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sábado, 8 de agosto de 2015

Previsões


Caso o PT saia do governo federal, por meio de impeachment e/ou de novas eleições, o cenário que prevejo contempla os seguintes itens.

1. A taxa básica de juros, hoje no patamar de 13%, subirá rapidamente, tendendo aos 40%, nível a que chegou algumas vezes no governo FHC. Tal como o atual ministro da fazenda — que trabalhou com FHC — demonstra em sua atuação econômica, esse é um dispositivo preferido das políticas neoliberais que visam reprimir a demanda interna, ao mesmo tempo em que transferem renda para o capital financeiro. No atual governo, Joaquim Levy é apenas uma peça de uma engrenagem que possui vários contrapesos, mas em um governo apenas do PSDB (e suas alianças com os DEM e PMDB), essa lógica de juros altos não teria nenhum freio.

2. A inflação se manterá na faixa de 10%, como consequência (ou melhor: sintoma) da condição generalizada de arrocho dos salários e do aumento expressivo dos juros; assim como ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso, o represamento da carga inflacionária será o carro-chefe da propaganda do governo, e servirá de justificativa para diversas medidas “impopulares”. Repetindo como um mantra o que se ouviu nos governos até 2002, o tempo todo a grande mídia alertará que “a inflação é o maior imposto que o brasileiro paga” e então tudo que se propagandeia como necessário para contê-la torna-se aceitável. Tal como nos anos de FHC, o trabalhador será instado a perder direitos e salários para manter a inflação baixa.

3. A taxa de desemprego média no país saltará dos agora menos de 10% para algo próximo a 20%. A manutenção de um contingente expressivo de desempregados é indispensável para diminuir o poder de negociação salarial das classes médias e baixas, e algo que irritou e ainda irrita profundamente a grande e pequena burguesia é o aumento expressivo do custo dos serviços de subemprego, como na construção civil e dos trabalhadores domésticos. — Que dona de casa de classe média não reclamou que “está difícil achar empregada hoje em dia”?

4. O dólar será mantido artificialmente no patamar atual, custe o que custar, principalmente por meio de sucessivas intervenções do BC, gastando-se o que for preciso das reservas cambiais. Essa manutenção é imprescindível para segurar a escalada inflacionária, entre outras coisas devido ao fato de que, com a instabilidade da mudança de governo, somada à crise europeia, nossa moeda poderá sofrer sucessivos ataques especulativos (embora, em um primeiro momento, o dólar na verdade retroceda, o que deverá ser exposto como uma espécie de boas-vindas do mercado ao novo governo).

5. As reservas cambiais do país, hoje em mais de 300 bilhões de dólares, diminuirão drasticamente, não apenas em decorrência do custo do represamento cambial, mas também em virtude das diversas políticas de investimento, como as capitaneadas pelo BNDES, e também por meio das diversas vias de escoamento pela corrupção.

6. Tendo em vista o somatório da leniência da polícia federal, do judiciário e sob a proteção benevolente da grande mídia — que sempre ocorrem relativos aos casos e denúncias relativas aos membros do PSDB —, os escândalos de corrupção do governo federal irão desaparecer completamente (ou diminuir drasticamente) do noticiário por vários e vários anos. Eles serão substituídos pela repetição infinita dos casos do atual governo federal, que se somarão aos dos governos estaduais e municipais petistas.

7. Serão feitos todos os esforços para mostrar que a Petrobrás, corroída em suas entranhas, deverá ser privatizada. Como se trata de um capital simbólico forte do país, é muito difícil prever o desfecho da batalha em torno disso. De qualquer forma, as reservas do pré-sal serão entregues a empresas multinacionais estrangeiras, tal como já consta em projeto de lei de José Serra, que deverá ser ampliado.

8. Outra frente de batalha no mesmo sentido será a da educação federal. Todos os esforços serão feitos para privatizar as universidades públicas, que passarão a ser “a bola da vez” em algum momento, tal como a Petrobrás. A ideia de um Estado mínimo, que entrega ao grande capital, do país ou estrangeiro, tudo o que for possível, e desregulamenta o maior número de contratos entre os indivíduos: essa será a premissa fundamental do possível novo governo. Uma primeira etapa consistirá na cobrança de mensalidades “dos alunos que podem pagar” (já houve manifestação nesse sentido por políticos do PSDB há algum tempo), preparando o terreno para a privatização gradual e definitiva. Uma vez que 99% da população já não participa desse benefício do ensino público federal, este movimento privatista não trará ônus de popularidade, mais uma vez devidamente amparado por editoriais e textos de colunistas da grande imprensa.

9. As políticas sociais serão fortemente represadas. Programas como Minha casa, minha vida e Bolsa-família, caso não sejam extintos, serão mantidos em patamar meramente simbólico ou cosmético, sem alcance social significativo. Eu diria que a direita política representada pelo PSDB não quererá manter o Bolsa-família nem mesmo por conta de votos, pois estes lhe serão dados através do “não-voto” no PT (que isso se mantenha no médio e longo prazo não se pode prever). Nessa mesma seara, o que se viu com Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos e Minorias terá sido apenas uma “amostra-grátis” do que virá pela frente, com um avanço significativo dos representantes de uma mentalidade francamente conservadora, dando-se muito mais espaço para políticos como Jair Bolsonaro.

10. Por fim, em consequência da política agressiva de contenção cambial, do aumento substantivo da taxa básica de juros, do acobertamento generalizado e programático da corrupção no governo federal e de uma forte estagnação econômica, pode-se antever algo que tem o aroma de catastrofismo, mas que segue a linha traçada por todas essas variáveis: o país caminhará para a necessidade de novamente recorrer a empréstimos do FMI, cujas exigências consistirão no aprofundamento dessas mesmas medidas de austeridade, corte de benefícios sociais, aumento de juros, contenção da inflação etc. etc.


sábado, 1 de agosto de 2015

A quem interessa a crise?


Que o Brasil enfrente graves dificuldades atualmente é inegável. A questão a ser investigada é a propriedade da qualificação de uma crise, e isto deve se visto de forma bem objetiva: não apenas fazendo uma avaliação de conjunto dos indicadores econômicos, sociais, políticos, trabalhistas etc., mas também colocando na pauta da discussão o enorme peso dos interesses políticos e econômicos para que assim qualifiquemos essa situação geral do país.

A palavra “crise” deriva do verbo grego krinein, que significa julgar, criticar, tendo o significado mais originário de separar. Quem critica exercerá sempre, de uma forma ou de outra, uma separação entre o que é bom e ruim, verdadeiro e falso, original e imitação, sincero e desonesto etc. “Crise” também se vincula a uma cisão, pois ela qualifica, não uma circunstância em que há problemas, dificuldades, falhas, instabilidade etc., mas sim o ponto em que todos esses aspectos negativos adquiriram uma agudeza tal que exige uma mudança substantiva de rumos, em virtude de os princípios que dão suporte a uma determinada realidade — desde o estado de saúde de uma pessoa até o meio ambiente planetário — terem se tornado insustentáveis.

No contexto atual da vida política brasileira, para os grupos econômicos que, através de diversos representantes, governaram o Brasil até antes da eleição de Lula na presidência, nada é mais apropriado do que fomentar a percepção de um complexo crítico no âmbito nacional. Cada indicador negativo não é apresentado nos meios de comunicação como um elemento que se deva somar a todos os outros, positivos e negativos, ao longo dos últimos doze anos, para compor uma avaliação conjunta, e também em contraposição aos governos anteriores. Cada um desses índices é apresentado como consumação do juízo macro de uma situação crítica. Em outras palavras, trata-se de uma relação metonímica, em que somos instados a comprar o todo através das partes.

Essa estratégia metonímica, entretanto, é algo com que todos os consumidores de cultura de massa estão fortemente acostumados. Os objetos de consumo, seja um tênis ou uma música de sucesso, são marcados essencialmente pelo fato de que adensam uma significação global. Uma camiseta da marca X, ao ser consumida, e não apenas usada como algo que serve para cobrir e embelezar o corpo, é apropriada como o signo global de juventude, alegria, despojamento. Um celular, de forma análoga, é consumido ao depositar na palma da mão o privilégio grandiloquente de fazer parte do mundo da tecnologia, e seu poder de conexões instantâneas de voz e dados com o planeta materializa essa mentalidade metonímica de comprar o todo através de uma pequena parcela. Isso mostra que o consumo é baseado na exclusão da perspectiva do progresso da soma e acúmulo de fases, de elementos que se agregam para gerar um significado total. Em vez disso, temos a perspectiva do fetiche, ou seja, de um objeto, ideia, palavra, símbolo etc., que, em seu caráter único e eloquente, nos dá acesso a forças e princípios universais, tal como os símbolos religiosos.

Nesse cenário, percebemos claramente o poder econômico apoiar-se em um modo de percepção que já existe, sendo exercido de forma enfática nos julgamentos políticos. Tal como um Big Mac não é apenas um alimento, mas a consumação instantânea de um modo feliz e colorido de ser, cada indicador negativo apresentado no Jornal Nacional confirma a percepção de um estado crítico no país, que demandaria um mudança drástica de rumo. Só que isso, tal como toda a propaganda político-mediática nos quer fazer crer, não tem como se realizar no interior do atual governo, que se encontraria corroído pelos sucessivos escândalos de corrupção, também eles apresentados de forma metonímica e fetichista. Em vez de ser contraposta à vergonhosa desfaçatez com que os governos anteriores abafaram os casos de corrupção, a evidência dos atuais serve como elogio fetichizado da situação de impunibilidade anterior!