De vez em quando leio colunas de jornal e textos de blogs de
pessoas muito bem intencionadas que inserem um “o PT errou” em meio a
comentários elogiosos e críticos. Essa fala é mais do que evidente: é
tautológica. Todos nós erramos, já no âmbito individual, quanto mais um partido
que congrega milhares de pessoas, tendo que se haver com correntes políticas e
econômicas poderosíssimas, que possuem sustentação eleitoral. A grande questão
está é em como ponderar os erros do partido e seus acertos, dentro de uma ótica
política macro.
Nesse momento, vejo aqueles mesmos textos e colunas fazerem
uma longa análise do partido e suas chances eleitorais como se essas derivassem
dos “erros” vistos em sua existência tal como interpretam. Ora, a adesão
eleitoral precisa, sempre e obrigatoriamente, ser analisada à luz dos
mecanismos de evidenciação dos erros e acertos dos partidos, a saber: os meios
de comunicação em massa. Como é óbvio, esses veículos não apenas “informam”,
mas selecionam o que informar, com que ênfase, com que grau de profundidade e
de desdobramento, e um mar de outras coisas que impedem completamente uma linha
contínua entre o “erro do PT” e suas chances eleitorais — o que, aliás, vale
também para os outros partidos.
O poder da mídia pode ser medido não apenas pelo que ela
produz, mas também pelo que ela evita, impede, bloqueia. Se tudo o que ocorreu
no governo Aécio Neves fosse trazido à baila e evidenciado de forma
proporcional a como se faz em relação ao PT, Aécio nem sequer teria sido
reeleito, quanto mais se arrogaria a concorrer à presidência. Por outro lado, o
poder de veto sobre notícias ruins sobre Aécio (seus “erros”) foi suficiente
para ele se reeleger, mas não para convencer a todos que tenha política
propositiva o bastante para o âmbito nacional. O “poder de manipulação” (tal
como se costuma dizer pejorativamente) pode ser extremamente forte, sem que
isso chegue a significar a “introjeção” de preferências políticas de forma
totalmente acachapante. “Ser forte” é diferente de “ser decisivo em todos os
planos”.
Agora entra em jogo o aspecto mais interessante. Embora essa
mediação da mídia seja mais do que evidente, entretanto muitas vezes não só é
esquecida, como ainda por cima é recusada sob o estigma de “não adianta continuar
jogando a culpa na imprensa”. É como se a ideia da atuação midiática, sendo
repetitiva, tornasse-se um clichê, um “discurso pronto”, que “se esgotou”, e
que, assim, teria perdido a validade. Ora, o que os dispositivos de poder mais
querem é isso mesmo: transformarem-se em uma segunda natureza devido ao modo
como se impõem sistemática e continuamente. É preciso falar o óbvio, para que
ele não se dilua de tal forma na realidade que chegue a se confundir com ela.
Que seja sempre necessário encontrar argumentos novos não nos dispensa da
necessidade de sempre lembrar algo que parece se tornar inválido como um
clichê, porque simplesmente a própria realidade se transformou em um! Nesse
momento, vale a ideia de Theodor Adorno de que não só o discurso sobre o real é
falso, mas a própria realidade, sob o peso das relações de poder que nos
impedem de ver além delas.

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