A candidata Marina Silva e alguns de seus
apoiadores têm dito que Dilma e seus partidários estão revivendo o uso do medo
como fator determinante nas eleições presidenciais, tal como foi feito contra
Lula nas eleições de 2002. Naquela época, a atriz Regina Duarte apareceu em
várias das peças televisivas de José Serra afirmando explicitamente que tinha
medo de um eventual governo do PT. A questão é: em que medida as críticas
colocadas a Marina possuem o mesmo sentido que as da campanha de José Serra?
Inicialmente, é preciso reconhecer que não se
podem excluir os afetos como um princípio motor de decisões políticas, sejam as
do eleitorado, sejam as dos governantes — o quanto ele é legítimo e portanto
justificado, eis a questão a ser vista mais de perto.
Toda escolha popular de um governante está
marcada por algum grau de indefinição, que aumenta com a perspectiva de vitória
de um grupo político diferente do que já ocupa o poder. Considerando as
dimensões continentais e a enorme população do Brasil, inserido no cenário
capitalista globalizado, tal incerteza pode ser obviamente vivida como fonte de
insegurança, receio e medo. No caso das campanhas, a legitimidade de se apontar
os riscos de candidaturas adversárias é avaliada em função do modo como se
evidenciam as causas ou os próprios afetos. Em 2002, a estratégia adotada foi
muito claramente dirigida para se ressaltar a própria força e caráter imediato
da apreensão, do receio, da insegurança. A frase “Eu tenho medo” ganhou
destaque e era a protagonista número 1 das inserções estreladas por Regina
Duarte. A escolha de uma atriz não foi por acaso: seu talento deveria ser usado
precisamente no sentido de estimular muito mais a percepção do impacto afetivo
vinculado à vitória de Lula do que a reflexão objetivamente pautada sobre o
significado de suas propostas de governo.
Embora seja evidente, não custa nada lembrar que
existem situações que devem ser realmente temidas e, portanto, evitadas
enfaticamente. O bom e velho Aristóteles já dizia de forma muito clara que a
disposição para enfrentar todos e quaisquer perigos não qualifica a coragem,
mas sim a temeridade. A primeira está vinculada a uma avaliação sóbria
dos ganhos e das perdas, dos riscos e das chances de sucesso com algo que pode
ser causa de um mal. A segunda, por sua vez, embora esteja muito mais próxima
da primeira do que a covardia, não se confunde com ela, em virtude do fato de
não ser mediada por esta análise de nossas reais condições de sucesso. Ela tem
algo importante em comum com a covardia: pode ser — ou normalmente o é —
marcada por uma prevalência dos afetos em relação a um julgamento orientado às
características e dados objetivos da realidade. O temerário e o covarde tendem
a, cada um o seu modo, conectar de forma pouco mediada racionalmente todo o
complexo de suas emoções, expectativas e angústias ao que se pode perceber
imediatamente no objeto e contexto da ação, fazendo uma leitura muitas vezes
apenas por uma imagem, frases de efeito, discursos inflamados etc.
Nesse sentido, penso que há, sim, vários aspectos
na candidatura e na campanha de Marina Silva realmente perigosos para a
situação política no Brasil, que devem ser vistos de perto, caso não desejemos
ser temerários. Embora a postulante à presidência tenha dito que é a favor de
um estado laico, algumas de suas falas têm demonstrado que suas posições
políticas sofrem forte influência de sua religiosidade (ela é membro da
denominação religiosa Assembleia de Deus). Uma especialmente significativa foi
sua defesa ao pastor Marco Feliciano parante as críticas recebidas quando este
ocupava a presidência da Comissão de Defesa de Direitos Humanos e Minorias no
Congresso Nacional. Marina disse com todas as letras que o pastor era criticado
não por suas ideias, mas sim pelo simples fato de ser evangélico.
Ora, Feliciano propôs e defendeu arduamente que
os psicólogos pudessem oferecer tratamento e cura para a homossexualidade,
contrariando o que havia disposto o Conselho Federal de Psicologia. É mais do
que evidente que essa contrariedade aos direitos humanos dos homossexuais — que
querem que sua escolha afetiva não possa ser tratada como doença — está
diretamente relacionada a uma leitura de viés fundamentalista da bíblia, mas
igualmente óbvio é que ela foi violentamente atacada por seu conteúdo, e não
meramente porque seu autor provém de uma igreja evangélica. Isso demonstrou o
quanto a postura de Marina Silva possui um pendor corporativista ligado à
defesa de grupos religiosos, passando por cima de um dado mais do que evidente
do que significa a tarefa política de progresso para o reconhecimento da
dignidade de minorias marginalizadas pelo sistema social, político e econômico
atual. Pergunta: o que custaria a Marina dizer algo minimamente sensato nesse
episódio? Por exemplo: “Não vejo problema algum em um evangélico como Feliciano
ser presidente desta Comissão, mas creio que alguns pontos levantados por ele
não são válidos, como permitir a oferta de cura a homossexuais”. Isso
significaria desprestígio em geral para sua seita? Faria com que ela perdesse
muito apoio popular evangélico? — Ou será que ela concorda que os psicólogos
possam oferecer tratamento e cura para a homossexualidade?
Sendo a candidata oriunda de uma longa luta a
favor do meio ambiente, compreende-se com especial clareza que ela considere
importante investir em fontes de energia alternativas ao petróleo. Dificilmente
alguém com uma visão progressista iria discordar disso. A construção de um
futuro sustentável, não para apenas o país, mas para o mundo, passa
necessariamente por diminuir ao máximo a dependência com as fontes de energia
não-renováveis. Tal investimento, entretanto, precisa ser realizado de forma
absolutamente sóbria, calculando as perdas e ganhos na substituição em jogo em
cada caso, bem como o tempo oportuno para sua implementação. Marina indicou que
se deveria investir menos na produção de petróleo das bacias do pré-sal,
argumentando pela necessidade da busca de outras fontes de energia.
Ora, aquelas reservas petrolíferas, no momento
presente, são altamente relevantes para o Brasil. Planeja-se investir seus
recursos majoritariamente em educação e saúde, e significam um passo relevante
para consolidar a autonomia do Brasil como produtor de petróleo. Em nome de um
ideário ambientalista em si mesmo justificável, não se pode, todavia, “forçar”
as condições atuais a se adequarem a isto que parece claramente um utopismo
verde totalmente irrealista.
Estas e outras proposições mais polêmicas, como a proibição da
pesquisa com células tronco e a autonomia plena para o Banco Central,
parecem-me delinear um quadro extremamente perigoso ao futuro do Brasil. Não
temer isto, agir como se se tratasse de elementos menores em um contexto macro,
apostando na necessidade de uma reformulação geral da condução do país — tudo
isto me parece, de fato, muito temerário.
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