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sábado, 1 de agosto de 2015

A quem interessa a crise?


Que o Brasil enfrente graves dificuldades atualmente é inegável. A questão a ser investigada é a propriedade da qualificação de uma crise, e isto deve se visto de forma bem objetiva: não apenas fazendo uma avaliação de conjunto dos indicadores econômicos, sociais, políticos, trabalhistas etc., mas também colocando na pauta da discussão o enorme peso dos interesses políticos e econômicos para que assim qualifiquemos essa situação geral do país.

A palavra “crise” deriva do verbo grego krinein, que significa julgar, criticar, tendo o significado mais originário de separar. Quem critica exercerá sempre, de uma forma ou de outra, uma separação entre o que é bom e ruim, verdadeiro e falso, original e imitação, sincero e desonesto etc. “Crise” também se vincula a uma cisão, pois ela qualifica, não uma circunstância em que há problemas, dificuldades, falhas, instabilidade etc., mas sim o ponto em que todos esses aspectos negativos adquiriram uma agudeza tal que exige uma mudança substantiva de rumos, em virtude de os princípios que dão suporte a uma determinada realidade — desde o estado de saúde de uma pessoa até o meio ambiente planetário — terem se tornado insustentáveis.

No contexto atual da vida política brasileira, para os grupos econômicos que, através de diversos representantes, governaram o Brasil até antes da eleição de Lula na presidência, nada é mais apropriado do que fomentar a percepção de um complexo crítico no âmbito nacional. Cada indicador negativo não é apresentado nos meios de comunicação como um elemento que se deva somar a todos os outros, positivos e negativos, ao longo dos últimos doze anos, para compor uma avaliação conjunta, e também em contraposição aos governos anteriores. Cada um desses índices é apresentado como consumação do juízo macro de uma situação crítica. Em outras palavras, trata-se de uma relação metonímica, em que somos instados a comprar o todo através das partes.

Essa estratégia metonímica, entretanto, é algo com que todos os consumidores de cultura de massa estão fortemente acostumados. Os objetos de consumo, seja um tênis ou uma música de sucesso, são marcados essencialmente pelo fato de que adensam uma significação global. Uma camiseta da marca X, ao ser consumida, e não apenas usada como algo que serve para cobrir e embelezar o corpo, é apropriada como o signo global de juventude, alegria, despojamento. Um celular, de forma análoga, é consumido ao depositar na palma da mão o privilégio grandiloquente de fazer parte do mundo da tecnologia, e seu poder de conexões instantâneas de voz e dados com o planeta materializa essa mentalidade metonímica de comprar o todo através de uma pequena parcela. Isso mostra que o consumo é baseado na exclusão da perspectiva do progresso da soma e acúmulo de fases, de elementos que se agregam para gerar um significado total. Em vez disso, temos a perspectiva do fetiche, ou seja, de um objeto, ideia, palavra, símbolo etc., que, em seu caráter único e eloquente, nos dá acesso a forças e princípios universais, tal como os símbolos religiosos.

Nesse cenário, percebemos claramente o poder econômico apoiar-se em um modo de percepção que já existe, sendo exercido de forma enfática nos julgamentos políticos. Tal como um Big Mac não é apenas um alimento, mas a consumação instantânea de um modo feliz e colorido de ser, cada indicador negativo apresentado no Jornal Nacional confirma a percepção de um estado crítico no país, que demandaria um mudança drástica de rumo. Só que isso, tal como toda a propaganda político-mediática nos quer fazer crer, não tem como se realizar no interior do atual governo, que se encontraria corroído pelos sucessivos escândalos de corrupção, também eles apresentados de forma metonímica e fetichista. Em vez de ser contraposta à vergonhosa desfaçatez com que os governos anteriores abafaram os casos de corrupção, a evidência dos atuais serve como elogio fetichizado da situação de impunibilidade anterior!


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