Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Metacrítica do voto nulo


Explico, inicialmente, a formulação do título: “metacrítica” é uma palavra empregada para uma crítica que se dirige a uma outra crítica. Quero aqui, então, criticar o que se tem chamado de “voto nulo crítico”.

Segundo algumas formulações em voga dessas eleições de 2014, anular o voto é uma espécie de primeiro passo em direção a uma atitude de não-subserviência a nenhum governo, de tal forma que significaria, neste segundo turno da eleição presidencial, votar contra o que há de ruim em ambas as propostas de governo do PT e PSDB, e engajar-se em uma luta ativa contra o que seriam as mazelas e desmandos do governo, seja lá qual ele for.

Entende-se perfeitamente a cobrança de maior mobilização civil, política e cidadã, em vez de somente sentir-se participante desse espaço quando se vota a cada 2 anos. É forçado reconhecer que, sem mobilização através de greves, manifestações e inserção nos meios adequados, como audiências públicas e fóruns comunitários, o voto torna-se uma mera delegação abstrata de poder, esvaziando toda a densidade representativa em termos políticos em sentido próprio. Nesse sentido, a agora tão falada “crise de representação” é também uma crise do desejo de interferir no modo como somos representados.

Ocorre que o “crítico” daquela expressão que acompanha o “voto nulo”, ao que me parece, não é reforçado nem instigado em nada ao se abdicar da escolha a quem criticar futuramente. Ora, a cobrança e o chamamento a uma participação política mais concreta deve ser, segundo penso, algo a mais no horizonte do exercício de cidadania democrática. Não vejo em absoluto em que aspecto a anulação do próprio voto se some ao ímpeto de intervenção cotidiana na condução do bem público e o aumente, estimule. Isso somente faria sentido se a pessoa, ao votar na candidatura vencedora, se sentisse “constrangida” a lhe cobrar, fazer frente, criticar etc., devido a alguma espécie de identificação ou sentimento de “cumplicidade”, o que não faz o menor sentido.

Na verdade, eu diria que, de certa forma, toda negatividade do voto nulo pode, tal como no voto positivo, absorver — e assim atenuar — em muito o ímpeto politizante, na medida em que a pessoa se “desliga” de tudo o que advém do governo, pois, afinal de contas, não contribuiu para a vitória nem para a derrota de ninguém. A anulação do voto pode ser vivida como um ato de revolta máximo, que já “satisfaz” em seu movimento de negação “do sistema”.

Assim, se o motivo para anular seu voto é esse: “a vida política cidadã deve ser exercida cotidianamente, de forma crítica e ativa”, eu diria: ajude a escolher com seu voto aquele que você acha que poderá ouvir melhor sua crítica, ou, em última instância, responda à questão: “quem você quer ter como ‘inimigo’ nos próximos anos?” — afinal de contas, há inimigos mais democráticos do que outros, por exemplo: enquanto a imprensa no Brasil diz abertamente o que bem quer sobre o governo federal — o que dá ensejo a uma maciça campanha negativa, empregando revelações seletivas de denúncias através do mecanismo de delação premiada no caso dos escândalos da Petrobrás —, em todos os 12 anos de governo do PSDB em MG, com Aécio Neves e Antônio Anastasia, mais de 70 pedidos de CPIs foram arquivados. É nítido e notório o silêncio abissal da imprensa desse estado em relação a tudo que pudesse comprometer a imagem pública do governo estadual. Apesar de o caso da construção do aeroporto na cidade de Cláudio já ser conhecido pelos meios de comunicação nesse estado, foi necessária uma reportagem de um veículo paulista de circulação nacional para que os próprios mineiros tomassem conhecimento do fato. — Além disso: apesar das várias críticas e acusações generalizadas à atuação do governo federal, tudo foi tratado no âmbito do próprio conteúdo das falas e das acusações. A atitude do sr Aécio Neves foi outra: pediu ao Twitter os dados pessoais de 66 pessoas e entrou com processo contra vários que supostamente o acusavam e espalhavam boatos e calúnias. O candidato também entrou com pedido à justiça para bloquear pesquisas na plataforma Google que o relacionassem ao consumo de drogas ilícitas.

Ora, não é difícil perceber que a atitude de combatividade política instigada na ideia de voto nulo crítico tende a ser enfrentada de forma perversa por parte de um possível governo do PSDB, bem ao contrário do que se pode perceber pelo modo com que o governo federal reage a uma enxurrada de acusações sem fundamento sólido, multiplicadas ao infinito em revistas e jornais francamente partidários da oposição.

Outro aspecto importantíssimo é o objeto da atitude política pró-ativa. O salário mínimo, nas gestões Lula e Dilma, cresceu em cerca de 90% em seu poder de compra. Tanto Aécio Neves quanto seu provável futuro ministro da fazenda Armínio Fraga já manifestaram uma posição de que este patamar está muito alto, prejudicando o equilíbrio econômico em geral e das empresas em particular. Ora, de qual dos dois governos queremos cobrar avanços? Qual dos dois está mais propenso a ouvir uma pressão social a aumentos mais significativos dos salários? Mesmo que digamos que o salário mínimo hoje esteja muito aquém do que deveria, de tal forma que devemos nos indignar com isto e pedir uma valorização bem mais substantiva do que a praticada atualmente, com qual posicionamento econômico seria melhor lutar? — É mais do que evidente que não é com alguém que diz que este patamar já está alto, não é mesmo?

Nenhum comentário: