Explico, inicialmente, a formulação do título: “metacrítica”
é uma palavra empregada para uma crítica que se dirige a uma outra crítica.
Quero aqui, então, criticar o que se tem chamado de “voto nulo crítico”.
Segundo algumas formulações em voga dessas eleições de 2014,
anular o voto é uma espécie de primeiro passo em direção a uma atitude de
não-subserviência a nenhum governo, de tal forma que significaria, neste
segundo turno da eleição presidencial, votar contra o que há de ruim em ambas
as propostas de governo do PT e PSDB, e engajar-se em uma luta ativa contra o
que seriam as mazelas e desmandos do governo, seja lá qual ele for.
Entende-se perfeitamente a cobrança de maior mobilização
civil, política e cidadã, em vez de somente sentir-se participante desse espaço
quando se vota a cada 2 anos. É forçado reconhecer que, sem mobilização através
de greves, manifestações e inserção nos meios adequados, como audiências
públicas e fóruns comunitários, o voto torna-se uma mera delegação abstrata de
poder, esvaziando toda a densidade representativa em termos políticos em
sentido próprio. Nesse sentido, a agora tão falada “crise de representação” é
também uma crise do desejo de interferir no modo como somos representados.
Ocorre que o “crítico” daquela expressão que acompanha o “voto
nulo”, ao que me parece, não é reforçado nem instigado em nada ao se abdicar da
escolha a quem criticar futuramente. Ora, a cobrança e o chamamento a uma
participação política mais concreta deve ser, segundo penso, algo a mais no
horizonte do exercício de cidadania democrática. Não vejo em absoluto em que
aspecto a anulação do próprio voto se some ao ímpeto de intervenção cotidiana
na condução do bem público e o aumente, estimule. Isso somente faria sentido se
a pessoa, ao votar na candidatura vencedora, se sentisse “constrangida” a lhe
cobrar, fazer frente, criticar etc., devido a alguma espécie de identificação
ou sentimento de “cumplicidade”, o que não faz o menor sentido.
Na verdade, eu diria que, de certa forma, toda negatividade
do voto nulo pode, tal como no voto positivo, absorver — e assim atenuar — em
muito o ímpeto politizante, na medida em que a pessoa se “desliga” de tudo o
que advém do governo, pois, afinal de contas, não contribuiu para a vitória nem
para a derrota de ninguém. A anulação do voto pode ser vivida como um ato de
revolta máximo, que já “satisfaz” em seu movimento de negação “do sistema”.
Assim, se o motivo para anular seu voto é esse: “a vida
política cidadã deve ser exercida cotidianamente, de forma crítica e ativa”, eu
diria: ajude a escolher com seu voto aquele que você acha que poderá ouvir
melhor sua crítica, ou, em última instância, responda à questão: “quem você
quer ter como ‘inimigo’ nos próximos anos?” — afinal de contas, há inimigos
mais democráticos do que outros, por exemplo: enquanto a imprensa no Brasil diz
abertamente o que bem quer sobre o governo federal — o que dá ensejo a uma
maciça campanha negativa, empregando revelações seletivas de denúncias através
do mecanismo de delação premiada no caso dos escândalos da Petrobrás —, em
todos os 12 anos de governo do PSDB em MG, com Aécio Neves e Antônio Anastasia,
mais de 70 pedidos de CPIs foram arquivados. É nítido e notório o silêncio
abissal da imprensa desse estado em relação a tudo que pudesse comprometer a
imagem pública do governo estadual. Apesar de o caso da construção do aeroporto
na cidade de Cláudio já ser conhecido pelos meios de comunicação nesse estado,
foi necessária uma reportagem de um veículo paulista de circulação nacional
para que os próprios mineiros tomassem conhecimento do fato. — Além disso:
apesar das várias críticas e acusações generalizadas à atuação do governo
federal, tudo foi tratado no âmbito do próprio conteúdo das falas e das
acusações. A atitude do sr Aécio Neves foi outra: pediu ao Twitter os dados
pessoais de 66 pessoas e entrou com processo contra vários que supostamente o
acusavam e espalhavam boatos e calúnias. O candidato também entrou com pedido à
justiça para bloquear pesquisas na plataforma Google que o relacionassem ao
consumo de drogas ilícitas.
Ora, não é difícil perceber que a atitude de combatividade
política instigada na ideia de voto nulo crítico tende a ser enfrentada de
forma perversa por parte de um possível governo do PSDB, bem ao contrário do
que se pode perceber pelo modo com que o governo federal reage a uma enxurrada
de acusações sem fundamento sólido, multiplicadas ao infinito em revistas e
jornais francamente partidários da oposição.
Outro aspecto importantíssimo é o objeto da atitude
política pró-ativa. O salário mínimo, nas gestões Lula e Dilma, cresceu em
cerca de 90% em seu poder de compra. Tanto Aécio Neves quanto seu provável
futuro ministro da fazenda Armínio Fraga já manifestaram uma posição de que
este patamar está muito alto, prejudicando o equilíbrio econômico em geral e
das empresas em particular. Ora, de qual dos dois governos queremos cobrar
avanços? Qual dos dois está mais propenso a ouvir uma pressão social a aumentos
mais significativos dos salários? Mesmo que digamos que o salário mínimo hoje
esteja muito aquém do que deveria, de tal forma que devemos nos indignar com
isto e pedir uma valorização bem mais substantiva do que a praticada
atualmente, com qual posicionamento econômico seria melhor lutar? — É mais do
que evidente que não é com alguém que diz que este patamar já está alto, não é
mesmo?

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