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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Construção democrática


Em diversas ocasiões em que se realiza ou se propõe uma ação política inclusiva, de expansão do acesso de grandes populações carentes a um serviço essencial, como saúde e educação, as forças de direita utilizam o discurso da aristocracia, ou seja, de que é preciso pensar na “qualidade” e no “mérito”.

Isso ocorreu, paradigmaticamente, na expansão dos universidades federais, no programa Mais médicos e nas cotas sócio-raciais. Diante da criação de 18 universidades públicas nos governos Lula/Dilma, opositores — em diversos canais, como colunas de jornais e revistas — questionaram: “são todas bem aparelhadas? Possuem corpo docente bom?”. No caso do Mais médicos, questões desse teor (há outras) giram ao redor da qualificação dos profissionais, de sua habilidade com a língua portuguesa, e do suposto escamoteamento de um problema estrutural com a vinda de alguns profissionais. Essa última questão aparece também no programa das cotas sócio-raciais, em que a democratização do acesso por esse método seria um modo de retirar a atenção ao sistema educacional como um todo, além de ferir a meritocracia universitária.

Em termos gerais — que são os que cabem nesse espaço —, eu digo que nos três casos nós temos a luta entre dois projetos: um, progressista, que dar condições materiais basilares para que uma outra realidade se construa concretamente, e outro, que pensa no que já existe, já se faz, já é bom "por si".

Em relação à expansão do sistema universitário, eu responderia: todas as 18 universidades precisam, ao serem criadas, ser totalmente boas, bem equipadas e com bons profissionais? Não significarão etapas decisivas para que cursos sejam aperfeiçoados, que novos equipamentos sejam trazidos etc.? — No caso das cotas, não está em jogo apenas o que um número X de estudantes fará nos bancos das universidades, mas sim o que eles levarão para suas casas agora e depois de formados; isso sigificará um ponta-pé inicial para lenta inserção de outras camadas sociais no ensino público. A mudança pode, sim, ser profunda, apesar de seu início se dar na superfície.

A direita pensa através de conceitos qualificadores no agora, com categorias do que é bom/vituoso/qualificado já dentro da lógica do sistema. Ela tem uma enorme dificuldade de pensar em mudar essa própria lógica atuando lenta- e gradualmente em circunstâncias pontuais, de modo que, dando o peixe, possamos pescar porque o estômago já não dói tanto quanto antes.

O que a direita quer, na verdade, não é defender o que é bom e o que tem mérito, mas sim a lógica que já construiu o Bom e o Virtuoso, usando esses dois últimos como escudo contra a democratização do acesso a tais “qualidades”.

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