceber que o sofrimento para ele não era apenas normal e corriqueiro, pois também conferia de forma um tanto inconsciente mais valor à sua atividade, tornava-a por assim dizer mais nobre, mais elevada humanamente. — É preciso investigar mais de perto mecanismos psíquicos facilitadores desse tipo de absorção do sofrimento como normal ou enriquecedor da vida.

Um dos elementos que determinam intrinsecamente a maturidade psíquica é, sem dúvida, a percepção sóbria do contraste entre o âmbito interno de nossas fantasias, desejos e ambições, e o externo, ou seja, das relações sociais, dos limites impostos pela condição financeira, de nosso corpo, de nossas capacidades intelectuais etc. A persistência em cobrar da realidade uma concordância com nossos desejos é um índice de menoridade ou infantilidade. Nessa mesma linha de raciocínio, entretanto, pode-se ser levado a considerar que o fato de o mundo ser fonte de dor e sofrimento constituiria apenas um degrau a mais que deveria ser galgado nessa trajetória ascendente de maturação pessoal. Não retroceder diante do sofrimento, não reclamar da dor, não se incomodar com barulhos constantes, abstrair mentalmente das condições precárias de sono e negligenciar uma infinidade de outras fontes de penúria e empobrecimento de vida são sistematicamente traduzidas como índice de elevação como pessoa (!).

É preciso levar em conta, por outro lado, que a incapacidade de encarar as limitações da realidade pode, por si mesma, ser uma fonte crônica de sofrimento, pois, em vez de considerarmos os limites intransponíveis do real como aquilo sobre o que devemos construir nossas estratégias de progresso, assumimos uma posição de lamento e lamúria que se reafirma incessantemente. Esta forma de sofrimento também é tornada um ingrediente quase-natural da vida, que começa a acompanhá-la indefinidamente.

Considere agora a seguinte ideia, expressa em um artigo de jornal escrito por uma autoridade da igreja católica de Belo Horizonte: “Onde há amor não há sofrimento, mas onde há sofrimento, então ama-se o próprio sofrimento”. Esta frase, baseada em preceitos bíblicos, é espetacular, pois codifica dois aspectos nucleares da questão que investigamos. Sem querer adentrar no complexo fenômeno da relação do Cristianismo com o sofrimento — tema que demandaria uma investigação bem mais ampla —, vemos como o amor é tomado aí como uma via de neutralização subjetiva do peso da objetividade do sofrimento. Embora a primeira parte da frase nos leve a pensar “amor” como descrevendo as condições reais de convívio entre as pessoas — implicando que, se as pessoas amam-se reciprocamente, logo tratam-se de forma respeitosa —, a segunda parte indica de forma clara um plano tão-somente subjetivo, de uma disposição íntima/interna de leitura de mundo, capaz de fazer o sofrimento não existir ou não ser motivo de luta pelo fato de sua existência ser desejada = amada! É preciso um esforço considerável para imaginar uma doutrinação mais conformista e resignada...

Essa atitude mantém e reforça a perspectiva de nossa própria condição como “heróica”, ao mesmo tempo em que aponta para o contrário disso, a saber: uma desistência da luta para modificar objetiva-, real- e concretamente as condições que geram o sofrimento. O indivíduo é instado a lutar, digerir e simbolizar suas dores como substituto e representação alegórica em escala “micro” do que acontece e se desdobra segundo uma lógica bastante diferente e muito mais ampla do que seus complexos subjetivos, emocionais e psíquicos. Não é difícil concluir, junto com Nietzsche, que estamos diante de uma doutrinação radicalmente apolítica, que se regozija com o esquecimento da objetividade do mundo. Por outro lado, negligencia-se uma outra objetividade, concebível de um ponto de vista psicanalítico, a saber: de nossos desejos, fantasias, traumas e inibições inconscientes, que estão na base do que é vivido na superfície como sofrimento, dor e angústia. O resultado deste duplo esquecimento situa o indivíduo em um palco em que toda sua percepção e leitura de mundo obedecem a regras e poderes que ele não apenas desconhece, mas até mesmo se esforça em fazê-lo, transformando-se em um marionete conduzido de forma política e psíquica.

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