Uma questão relevante para toda a atividade teórica é o peso
relativo que se deve dar, em cada interpretação de uma realidade, para a
validade geral dos conceitos e para a singularidade, para o caráter específico
de um fato, objeto, circunstância, processo etc. Entre a crença no poder
esclarecedor dos primeiros e o desejo de fidelidade aos segundos, sempre será
uma difícil tarefa encontrar um meio-termo não apenas adequado, mas
convincente. Essa problemática foi especialmente elucidada através da epistemologia
de Thomas Kuhn, em que se compreendeu a atividade da ciência a partir do
tensionamento entre a fidelidade inexpugnável a um paradigma e a observância do
quanto fatos particulares se mostram avessos a essa leitura previamente
determinada. Se isso é bastante intrincado e sujeito a infinitos debates no
âmbito das ciências exatas e experimentais, tanto mais tende a sê-lo no campo
das ciências humanas, em que, como sabemos, a discrepância entre princípios
universais e atitudes/comportamentos — mesmo considerados no âmbito da
sociedade — é muito mais a regra do que um elemento que gravita ao redor do
núcleo mais substantivo de um paradigma. No caso da psicanálise, ao qual quero
me dedicar aqui, essa dificuldade constitui uma questão-chave da própria
teoria.
Quando o psicanalista está diante do relato de seu paciente,
a adesão incondicional aos conceitos teóricos de Freud, Lacan, Melanie Klein e
outros conduz perigosamente a uma espécie de variante do que Freud chamou de
psicanálise selvagem, pois, mesmo que não o seja de forma literal, uma vez que
o analista pode de fato levar em consideração a especificidade dos sintomas e a
capacidade de o analisando assimilar o que lhe é falado, ainda assim pode-se
passar ao largo do que caracteriza a “verdade pessoal” do paciente.
O outro extremo é a crença exagerada na leitura “intuitiva”
do que é trazido ao consultório, momento em que a grande atenção à
singularidade do que é relatado não é um índice seguro de sua verdade, pois, no
limite, nem mesmo se poderá dizer que o tratamento é psicanalítico. Se
abdicamos do conceito de inconsciente e de recalque, por exemplo, dificilmente
se podem compreender todos os conteúdos transmitidos através da fala como a
superfície de um complexo subjetivo que somente pode ser compreendido em suas
falhas, incongruências e compulsões em virtude de conteúdos não-manifestos,
cujo conflito eclode nas formas dos sonhos e sintomas.
A grande questão é posta pela dificuldade de estabelecer
qualquer princípio geral de mediania ou razoabilidade do quanto deve pesar a
especificidade do relato e a validade dos conceitos na escuta psicanalítica.
Isto se torna especialmente dramático tendo em vista que a psicanálise tende a
abdicar do desejo de uma “correção” do modo como cada indivíduo concebe a si
mesmo. A remoção desejável dos sintomas, como uma das consequências esperadas
de um bom tratamento, precisa incluir a incerteza fundamental do quanto o
sujeito se identifica com tudo aquilo que configura sua própria neurose. Esta
não é apenas um mal a ser extirpado como se fosse um tumor maligno, pois
através dela muita coisa é tornada possível de se fazer trafegar e circular
psiquicamente, dando a cada um a possibilidade de se firmar e se afirmar no
trânsito com as outras pessoas e com as suas próprias capacidades de ação.
Em última instância, eu diria que a verdade psicanalítica se
instaura sempre como um movimento de atualização crítica dos processos
de formação e de trânsito entre a interioridade individual e a exterioridade
objetiva da cultura. Tal mobilidade nos leva a pensar que o ponto de equilíbrio
entre a particularidade e a universalidade se desloca não apenas de analisando
para analisando, mas também de momento a outro no processo analítico de cada
um. É o processo contínuo de recolocação em perspectiva do que já havia sido
dito e trabalhado que pode conduzir a uma verdade que não seja nem a mera
aceitação intuitiva do que é expresso, nem a reprodução “selvagem” do que é
garantido pela teoria.

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