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sábado, 2 de agosto de 2014

O direito ao silêncio


Silence like a cancer grows” (“O silêncio cresce como um câncer”), diz a famosa música gravada por Simon e Garfunkel, Sounds of silence, tomando como matéria poética a proliferação de imagens, anúncios, letreiros coloridos e luminosos, que ocorre em detrimento da fala, da voz e dos sons, índices da proximidade corporal, concreta e viva entre as pessoas. Trata-se de uma letra de música muito bonita, e não cabe aqui fazer-lhe uma crítica quanto a seu teor de verdade ou falsidade. Tomo-a apenas como ponto de partida para exprimir a minha percepção, no cotidiano das grandes metrópoles, de que, ao contrário do que diz aquela frase, o ruído, o barulho e os diversos sons crescem como um câncer.

Jean Baudrillard havia dito que a extrema concentração populacional das metrópoles, por si, é causa de maravilhamento, de assombro, produzindo o fascínio da multiplicação telúrica das vias de contato, não apenas para aproximação e afeto positivo, mas igualmente repulsa, animosidade e choques. Todo este caldo de conexões, das menos às mais tensionadas, das calmas e serenas às mais explosivas, produz incessantemente questões acerca de nosso posicionamento no palco citadino habitado por todos. A saturação vivencial se prolonga na eterna indefinição dos limites e pontos de contato, sempre e de novo exigindo o reajuste de nossas cobranças e níveis de tolerância.

No contexto de reflexões libertárias, que favorecem o senso de individualidade e suas formas variadas de expressão, o princípio da tolerância é instado a um exercício proporcional ao quanto queremos nos afirmar. Para ser coerente, quanto mais se defende a explicitação das diferenças de comportamento, mais é necessário tolerar alguma invasão em nosso próprio terreno por modos de ser e condutas que não se situam exclusivamente, por assim dizer, no raio de ação de suas próprias escolhas. — Nesse cenário, como fica o direito ao silêncio e sua contrapartida: o de poder se exprimir e se afirmar em atividades ruidosas?

Penso que o gosto pelo silêncio é muito mais importante do que a tolerância com o ruído e os sons alheios. O nível de consciência de pertencimento ao âmbito coletivo, de civilidade e de cidadania parece-me francamente muito mais ligado à importância que se dá ao direito alheio de não ser perturbado por música, gritos, buzinas, brincadeiras infantis, latidos de cachorro etc., do que ao princípio ético de tolerância a tudo isto. Essa perspectiva contrasta de forma irônica com a situação conhecida por todos nós em que, ao reclamarmos com alguém que está dando uma festa até tarde da noite, somos chamados de chatos, como se aquela reclamação demonstrasse uma hiper-sensibilidade, algo exagerado, uma intolerância incompatível com a vida em comum.

É inegável que nas metrópoles torna-se de crucial importância não se afetar em demasia pelos sons alheios, mas, considerando a quantidade absurda de fontes de ruídos, tanto voluntários quanto decorrentes do trânsito, máquinas de construção civil, e outros inevitáveis, por mais que cada um se abstenha de ouvir música em volume alto, oferecer festas noturnas, deixar o cachorro latir etc., ainda assim a situação de silêncio que precisamos para atividades até mesmo triviais como ver um filme sempre será afetada várias vezes ao longo do dia.

De forma análoga a como o espaço das vias públicas cada vez mais se torna um problema social, uma vez que é bastante limitado e não comporta os automóveis particulares de todos que tenham recursos para adquiri-los, assim também a atmosfera deve ser pensada como contendo um espaço acústico a ser dividido entre todos, e o prazer com atividades expansivas e barulhentas deve ceder lugar francamente ao direito de permanecer em silêncio. Nesse sentido, propagandas comerciais com carros de som, por exemplo, deveriam ser completamente banidas. Não faz o menor sentido ceder este espaço acústico comum, coletivo, para que algumas pessoas vendam melhor seus produtos.

Em vez de se pensar que o imperativo do silêncio signifique a restrição de modos de ser, em outras palavras: uma forma de “repressão”, vale muito mais concebê-lo como favorecimento de modos de vida que possam coexistir de forma bem mais harmônica. Essa segunda perspectiva aparece como bem mais difícil de se assumir em virtude de que o barulho, por si, pode ser facilmente um instrumento, um veículo, uma via de preenchimento de si, de doação de sentido, de fuga da percepção do vazio da existência. Tal como é muito claro que muitas pessoas se alimentam várias vezes ao longo do dia para fugir do tédio e da monotonia na busca de gratificação instantânea das comidas (normalmente doces), atividades ruidosas também fornecem esta percepção ilusória de fugir da insignificância de sua própria existência.

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