No debate entre os candidatos à presidência da república do
dia 28/09/2014, Levy Fidélix deu uma resposta surpreendente ao ser questionado
por Luciana Genro sobre seu posicionamento referente ao casamento civil
igualitário, que concede aos homossexuais as mesmas prerrogativas matrimoniais
que o restante da população. Veja essa parte do debate:
Embora as colocações do candidato seja evidentemente
homofóbicas, discriminatórias e francamente agressivas, seu argumento principal
ainda possui força no imaginário de milhões de pessoas. Trata-se da ideia de
que a disseminação em massa do comportamento homossexual significaria a virtual
ruína da humanidade, uma vez que a reprodução humana é apenas heterossexual.
Para fins de argumentação, vamos abstrair totalmente a possibilidade de
reprodução assistida por inseminação artificial e outros procedimentos
laboratoriais. É necessário criticar aquela perspectiva no plano em que ela se
coloca, pois o que está em jogo não é propriamente a dimensão material do que
ela explicita, mas sim seu fundamento e sentido éticos.
Que se trate de uma problemática ético-moral fica explícito
quando Fidélix, gesticulando enfaticamente, defende o orgulho de se dizer pai e
avô, pois, na verdade, ele revela nesse instante que seu desejo é o de impedir
que os homossexuais também tenham essa satisfação. Casais de gays e
lésbicas também podem adotar filhos e se tornar avós por este mesmo
dispositivo, se for o caso. Fidélis na verdade não defende um valor, mas sim o
privilégio de um conjunto da população em praticá-lo. O orgulho de criar um
filho, de dar-lhe uma boa educação e de lhe fornecer uma vida satisfatória — e
isso no próprio espírito da universalidade do amor cristão invocado naquele
discurso — deve ser compartilhado por todos os que o queiram, e a cláusula
restritiva de que isso seja outorgado apenas aos casais de homens e mulheres
não se justifica em hipótese alguma.
Analisemos, então, o argumento de que o comportamento
homossexual fere o princípio ético ligado à subsistência da humanidade. Ele
exprime uma concepção próxima do universalismo ético codificado por Kant:
devemos agir segundo um princípio que possa se tornar uma lei universal, válida
para todos seres racionais. Como desdobramento do que está implicado neste
preceito, o próprio filósofo disse que uma ação concebida nesses moldes também
seria guiada pela ideia de conttribuir para a manutenção da humanidade, pois
seu sentido e razão de ser sempre irá extrapolar o mero interesse individual,
privado, coincidindo com o interesse coletivo, universal.
Não é o caso aqui de fazer uma análise acerca do valor
filosófico em geral do universalismo ético. Quero apenas defender a ideia de
que seu uso como meio de justificar a recusa do casamento entre homossexuais
demonstra uma interpretação altamente equivocada.
Como se pode depreender de uma leitura minimamente
aprofundada dos textos de Kant, universalizável não é uma ação, mas seu
princípio motivacional concebido em um determinado plano de generalidade.
Quanto mais este princípio focar a especificidade material da escolha, mais
absurda se torna sua transposição para o âmbito da objetividade social, ou
seja, de sua universalidade. Quando alguém escolhe ser médico, por exemplo,
essa ação pode ser tomada como eticamente válida a partir do princípio: “cada
um deve escolher uma profissão de acordo com equilíbrio entre seus talentos,
seu prazer no exercício da profissão e as oportunidades concretas de um bom
ganho financeiro”. Note que este preceito não impõe uma escolha específica a
ninguém, pois acolhe as diferenças individuais como algo que não perturba o
movimento de universalização. Se, por outro lado, aquela escolha profissional
fosse movida pelo princípio: “existem muitos doentes no mundo e, se ninguém
optar por ser médico, haverá muito mais dor e sofrimento”, então tal escolha
seria por demais irrealista, chegando a ser anti-ética, uma vez que
desconsidera não apenas a necessidade de vários outros tipos de profissionais,
mas também o próprio talento e gosto pessoal pelo exercício da medicina.
A necessidade de pensar de forma conjunta e tendente ao
universal me parece suficientemente robusta (em uma inumerável quantidade de
situações), mas é necessário sempre e ao mesmo tempo levar em conta que uma
verdadeira coletividade é constituída por seres diferentes. Não é tornando
todas as ações iguais no sentido descritivo mais restrito que alcançaremos uma
universalidade harmônica, mediada pela coexistência das diferenças. A
escolha homossexual sempre será apenas uma entre outras praticadas, de tal
forma que o princípio de universalização que acolha a diferença nos leva a
dizer que todos devem ter o direito de exercer sua vida sexual de acordo com
seus gostos e preferências individuais (preservando, obviamente, o espaço e
integridade alheios, de modo a censurar a pedofilia e toda violência sexual,
por exemplo). De forma análoga a como a escolha por ser médico não é
universalizável, por mais nobre que seja essa profissão, também não o é a
prática heterossexual. O medo de que a escolha homossexual se alastre de modo
ameaçador à sobrevivência da humanidade é mais uma expressão do caráter cínico
das mentalidades conservadoras e reacionárias, que querem anular a diferença
através de uma defesa espúria da particularidade de seu desejo, como se este
exprimisse uma universalidade que interessaria a todos, mas que é, na verdade,
totalitária, violenta e segregadora.

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