Que o Brasil enfrente graves dificuldades
atualmente é inegável. A questão a ser investigada é a propriedade da
qualificação de uma crise, e isto deve se visto de forma bem objetiva:
não apenas fazendo uma avaliação de conjunto dos indicadores econômicos,
sociais, políticos, trabalhistas etc., mas também colocando na pauta da
discussão o enorme peso dos interesses políticos e econômicos para que assim
qualifiquemos essa situação geral do país.
A palavra “crise” deriva do verbo grego krinein,
que significa julgar, criticar, tendo o significado mais originário de separar.
Quem critica exercerá sempre, de uma forma ou de outra, uma separação entre
o que é bom e ruim, verdadeiro e falso, original e imitação, sincero e
desonesto etc. “Crise” também se vincula a uma cisão, pois ela qualifica, não
uma circunstância em que há problemas, dificuldades, falhas, instabilidade
etc., mas sim o ponto em que todos esses aspectos negativos adquiriram uma
agudeza tal que exige uma mudança substantiva de rumos, em virtude de os
princípios que dão suporte a uma determinada realidade — desde o estado de
saúde de uma pessoa até o meio ambiente planetário — terem se tornado
insustentáveis.
No contexto atual da vida política brasileira,
para os grupos econômicos que, através de diversos representantes, governaram o
Brasil até antes da eleição de Lula na presidência, nada é mais apropriado do
que fomentar a percepção de um complexo crítico no âmbito nacional. Cada
indicador negativo não é apresentado nos meios de comunicação como um elemento
que se deva somar a todos os outros, positivos e negativos, ao longo dos
últimos doze anos, para compor uma avaliação conjunta, e também em
contraposição aos governos anteriores. Cada um desses índices é apresentado
como consumação do juízo macro de uma
situação crítica. Em outras palavras, trata-se de uma relação metonímica, em que somos instados a
comprar o todo através das partes.
Essa estratégia metonímica, entretanto, é algo
com que todos os consumidores de cultura de massa estão fortemente acostumados.
Os objetos de consumo, seja um tênis ou uma música de sucesso, são marcados
essencialmente pelo fato de que adensam
uma significação global. Uma camiseta da marca X, ao ser consumida, e
não apenas usada como algo que serve para cobrir e embelezar o corpo, é
apropriada como o signo global de juventude, alegria, despojamento. Um
celular, de forma análoga, é consumido ao depositar na palma da mão o
privilégio grandiloquente de fazer parte do mundo da tecnologia, e seu poder de
conexões instantâneas de voz e dados com o planeta materializa essa mentalidade
metonímica de comprar o todo através de uma pequena parcela. Isso mostra que o
consumo é baseado na exclusão da perspectiva do progresso da soma e acúmulo de
fases, de elementos que se agregam para gerar um significado total. Em vez
disso, temos a perspectiva do fetiche, ou seja, de um objeto, ideia,
palavra, símbolo etc., que, em seu caráter único e eloquente, nos dá acesso a
forças e princípios universais, tal como os símbolos religiosos.
Nesse cenário, percebemos claramente o poder
econômico apoiar-se em um modo de percepção que já existe, sendo exercido de
forma enfática nos julgamentos políticos. Tal como um Big Mac não é apenas um
alimento, mas a consumação instantânea de um modo feliz e colorido de ser, cada
indicador negativo apresentado no Jornal Nacional confirma a percepção de um
estado crítico no país, que demandaria um mudança drástica de rumo. Só que
isso, tal como toda a propaganda político-mediática nos quer fazer crer, não
tem como se realizar no interior do atual governo, que se encontraria corroído
pelos sucessivos escândalos de corrupção, também eles apresentados de forma
metonímica e fetichista. Em vez de ser contraposta à vergonhosa desfaçatez com
que os governos anteriores abafaram os casos de corrupção, a evidência dos
atuais serve como elogio fetichizado da situação de impunibilidade anterior!
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