Caso
o PT saia do governo federal, por meio de impeachment e/ou de novas eleições, o
cenário que prevejo contempla os seguintes itens.
1.
A taxa básica de juros, hoje no patamar de 13%, subirá rapidamente, tendendo
aos 40%, nível a que chegou algumas vezes no governo FHC. Tal como o atual
ministro da fazenda — que trabalhou com FHC — demonstra em sua atuação
econômica, esse é um dispositivo preferido das políticas neoliberais que visam
reprimir a demanda interna, ao mesmo tempo em que transferem renda para o
capital financeiro. No atual governo, Joaquim Levy é apenas uma peça de uma
engrenagem que possui vários contrapesos, mas em um governo apenas do PSDB (e
suas alianças com os DEM e PMDB), essa lógica de juros altos não teria nenhum
freio.
2.
A inflação se manterá na faixa de 10%, como consequência (ou melhor: sintoma)
da condição generalizada de arrocho dos salários e do aumento expressivo dos
juros; assim como ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso, o represamento
da carga inflacionária será o carro-chefe da propaganda do governo, e servirá
de justificativa para diversas medidas “impopulares”. Repetindo como um mantra
o que se ouviu nos governos até 2002, o tempo todo a grande mídia alertará que
“a inflação é o maior imposto que o brasileiro paga” e então tudo que se
propagandeia como necessário para contê-la torna-se aceitável. Tal como nos
anos de FHC, o trabalhador será instado a perder direitos e salários para
manter a inflação baixa.
3.
A taxa de desemprego média no país saltará dos agora menos de 10% para algo
próximo a 20%. A manutenção de um contingente expressivo de desempregados é
indispensável para diminuir o poder de negociação salarial das classes médias e
baixas, e algo que irritou e ainda irrita profundamente a grande e pequena burguesia
é o aumento expressivo do custo dos serviços de subemprego, como na construção
civil e dos trabalhadores domésticos. — Que dona de casa de classe média não
reclamou que “está difícil achar empregada hoje em dia”?
4.
O dólar será mantido artificialmente no patamar atual, custe o que custar,
principalmente por meio de sucessivas intervenções do BC, gastando-se o que for
preciso das reservas cambiais. Essa manutenção é imprescindível para segurar a
escalada inflacionária, entre outras coisas devido ao fato de que, com a
instabilidade da mudança de governo, somada à crise europeia, nossa moeda
poderá sofrer sucessivos ataques especulativos (embora, em um primeiro momento,
o dólar na verdade retroceda, o que deverá ser exposto como uma espécie de
boas-vindas do mercado ao novo governo).
5.
As reservas cambiais do país, hoje em mais de 300 bilhões de dólares,
diminuirão drasticamente, não apenas em decorrência do custo do represamento
cambial, mas também em virtude das diversas políticas de investimento, como as
capitaneadas pelo BNDES, e também por meio das diversas vias de escoamento pela
corrupção.
6.
Tendo em vista o somatório da leniência da polícia federal, do judiciário e sob
a proteção benevolente da grande mídia — que sempre ocorrem relativos aos casos
e denúncias relativas aos membros do PSDB —, os escândalos de corrupção do
governo federal irão desaparecer completamente (ou diminuir drasticamente) do
noticiário por vários e vários anos. Eles serão substituídos pela repetição
infinita dos casos do atual governo federal, que se somarão aos dos governos
estaduais e municipais petistas.
7.
Serão feitos todos os esforços para mostrar que a Petrobrás, corroída em suas
entranhas, deverá ser privatizada. Como se trata de um capital simbólico forte
do país, é muito difícil prever o desfecho da batalha em torno disso. De
qualquer forma, as reservas do pré-sal serão entregues a empresas
multinacionais estrangeiras, tal como já consta em projeto de lei de José
Serra, que deverá ser ampliado.
8.
Outra frente de batalha no mesmo sentido será a da educação federal. Todos os
esforços serão feitos para privatizar as universidades públicas, que passarão a
ser “a bola da vez” em algum momento, tal como a Petrobrás. A ideia de um
Estado mínimo, que entrega ao grande capital, do país ou estrangeiro, tudo o
que for possível, e desregulamenta o maior número de contratos entre os
indivíduos: essa será a premissa fundamental do possível novo governo. Uma
primeira etapa consistirá na cobrança de mensalidades “dos alunos que podem
pagar” (já houve manifestação nesse sentido por políticos do PSDB há algum
tempo), preparando o terreno para a privatização gradual e definitiva. Uma vez
que 99% da população já não participa desse benefício do ensino público
federal, este movimento privatista não trará ônus de popularidade, mais uma vez
devidamente amparado por editoriais e textos de colunistas da grande imprensa.
9.
As políticas sociais serão fortemente represadas. Programas como Minha casa,
minha vida e Bolsa-família, caso não sejam extintos, serão mantidos em patamar
meramente simbólico ou cosmético, sem alcance social significativo. Eu diria
que a direita política representada pelo PSDB não quererá manter o Bolsa-família
nem mesmo por conta de votos, pois estes lhe serão dados através do “não-voto”
no PT (que isso se mantenha no médio e longo prazo não se pode prever). Nessa
mesma seara, o que se viu com Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos e
Minorias terá sido apenas uma “amostra-grátis” do que virá pela frente, com um
avanço significativo dos representantes de uma mentalidade francamente
conservadora, dando-se muito mais espaço para políticos como Jair Bolsonaro.
10.
Por fim, em consequência da política agressiva de contenção cambial, do aumento
substantivo da taxa básica de juros, do acobertamento generalizado e
programático da corrupção no governo federal e de uma forte estagnação
econômica, pode-se antever algo que tem o aroma de catastrofismo, mas que segue
a linha traçada por todas essas variáveis: o país caminhará para a necessidade
de novamente recorrer a empréstimos do FMI, cujas exigências consistirão no
aprofundamento dessas mesmas medidas de austeridade, corte de benefícios
sociais, aumento de juros, contenção da inflação etc. etc.
3 comentários:
Muito bem, Verlaine! Esperemos que o seu prognóstico não se materialize, e a democracia sobreviva e se fortaleça! Abraços.
Muito bem Verlaine! Esperemos que seu prognóstico não se materialize e a democracia sobreviva e se fortaleça! Abraços.
Obrigado, Marta! De fato, tudo o que eu gostaria é de não precisar ver se tais prognósticos estão certos. Grande abraço.
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