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terça-feira, 16 de setembro de 2014

A realidade como um clichê


De vez em quando leio colunas de jornal e textos de blogs de pessoas muito bem intencionadas que inserem um “o PT errou” em meio a comentários elogiosos e críticos. Essa fala é mais do que evidente: é tautológica. Todos nós erramos, já no âmbito individual, quanto mais um partido que congrega milhares de pessoas, tendo que se haver com correntes políticas e econômicas poderosíssimas, que possuem sustentação eleitoral. A grande questão está é em como ponderar os erros do partido e seus acertos, dentro de uma ótica política macro.

Nesse momento, vejo aqueles mesmos textos e colunas fazerem uma longa análise do partido e suas chances eleitorais como se essas derivassem dos “erros” vistos em sua existência tal como interpretam. Ora, a adesão eleitoral precisa, sempre e obrigatoriamente, ser analisada à luz dos mecanismos de evidenciação dos erros e acertos dos partidos, a saber: os meios de comunicação em massa. Como é óbvio, esses veículos não apenas “informam”, mas selecionam o que informar, com que ênfase, com que grau de profundidade e de desdobramento, e um mar de outras coisas que impedem completamente uma linha contínua entre o “erro do PT” e suas chances eleitorais — o que, aliás, vale também para os outros partidos.

O poder da mídia pode ser medido não apenas pelo que ela produz, mas também pelo que ela evita, impede, bloqueia. Se tudo o que ocorreu no governo Aécio Neves fosse trazido à baila e evidenciado de forma proporcional a como se faz em relação ao PT, Aécio nem sequer teria sido reeleito, quanto mais se arrogaria a concorrer à presidência. Por outro lado, o poder de veto sobre notícias ruins sobre Aécio (seus “erros”) foi suficiente para ele se reeleger, mas não para convencer a todos que tenha política propositiva o bastante para o âmbito nacional. O “poder de manipulação” (tal como se costuma dizer pejorativamente) pode ser extremamente forte, sem que isso chegue a significar a “introjeção” de preferências políticas de forma totalmente acachapante. “Ser forte” é diferente de “ser decisivo em todos os planos”.

Agora entra em jogo o aspecto mais interessante. Embora essa mediação da mídia seja mais do que evidente, entretanto muitas vezes não só é esquecida, como ainda por cima é recusada sob o estigma de “não adianta continuar jogando a culpa na imprensa”. É como se a ideia da atuação midiática, sendo repetitiva, tornasse-se um clichê, um “discurso pronto”, que “se esgotou”, e que, assim, teria perdido a validade. Ora, o que os dispositivos de poder mais querem é isso mesmo: transformarem-se em uma segunda natureza devido ao modo como se impõem sistemática e continuamente. É preciso falar o óbvio, para que ele não se dilua de tal forma na realidade que chegue a se confundir com ela. Que seja sempre necessário encontrar argumentos novos não nos dispensa da necessidade de sempre lembrar algo que parece se tornar inválido como um clichê, porque simplesmente a própria realidade se transformou em um! Nesse momento, vale a ideia de Theodor Adorno de que não só o discurso sobre o real é falso, mas a própria realidade, sob o peso das relações de poder que nos impedem de ver além delas.

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