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sábado, 6 de setembro de 2014

Medo 2.0?


A candidata Marina Silva e alguns de seus apoiadores têm dito que Dilma e seus partidários estão revivendo o uso do medo como fator determinante nas eleições presidenciais, tal como foi feito contra Lula nas eleições de 2002. Naquela época, a atriz Regina Duarte apareceu em várias das peças televisivas de José Serra afirmando explicitamente que tinha medo de um eventual governo do PT. A questão é: em que medida as críticas colocadas a Marina possuem o mesmo sentido que as da campanha de José Serra?

Inicialmente, é preciso reconhecer que não se podem excluir os afetos como um princípio motor de decisões políticas, sejam as do eleitorado, sejam as dos governantes — o quanto ele é legítimo e portanto justificado, eis a questão a ser vista mais de perto.

Toda escolha popular de um governante está marcada por algum grau de indefinição, que aumenta com a perspectiva de vitória de um grupo político diferente do que já ocupa o poder. Considerando as dimensões continentais e a enorme população do Brasil, inserido no cenário capitalista globalizado, tal incerteza pode ser obviamente vivida como fonte de insegurança, receio e medo. No caso das campanhas, a legitimidade de se apontar os riscos de candidaturas adversárias é avaliada em função do modo como se evidenciam as causas ou os próprios afetos. Em 2002, a estratégia adotada foi muito claramente dirigida para se ressaltar a própria força e caráter imediato da apreensão, do receio, da insegurança. A frase “Eu tenho medo” ganhou destaque e era a protagonista número 1 das inserções estreladas por Regina Duarte. A escolha de uma atriz não foi por acaso: seu talento deveria ser usado precisamente no sentido de estimular muito mais a percepção do impacto afetivo vinculado à vitória de Lula do que a reflexão objetivamente pautada sobre o significado de suas propostas de governo.

Embora seja evidente, não custa nada lembrar que existem situações que devem ser realmente temidas e, portanto, evitadas enfaticamente. O bom e velho Aristóteles já dizia de forma muito clara que a disposição para enfrentar todos e quaisquer perigos não qualifica a coragem, mas sim a temeridade. A primeira está vinculada a uma avaliação sóbria dos ganhos e das perdas, dos riscos e das chances de sucesso com algo que pode ser causa de um mal. A segunda, por sua vez, embora esteja muito mais próxima da primeira do que a covardia, não se confunde com ela, em virtude do fato de não ser mediada por esta análise de nossas reais condições de sucesso. Ela tem algo importante em comum com a covardia: pode ser — ou normalmente o é — marcada por uma prevalência dos afetos em relação a um julgamento orientado às características e dados objetivos da realidade. O temerário e o covarde tendem a, cada um o seu modo, conectar de forma pouco mediada racionalmente todo o complexo de suas emoções, expectativas e angústias ao que se pode perceber imediatamente no objeto e contexto da ação, fazendo uma leitura muitas vezes apenas por uma imagem, frases de efeito, discursos inflamados etc.

Nesse sentido, penso que há, sim, vários aspectos na candidatura e na campanha de Marina Silva realmente perigosos para a situação política no Brasil, que devem ser vistos de perto, caso não desejemos ser temerários. Embora a postulante à presidência tenha dito que é a favor de um estado laico, algumas de suas falas têm demonstrado que suas posições políticas sofrem forte influência de sua religiosidade (ela é membro da denominação religiosa Assembleia de Deus). Uma especialmente significativa foi sua defesa ao pastor Marco Feliciano parante as críticas recebidas quando este ocupava a presidência da Comissão de Defesa de Direitos Humanos e Minorias no Congresso Nacional. Marina disse com todas as letras que o pastor era criticado não por suas ideias, mas sim pelo simples fato de ser evangélico.

Ora, Feliciano propôs e defendeu arduamente que os psicólogos pudessem oferecer tratamento e cura para a homossexualidade, contrariando o que havia disposto o Conselho Federal de Psicologia. É mais do que evidente que essa contrariedade aos direitos humanos dos homossexuais — que querem que sua escolha afetiva não possa ser tratada como doença — está diretamente relacionada a uma leitura de viés fundamentalista da bíblia, mas igualmente óbvio é que ela foi violentamente atacada por seu conteúdo, e não meramente porque seu autor provém de uma igreja evangélica. Isso demonstrou o quanto a postura de Marina Silva possui um pendor corporativista ligado à defesa de grupos religiosos, passando por cima de um dado mais do que evidente do que significa a tarefa política de progresso para o reconhecimento da dignidade de minorias marginalizadas pelo sistema social, político e econômico atual. Pergunta: o que custaria a Marina dizer algo minimamente sensato nesse episódio? Por exemplo: “Não vejo problema algum em um evangélico como Feliciano ser presidente desta Comissão, mas creio que alguns pontos levantados por ele não são válidos, como permitir a oferta de cura a homossexuais”. Isso significaria desprestígio em geral para sua seita? Faria com que ela perdesse muito apoio popular evangélico? — Ou será que ela concorda que os psicólogos possam oferecer tratamento e cura para a homossexualidade?

Sendo a candidata oriunda de uma longa luta a favor do meio ambiente, compreende-se com especial clareza que ela considere importante investir em fontes de energia alternativas ao petróleo. Dificilmente alguém com uma visão progressista iria discordar disso. A construção de um futuro sustentável, não para apenas o país, mas para o mundo, passa necessariamente por diminuir ao máximo a dependência com as fontes de energia não-renováveis. Tal investimento, entretanto, precisa ser realizado de forma absolutamente sóbria, calculando as perdas e ganhos na substituição em jogo em cada caso, bem como o tempo oportuno para sua implementação. Marina indicou que se deveria investir menos na produção de petróleo das bacias do pré-sal, argumentando pela necessidade da busca de outras fontes de energia.

Ora, aquelas reservas petrolíferas, no momento presente, são altamente relevantes para o Brasil. Planeja-se investir seus recursos majoritariamente em educação e saúde, e significam um passo relevante para consolidar a autonomia do Brasil como produtor de petróleo. Em nome de um ideário ambientalista em si mesmo justificável, não se pode, todavia, “forçar” as condições atuais a se adequarem a isto que parece claramente um utopismo verde totalmente irrealista.

Estas e outras proposições mais polêmicas, como a proibição da pesquisa com células tronco e a autonomia plena para o Banco Central, parecem-me delinear um quadro extremamente perigoso ao futuro do Brasil. Não temer isto, agir como se se tratasse de elementos menores em um contexto macro, apostando na necessidade de uma reformulação geral da condução do país — tudo isto me parece, de fato, muito temerário.

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