Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 27 de setembro de 2014

Entre o universal e o particular

Uma questão relevante para toda a atividade teórica é o peso relativo que se deve dar, em cada interpretação de uma realidade, para a validade geral dos conceitos e para a singularidade, para o caráter específico de um fato, objeto, circunstância, processo etc. Entre a crença no poder esclarecedor dos primeiros e o desejo de fidelidade aos segundos, sempre será uma difícil tarefa encontrar um meio-termo não apenas adequado, mas convincente. Essa problemática foi especialmente elucidada através da epistemologia de Thomas Kuhn, em que se compreendeu a atividade da ciência a partir do tensionamento entre a fidelidade inexpugnável a um paradigma e a observância do quanto fatos particulares se mostram avessos a essa leitura previamente determinada. Se isso é bastante intrincado e sujeito a infinitos debates no âmbito das ciências exatas e experimentais, tanto mais tende a sê-lo no campo das ciências humanas, em que, como sabemos, a discrepância entre princípios universais e atitudes/comportamentos — mesmo considerados no âmbito da sociedade — é muito mais a regra do que um elemento que gravita ao redor do núcleo mais substantivo de um paradigma. No caso da psicanálise, ao qual quero me dedicar aqui, essa dificuldade constitui uma questão-chave da própria teoria.

Quando o psicanalista está diante do relato de seu paciente, a adesão incondicional aos conceitos teóricos de Freud, Lacan, Melanie Klein e outros conduz perigosamente a uma espécie de variante do que Freud chamou de psicanálise selvagem, pois, mesmo que não o seja de forma literal, uma vez que o analista pode de fato levar em consideração a especificidade dos sintomas e a capacidade de o analisando assimilar o que lhe é falado, ainda assim pode-se passar ao largo do que caracteriza a “verdade pessoal” do paciente.

O outro extremo é a crença exagerada na leitura “intuitiva” do que é trazido ao consultório, momento em que a grande atenção à singularidade do que é relatado não é um índice seguro de sua verdade, pois, no limite, nem mesmo se poderá dizer que o tratamento é psicanalítico. Se abdicamos do conceito de inconsciente e de recalque, por exemplo, dificilmente se podem compreender todos os conteúdos transmitidos através da fala como a superfície de um complexo subjetivo que somente pode ser compreendido em suas falhas, incongruências e compulsões em virtude de conteúdos não-manifestos, cujo conflito eclode nas formas dos sonhos e sintomas.

A grande questão é posta pela dificuldade de estabelecer qualquer princípio geral de mediania ou razoabilidade do quanto deve pesar a especificidade do relato e a validade dos conceitos na escuta psicanalítica. Isto se torna especialmente dramático tendo em vista que a psicanálise tende a abdicar do desejo de uma “correção” do modo como cada indivíduo concebe a si mesmo. A remoção desejável dos sintomas, como uma das consequências esperadas de um bom tratamento, precisa incluir a incerteza fundamental do quanto o sujeito se identifica com tudo aquilo que configura sua própria neurose. Esta não é apenas um mal a ser extirpado como se fosse um tumor maligno, pois através dela muita coisa é tornada possível de se fazer trafegar e circular psiquicamente, dando a cada um a possibilidade de se firmar e se afirmar no trânsito com as outras pessoas e com as suas próprias capacidades de ação.

Em última instância, eu diria que a verdade psicanalítica se instaura sempre como um movimento de atualização crítica dos processos de formação e de trânsito entre a interioridade individual e a exterioridade objetiva da cultura. Tal mobilidade nos leva a pensar que o ponto de equilíbrio entre a particularidade e a universalidade se desloca não apenas de analisando para  analisando, mas também de momento a outro no processo analítico de cada um. É o processo contínuo de recolocação em perspectiva do que já havia sido dito e trabalhado que pode conduzir a uma verdade que não seja nem a mera aceitação intuitiva do que é expresso, nem a reprodução “selvagem” do que é garantido pela teoria.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A realidade como um clichê


De vez em quando leio colunas de jornal e textos de blogs de pessoas muito bem intencionadas que inserem um “o PT errou” em meio a comentários elogiosos e críticos. Essa fala é mais do que evidente: é tautológica. Todos nós erramos, já no âmbito individual, quanto mais um partido que congrega milhares de pessoas, tendo que se haver com correntes políticas e econômicas poderosíssimas, que possuem sustentação eleitoral. A grande questão está é em como ponderar os erros do partido e seus acertos, dentro de uma ótica política macro.

Nesse momento, vejo aqueles mesmos textos e colunas fazerem uma longa análise do partido e suas chances eleitorais como se essas derivassem dos “erros” vistos em sua existência tal como interpretam. Ora, a adesão eleitoral precisa, sempre e obrigatoriamente, ser analisada à luz dos mecanismos de evidenciação dos erros e acertos dos partidos, a saber: os meios de comunicação em massa. Como é óbvio, esses veículos não apenas “informam”, mas selecionam o que informar, com que ênfase, com que grau de profundidade e de desdobramento, e um mar de outras coisas que impedem completamente uma linha contínua entre o “erro do PT” e suas chances eleitorais — o que, aliás, vale também para os outros partidos.

O poder da mídia pode ser medido não apenas pelo que ela produz, mas também pelo que ela evita, impede, bloqueia. Se tudo o que ocorreu no governo Aécio Neves fosse trazido à baila e evidenciado de forma proporcional a como se faz em relação ao PT, Aécio nem sequer teria sido reeleito, quanto mais se arrogaria a concorrer à presidência. Por outro lado, o poder de veto sobre notícias ruins sobre Aécio (seus “erros”) foi suficiente para ele se reeleger, mas não para convencer a todos que tenha política propositiva o bastante para o âmbito nacional. O “poder de manipulação” (tal como se costuma dizer pejorativamente) pode ser extremamente forte, sem que isso chegue a significar a “introjeção” de preferências políticas de forma totalmente acachapante. “Ser forte” é diferente de “ser decisivo em todos os planos”.

Agora entra em jogo o aspecto mais interessante. Embora essa mediação da mídia seja mais do que evidente, entretanto muitas vezes não só é esquecida, como ainda por cima é recusada sob o estigma de “não adianta continuar jogando a culpa na imprensa”. É como se a ideia da atuação midiática, sendo repetitiva, tornasse-se um clichê, um “discurso pronto”, que “se esgotou”, e que, assim, teria perdido a validade. Ora, o que os dispositivos de poder mais querem é isso mesmo: transformarem-se em uma segunda natureza devido ao modo como se impõem sistemática e continuamente. É preciso falar o óbvio, para que ele não se dilua de tal forma na realidade que chegue a se confundir com ela. Que seja sempre necessário encontrar argumentos novos não nos dispensa da necessidade de sempre lembrar algo que parece se tornar inválido como um clichê, porque simplesmente a própria realidade se transformou em um! Nesse momento, vale a ideia de Theodor Adorno de que não só o discurso sobre o real é falso, mas a própria realidade, sob o peso das relações de poder que nos impedem de ver além delas.

sábado, 13 de setembro de 2014

Identificação versus progresso


Embora comprar uma calça e votar em uma eleição para governador sejam ações muito diferentes, já há muito tempo se observou criticamente que o mecanismo de divulgação e propaganda em ambos os casos tornou-se bastante semelhante. Não faltam análises de como a política passou a ser fortemente influenciada pelos mecanismos publicitários, não apenas na produção dos programas televisivos do horário eleitoral gratuito, mas também na promoção dos candidatos em diversos outros meios, incluindo suas falas em comícios. O quanto tal semelhança é verdadeira, ou seja, até que ponto estratégias de campanha política absorveram as relativas a quaisquer mercadorias, isto é algo complexo e que não temos como analisar agora. Gostaria apenas de tecer algumas considerações sobre um princípio comum de assimilação da oferta de uma candidatura e de um produto mercadológico específico, a saber, de cursos preparatórios para o vestibular ou cargos públicos.

Já deve ter chamado sua atenção o fato de que os cursos pré-vestibulares, em sua grande maioria, preferem fazer propaganda com base nos alunos que mais se destacaram, alcançando os primeiros lugares de cada curso, em vez de indicarem o percentual de seus estudantes que foram aprovados. A explicação mais imediata seria a de que a primeira estratégia dissimula baixos índices de aprovação, evidenciando os melhores alunos para encobrir o fato de a porcentagem de aprovados ser pequena. Embora isso deva ser realmente o caso em diversas circunstâncias, em mais de uma vez vi peças publicitárias de cursinhos em que havia os dois tipos informação, sendo que a primeira, referente aos mais bem colocados, recebia todo destaque, enquanto a outra tinha uma visibilidade pequena. Quero crer que isso é mais representativo da mentalidade de uma grande parte da classe média do que apenas indicador de uma via de comercialização deste serviço.

Para o estudante mediano, parece-me inquestionável que vale muito mais o percentual de aprovação dos estudantes em um curso do que o fato de ali ter estudado alguém que passou em primeiro lugar, mas mesmo assim os publicitários sabem que um curso ganhará mais alunos usando a estratégia de mostrar os primeiros lugares. Por quê?

De forma análoga a como grandes produções de Hollywood enfatizam com todas as letras e imagens quem é o ator ou atriz principal, deixando em segundo ou terceiro planos o diretor ou até o próprio enredo, aquelas campanhas publicitárias demonstram que o indivíduo de classe média é muito mais fortemente atraído pela via da identificação com quem mais “brilhou” em um concurso do que pela maior possibilidade concreta de ele mesmo obter sucesso. Está em jogo a típica mentalidade desse estrato sócio-econômico: sente mais prazer e motivação para se identificar com quem está no topo, com quem demonstra um ideal de riqueza, excelência e beleza, do que com estratégias sociais, econômicas e políticas por assim dizer ascendentes, que, por mais que o beneficiem, não veiculam este prazer imaginário de se situar para além daquilo que já se é. Entre o gozo imaginário do sucesso e o favorecimento na prática de vida cotidiana, as classes médias tendem, em uma medida preocupante, ao primeiro.

Se empregarmos este princípio de análise na adesão às propostas políticas, então compreendemos com clareza que políticas voltadas para a inclusão social, que tendem a beneficiar grande contingente de pessoas marginalizadas e excluídas socialmente, podem contar muito pouco para a classe média, por mais que se assuma conscientemente que tais propostas são as mais relevantes no âmbito macro da sociedade. De forma análoga à situação do curso pré-vestibular, mesmo que certas estratégias de ação governamental incluam um tal indivíduo como seu destinatário, o impacto afetivo pode ser fraco a ponto de elas não serem “compradas”.

Tal como Marx disse, em diversos momentos é necessário convencer aos trabalhadores a agirem de acordo com o que é de seu próprio interesse. Com o crescimento avassalador da sociedade de consumo no decorrer do século XX, que inclui um extremo cultivo da própria personalidade, aquele poder de adesão fomentado por processos identificatórios imaginários tende a ganhar muita força, sobrepujando investimentos afetivos em âmbitos que produzem satisfações bem mais tangíveis, palpáveis, mas que possuem a grave “precariedade” de não transportarem imediatamente cada pessoa a um mundo de realização plena. Esta última tarefa é muito mais bem realizada por todo o contexto do consumo, seja de objetos ou de obras culturais. — Esta conexão estrutural entre a atitude do consumo e a adesão a propostas políticas é a mais preocupante, e não o fato de que campanhas eleitorais se sirvam de estratégias publicitárias usadas para mercadorias ou serviços.

sábado, 6 de setembro de 2014

Medo 2.0?


A candidata Marina Silva e alguns de seus apoiadores têm dito que Dilma e seus partidários estão revivendo o uso do medo como fator determinante nas eleições presidenciais, tal como foi feito contra Lula nas eleições de 2002. Naquela época, a atriz Regina Duarte apareceu em várias das peças televisivas de José Serra afirmando explicitamente que tinha medo de um eventual governo do PT. A questão é: em que medida as críticas colocadas a Marina possuem o mesmo sentido que as da campanha de José Serra?

Inicialmente, é preciso reconhecer que não se podem excluir os afetos como um princípio motor de decisões políticas, sejam as do eleitorado, sejam as dos governantes — o quanto ele é legítimo e portanto justificado, eis a questão a ser vista mais de perto.

Toda escolha popular de um governante está marcada por algum grau de indefinição, que aumenta com a perspectiva de vitória de um grupo político diferente do que já ocupa o poder. Considerando as dimensões continentais e a enorme população do Brasil, inserido no cenário capitalista globalizado, tal incerteza pode ser obviamente vivida como fonte de insegurança, receio e medo. No caso das campanhas, a legitimidade de se apontar os riscos de candidaturas adversárias é avaliada em função do modo como se evidenciam as causas ou os próprios afetos. Em 2002, a estratégia adotada foi muito claramente dirigida para se ressaltar a própria força e caráter imediato da apreensão, do receio, da insegurança. A frase “Eu tenho medo” ganhou destaque e era a protagonista número 1 das inserções estreladas por Regina Duarte. A escolha de uma atriz não foi por acaso: seu talento deveria ser usado precisamente no sentido de estimular muito mais a percepção do impacto afetivo vinculado à vitória de Lula do que a reflexão objetivamente pautada sobre o significado de suas propostas de governo.

Embora seja evidente, não custa nada lembrar que existem situações que devem ser realmente temidas e, portanto, evitadas enfaticamente. O bom e velho Aristóteles já dizia de forma muito clara que a disposição para enfrentar todos e quaisquer perigos não qualifica a coragem, mas sim a temeridade. A primeira está vinculada a uma avaliação sóbria dos ganhos e das perdas, dos riscos e das chances de sucesso com algo que pode ser causa de um mal. A segunda, por sua vez, embora esteja muito mais próxima da primeira do que a covardia, não se confunde com ela, em virtude do fato de não ser mediada por esta análise de nossas reais condições de sucesso. Ela tem algo importante em comum com a covardia: pode ser — ou normalmente o é — marcada por uma prevalência dos afetos em relação a um julgamento orientado às características e dados objetivos da realidade. O temerário e o covarde tendem a, cada um o seu modo, conectar de forma pouco mediada racionalmente todo o complexo de suas emoções, expectativas e angústias ao que se pode perceber imediatamente no objeto e contexto da ação, fazendo uma leitura muitas vezes apenas por uma imagem, frases de efeito, discursos inflamados etc.

Nesse sentido, penso que há, sim, vários aspectos na candidatura e na campanha de Marina Silva realmente perigosos para a situação política no Brasil, que devem ser vistos de perto, caso não desejemos ser temerários. Embora a postulante à presidência tenha dito que é a favor de um estado laico, algumas de suas falas têm demonstrado que suas posições políticas sofrem forte influência de sua religiosidade (ela é membro da denominação religiosa Assembleia de Deus). Uma especialmente significativa foi sua defesa ao pastor Marco Feliciano parante as críticas recebidas quando este ocupava a presidência da Comissão de Defesa de Direitos Humanos e Minorias no Congresso Nacional. Marina disse com todas as letras que o pastor era criticado não por suas ideias, mas sim pelo simples fato de ser evangélico.

Ora, Feliciano propôs e defendeu arduamente que os psicólogos pudessem oferecer tratamento e cura para a homossexualidade, contrariando o que havia disposto o Conselho Federal de Psicologia. É mais do que evidente que essa contrariedade aos direitos humanos dos homossexuais — que querem que sua escolha afetiva não possa ser tratada como doença — está diretamente relacionada a uma leitura de viés fundamentalista da bíblia, mas igualmente óbvio é que ela foi violentamente atacada por seu conteúdo, e não meramente porque seu autor provém de uma igreja evangélica. Isso demonstrou o quanto a postura de Marina Silva possui um pendor corporativista ligado à defesa de grupos religiosos, passando por cima de um dado mais do que evidente do que significa a tarefa política de progresso para o reconhecimento da dignidade de minorias marginalizadas pelo sistema social, político e econômico atual. Pergunta: o que custaria a Marina dizer algo minimamente sensato nesse episódio? Por exemplo: “Não vejo problema algum em um evangélico como Feliciano ser presidente desta Comissão, mas creio que alguns pontos levantados por ele não são válidos, como permitir a oferta de cura a homossexuais”. Isso significaria desprestígio em geral para sua seita? Faria com que ela perdesse muito apoio popular evangélico? — Ou será que ela concorda que os psicólogos possam oferecer tratamento e cura para a homossexualidade?

Sendo a candidata oriunda de uma longa luta a favor do meio ambiente, compreende-se com especial clareza que ela considere importante investir em fontes de energia alternativas ao petróleo. Dificilmente alguém com uma visão progressista iria discordar disso. A construção de um futuro sustentável, não para apenas o país, mas para o mundo, passa necessariamente por diminuir ao máximo a dependência com as fontes de energia não-renováveis. Tal investimento, entretanto, precisa ser realizado de forma absolutamente sóbria, calculando as perdas e ganhos na substituição em jogo em cada caso, bem como o tempo oportuno para sua implementação. Marina indicou que se deveria investir menos na produção de petróleo das bacias do pré-sal, argumentando pela necessidade da busca de outras fontes de energia.

Ora, aquelas reservas petrolíferas, no momento presente, são altamente relevantes para o Brasil. Planeja-se investir seus recursos majoritariamente em educação e saúde, e significam um passo relevante para consolidar a autonomia do Brasil como produtor de petróleo. Em nome de um ideário ambientalista em si mesmo justificável, não se pode, todavia, “forçar” as condições atuais a se adequarem a isto que parece claramente um utopismo verde totalmente irrealista.

Estas e outras proposições mais polêmicas, como a proibição da pesquisa com células tronco e a autonomia plena para o Banco Central, parecem-me delinear um quadro extremamente perigoso ao futuro do Brasil. Não temer isto, agir como se se tratasse de elementos menores em um contexto macro, apostando na necessidade de uma reformulação geral da condução do país — tudo isto me parece, de fato, muito temerário.